Blog de Christy Ganzert Pato

Diálogos em terra arrasada

Arquivo paraA Lógica do Lucro

Loja de luxo no Iguatemi é suspeita de sonegar R$ 11 mi

São Paulo, sexta-feira, 07 de agosto de 2009

Loja de luxo no Iguatemi é suspeita de sonegar R$ 11 mi

Franziska Hübener vendia calçados em loja sem inscrição estadual no shopping
Polícia estima que vendas sem pagamento de ICMS tenham chegado a R$ 16 mi nos últimos dois anos; empresária não se pronuncia

CLAUDIA ROLLI
FÁTIMA FERNANDES
DA REPORTAGEM LOCAL
A loja de calçados de luxo Franziska Hübener, instalada no shopping Iguatemi, foi fechada ontem após ser alvo de uma ação de 20 policiais civis e fiscais da Secretaria Estadual da Fazenda por funcionar sem inscrição estadual e por suspeita de sonegar R$ 11 milhões nos últimos dois anos.
Sapatos, bolsas, cintos e bijuterias foram apreendidos ontem na loja da designer de calçados, citada recentemente na imprensa francesa como uma das dez melhores criadoras de sapatos do mundo. No Bom Retiro, onde funcionam o showroom da loja e o escritório, os policiais recolheram computadores, notas fiscais, livros contábeis e um caderno no qual eram anotadas as vendas sem nota -o caixa dois da loja. Procurada pela Folha, a empresária e seus representantes não foram localizados ontem.
O delegado Helio Bressan, da 1ª Delegacia de Crimes contra a Fazenda, da Polícia Civil de São Paulo, diz que a empresária é suspeita de cometer crimes contra a ordem tributária e será investigada também por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. “Desde setembro de 2007, ela vendia sem inscrição estadual. Se ela não declarou o imposto, onde está esse dinheiro? Comprou apartamento, casa, iate, o que fez?”, questiona o delegado.
Há dois inquéritos abertos contra a empresária desde junho deste ano na Polícia Civil. Um deles apura uma dívida de R$ 2,12 milhões com o fisco paulista pelo não pagamento de ICMS referente ao período de 2005 a 2007. “Ao investigar a loja, constatamos que está com a inscrição cassada, que os endereços do showroom e do escritório não correspondiam aos informados à Fazenda.
Com base nisso, pedimos mandado de busca e apreensão e recolhemos toda a mercadoria.” A polícia suspeita que metade das vendas era feita com nota e metade sem nota. E que, nos últimos dois anos, o faturamento da loja tenha chegado a R$ 16 milhões, segundo avaliação preliminar do delegado. Uma das notas fiscais encontradas no estabelecimento, durante a Operação Scarpin (em alusão a um tipo de sapato), mostra que Franziska comprou uma sapatilha por R$ 7,35 e vendeu por R$ 185 sem pagar imposto. A loja deve ficar fechada até que a inscrição estadual seja regularizada.
Seis funcionários prestaram depoimento ontem. Um deles informou que ainda não havia recebido o salário deste mês, que deveria ter sido pago ontem. “Alguns funcionários estavam registrados em empresa sem sede e sem endereço. Vamos investigar também se há crime contra a organização do trabalho”, diz o delegado.
A Folha apurou que a loja também não costumava atender fiscais da Fazenda e dificultava o relacionamento com o fisco trocando constantemente seus advogados. Desde janeiro de 2008, a loja deixou de prestar mensalmente as informações fiscais obrigatórias. Nos últimos dez anos, essa é a segunda vez que a Fazenda encontra uma loja no shopping Iguatemi funcionando sem inscrição estadual. Por meio de nota, o Iguatemi informou que “a relação que mantém com seus lojistas é de locação” e que “acompanhará com interesse o caso e aguardará a conclusão do trabalho das autoridades”.
Essa é a terceira loja de luxo que é alvo de fiscalização pelo não pagamento de tributos. Em 2005, a Daslu, de Eliana Tranchesi, foi autuada por importação irregular. No ano passado, foi condenada, em primeira instância, a pena de 94 anos e meio de prisão. No mês passado, a loja da empresária Tania Bulhões foi fiscalizada por policiais federais e auditores da Receita por suspeita de fraudes em importação de artigos de decoração e móveis.
Com DANILO BANDEIRA, colaboração para a Folha

Dívida da Aracruz cresce R$ 2,55 bilhões em um mês

São Paulo, quarta-feira, 05 de novembro de 2008

Dívida da Aracruz cresce R$ 2,55 bilhões em um mês Valor equivale a dois anos de geração de caixa da empresa, estimada em R$ 1,2 bi/ano

Empresa anunciou que até o dia 30 deste mês concluirá a negociação com os bancos; mercado recebeu bem a decisão, e ações sobem 8,4%

7.ago.08/Divulgação

Fábrica de papel e celulose da Aracruz; demora em negociar com bancos fez dívida da empresa subir de R$ 1,95 bi para R$ 4,5 bi
AGNALDO BRITO
DA REPORTAGEM LOCAL

A demora em fechar a negociação com os bancos a fim de desmontar os contratos de venda de dólar em operações de derivativos cambiais elevou a dívida da Aracruz de R$ 1,95 bilhão para R$ 4,5 bilhões, avaliam analistas de mercado.
O crescimento da dívida em pouco mais de um mês foi de R$ 2,55 bilhões, cifra equivalente a dois anos de geração de caixa da companhia (estimada em R$ 1,2 bilhão por ano) ou mais do que o lucro do Unibanco neste ano, até 30 de setembro, que foi de R$ 2,2 bilhões.
Ontem, a direção da Aracruz distribuiu fato relevante no qual anunciou, oficialmente, que chegou a um acordo com o grupo de bancos e anunciou perda de US$ 2,13 bilhões.
Procurada pela Folha, a empresa informou que não vai falar sobre as negociações, o tipo de acordo que está costurando, tampouco as conseqüências para a operação industrial do grupo no médio e longo prazos. No mercado, o anúncio foi bem recebido. As ações da Aracruz subiram 8,39%, para R$ 2,97.
Segundo a nota, 97% dos derivativos batizados no mercado de “exóticos” (por fugirem do padrão de instrