Caros Amigos,
achei vergonhoso o conjunto de matérias sobre a China publicadas na última edição do jornal. A forma como as matérias NÃO FALAM da realidade chinesa as fazem parecer quase publicidade ou matéria paga.
A China é uma ditadura feroz, não só com censura à imprensa e à internet, mas inclusive com interdições quanto a se poder publicar um jornal ou abrir um site. A China tem milhares de presos políticos, tortura institucionalizada, pena de morte ampla e indiscriminadamente aplicada, uma polícia truculenta, que reprime as menores manifestações de dissidência política ou mesmo religiosa.
Se Marx e Engels se aplicam à China é porque a situação da classe trabalhadora lembra a da Inglaterra do século XIX: uma camada de operários que trabalham 12 horas por dia ou mais, pagos com salários de fome e sem direito a nenhum tipo de descanso, e um vasto contingente de camponeses – 800 milhões – que estão perdendo o direito a suas terras para fazerem um “exército industrial de reserva” miserável nas cidades. O país está revertendo a reforma agrária que assegurava uma condição mínima de renda, de inserção social e de pertencimento a uma comunidade, para transformar os camponeses em mendigos urbanos, atomizados e deslocalizados, num cenário muito familiar a nós. A prosperidade não vai chegar a essas pessoas.
O processo de conversão da China ao capitalismo reinstituiu uma sociedade de classes muito mais brutal e sem mediações do que as sociedades de classes do Ocidente. Nenhum milionário ocidental tem o poder de quem tem dinheiro na China. O Partido Comunista Chinês há muito tempo não tem nada de comunista ou marxista, sendo apenas um estamento investindo em se perpetuar no poder. Toda discussão pública sobre o sistema político é proibida. Ciente do próprio déficit de legitimidade, o PCC investe em ufanismos nacionalistas, como as Olimpíadas e o lançamento de foguetes espaciais. O PCC sabe da fragilidade de sua base de sustentação e corre atrás do prejuízo, sobretudo prometendo a prosperidade capitalista, como cenoura para seduzir a população.
Não entendi e achei lamentável que Jayme Martins fosse convidado para escrever um artigo em “Caros Amigos”. Eu já o ouvi, numa palestra na USP, usar o argumento de Deng, que ele cita no artigo (“não importa a cor do gato; importa que ele cace os ratos”), para desqualificar o socialismo no melhor estilo da revista Veja, irônico e desdenhoso, qualquer coisa como: “só ingênuos ainda acreditam em sociedades socialistas; só o capitalismo pode prover riqueza e prosperidade”. A frase de Deng é usada para dizer: sejamos pragmáticos, é o mercado que funciona, não o Estado; não adiantam princípios igualitários, o que importa são os resultados, leia-se, a produção de mercadorias. É a senha para tornar moralmente aceitável o capitalismo selvagem que se instalou lá. É inacreditável a passagem do artigo na qual Jayme Martins usa uma citação da “Crítica à Economia Política” de Marx para chancelar sua posição – usar Marx para legitimar a mais crua versão do neocapitalismo!
A China não é uma potência mundial emergente e benigna, que fará um desejado contraponto aos Estados Unidos. A China tem uma política externa truculenta e beligerante, não se dando sequer ao trabalho de disfarçar que assume que o seu poder lhe dá prerrogativas de decidir e agir unilateralmente. A política asiática da China é muito semelhante à política dos EUA para a América Latina – de deslavado imperialismo. A ofensiva africana da China envolve compromissos e a sustentação de governos carniceiros, em troca de vantagens econômicas, numa abordagem claramente neocolonial. O envolvimento da China em Darfur foi direto e flagrante e o governo da China nem se deu ao trabalho de responder às críticas que recebeu.
A China tem sido usada, nos últimos anos, como o grande argumento do capitalismo: “Vejam a arrancada que pode dar um país quando se livra dos dogmas socialistas!”. O que está se criando lá é uma sociedade capitalista da pior espécie e uma potência capitalista que promete herdar e assumir o papel desempenhado primeiro pelo Império Britânico e depois pelos Estados Unidos no controle mundial da produção e circulação de riquezas. Para nós, socialistas, a emergência da China é razão de preocupação, não de comemoração. É o que eu esperaria que “Caros Amigos” mostrasse, e não que fizesse coro com outras publicações que festejam o sucesso chinês e o apresentam como porta-estandarte do capitalismo para o Terceiro Mundo.
Saudações, Bruno Dallari
Bruno Dallari é Professor do Departamento de Linguística da PUC-SP