Blog de Christy Ganzert Pato
Diálogos em terra arrasadaArquivo paraA Lógica do Lucro
Empresas mudam posição e elevam alta do dólar no país
São Paulo, quarta-feira, 08 de outubro de 2008 
Empresas mudam posição e elevam alta do dólar no país
Corrida ao mercado de câmbio impulsiona moeda
GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA
DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL
Além da crise de crédito e da fuga de recursos para investimentos de menor risco, a alta do dólar, no Brasil, que já chega a cerca de 50% desde agosto, tem um componente adicional.
Muitas empresas que fizeram aposta de alto risco na manutenção do dólar numa faixa de R$ 1,60 a R$ 1,70 até o final do ano em operações complexas de câmbio estão desmontando suas posições abruptamente e, para isso, compram dólar de forma alucinada.
É essa a razão que fez o dólar subir ontem 5,14% e atingir R$ 2,311 -maior valor desde 31 de maio de 2006-, apesar das vendas da moeda realizadas pelo Banco Central.
A equipe econômica, incluindo o BC, já foi informada desse movimento e nada pode fazer. São operações legais e sigilosas. Só os bancos e as empresas que realizaram a operação podem tornar as informações transparentes.
Os rumores do mercado são que o total dessas operações pode ter atingido R$ 40 bilhões. Para muitos especialistas, depois da conclusão dessas operações de desmonte, o dólar deve recuar.
A duas únicas operações que vieram a público foram da Aracruz e da Sadia. As perdas da Aracruz somaram R$ 1,9 bilhão, e as da Sadia, R$ 750 milhões. As informações do mercado são que muitas outras empresas e fundos de investimento fizeram essas mesmas operações e agora se desfazem delas para evitar um prejuízo maior se o dólar subir mais.
Complexas e sofisticadas, essas operações de derivativos proporcionaram lucros enormes às empresas e continuariam a possibilitá-los, caso a crise não tivesse alterado o rumo dos acontecimentos. Nenhuma instituição previa que o dólar fosse romper a barreira de R$ 1,90, muito menos que chegasse a R$ 2,30.
Apesar de complexas, as operações tinham mais ou menos o seguinte formato: as empresas ou fundos apostaram que o dólar não iria passar de R$ 1,90 neste ano. Elas venderam para os bancos opções de compra de dólar fixando este limite para o dólar. Quando as empresas fizeram essas operações, a cotação da moeda americana estava em cerca de R$ 1,60.
Essas operações foram registradas na BM&F, na Cetip e em mercados de balcão fora do Brasil (“offshore”). A pergunta que se faz é: se ninguém apostava na alta do dólar, por que alguns bancos aceitavam comprar essas opções de alto risco dessas empresas?
A resposta é que os bancos compravam esses títulos e os lançavam contabilmente no chamado Livro de Volatilidade, de operações de altíssimo risco, e ao mesmo tempo faziam o chamado “hedge” (proteção) para se protegerem de eventuais perdas. Ou seja, o banco não perdia com a operação e poderia ganhar muito caso o dólar ultrapassasse a barreira de R$ 1,90, como aconteceu.
Muitas dessas operações de alto risco foram casadas com algum tipo de empréstimo contraído num banco ou num fundo de investimento. As instituições ofereciam ao mesmo tempo empréstimos a juros favorecidos caso as empresas aceitassem fazer essas opções derivativas de venda de dólar a futuro. O mercado apelidou essas operações casadas de “tarn” -”lago nas montanhas”, em inglês.
Com a alta do dólar, as empresas, agora, estão correndo para desfazer suas posições no mercado de câmbio, apesar de as opções não terem vencido ainda. O problema é que, quanto mais sobe o dólar, maiores são as perdas das empresas. Por isso, as empresas estão comprando dólar para zerar suas posições, como se diz no jargão do mercado financeiro.
Essas operações chegaram a ser estudadas por alguns grandes bancos, mas eles preferiram não fazê-las. Foram consideradas de risco muito elevado.
Contra a parede
Ontem, o BC voltou a realizar um leilão de contratos de “swap” cambial, oferecendo aos bancos papéis que pagam a variação do câmbio em determinado período. Em troca, o BC recebe juros. No entanto, de novo, foi efetivamente negociado um volume inferior ao ofertado pelo BC: US$ 1,359 bilhão, contra US$ 2,3 bilhões.
Segundo a Folha apurou, muitos bancos estão pedindo taxas altas demais pelos contratos e acabam não os adquirindo porque o BC não concorda em vender nas suas condições. Essa estratégia limita o sucesso da intervenção. Assim, as instituições financeiras esperam forçar o BC a vender moeda no mercado à vista.
Estudo sobre Vioxx teve autor-fantasma
São Paulo, quarta-feira, 16 de abril de 2008 

Estudo sobre Vioxx teve autor-fantasma
Periódico “Jama” revela que multinacional Merck redigiu trabalhos sobre a droga e contratou médicos para assiná-los
Prática, conhecida como “ghostwriting”, é comum na indústria, afirma autor de estudo; empresa e médicos contestam publicação
STEPHANIE SAUL
DO “NEW YORK TIMES”
A multinacional farmacêutica Merck redigiu por conta própria dúzias de estudos sobre uma de suas drogas mais vendidas e depois recrutou médicos de prestígio para colocar os seus nomes nos relatórios antes da publicação -prática conhecida como “ghostwriting”. A revelação foi feita hoje por um artigo na revista “Jama”, da Associação Médica Americana.
O trabalho, baseado em documentos obtidos a partir de processos sobre o antiinflamatório Vioxx, oferece uma visão rara e detalhada sobre a prática do “ghostwriting” (autoria-fantasma, em inglês) em estudos médicos publicados em periódicos acadêmicos.
O artigo cita um rascunho de um estudo sobre o Vioxx que ainda estava à procura de um pesquisador de renome, identificando o autor principal apenas como “Autor externo?”
O Vioxx era uma droga campeã de vendas antes de a Merck retirá-lo do mercado em 2004, após evidências de que ele causou ataques cardíacos. No ano passado, a empresa fez um acordo para pagar US$ 4,85 bilhões a pacientes do Vioxx ou suas famílias que moveram ações contra a multinacional.
O autor principal do artigo no “Jama”, Joseph Ross, da Escola de Medicina Mount Sinai, em Nova York, disse que olhar de perto os documentos da Merck levanta questões amplas sobre a validade de boa parte das pesquisas publicadas pela indústria porque o “ghostwriting” parece ser disseminado.
“Isso quase põe em questão toda a pesquisa legítima que é feita pela indústria farmacêutica”, disse Ross, cujo artigo sai na edição de hoje do “Jama” (www.jama.com).
A Merck reconheceu que às vezes contrata jornalistas para rascunhar relatórios de pesquisa antes de enviá-los aos médicos cujos nomes acabam aparecendo na publicação. Mas a empresa contestou a conclusão do artigo de que os autores não fazem pesquisa ou análise.
E pelo menos um dos médicos cuja pesquisa publicada foi questionada pelo artigo, Stephen Ferris, professor de psiquiatria da Universidade de Nova York, disse que a noção de que o artigo que leva seu nome teve um autor-fantasma é “simplesmente falsa”. Ele disse que é “notável” que Ross e seus colegas não tenham feito apuração nenhuma além de vasculhar os documentos da Merck e ler os artigos publicados na literatura médica.
Em um editorial hoje, o “Jama” disse que a análise mostrou que a Merck aparentemente manipulara dezenas de publicações para promover o Vioxx. “Está claro que pelo menos alguns dos autores tiveram pouca participação direta”, diz o editorial. “E, ainda assim, se deixaram chamar de autores”.
O editorial convoca os editores de revistas médicas a pedir que cada autor relate sua contribuição específica para os artigos científicos.
Embora a influência da indústria sobre artigos científicos já tenha sido questionada antes, os documentos da Merck fornecem a visão mais abrangente até agora da magnitude da prática, segundo outro autor do artigo, David Egilman, da Universidade Brown.
Nos processos do caso Vioxx, milhões de documentos da Merck foram fornecidos aos querelantes. Ross e Egilman tiveram acesso a eles porque deram consultoria aos advogados dos querelantes.
Ross disse que as preocupações vão muito além da autoria, levantando questões sobre a validade dos testes clínicos nos quais se baseia a pesquisa. “Quem desenhou o teste? Quem fez a análise? Quem interpretou a análise?”
Vasculhando os documentos da Merck, Ross e seus colegas desenterraram e-mails e documentos relativos a 96 publicações. Em alguns casos, o departamento de marketing da Merck estava envolvido no planejamento dos manuscritos.

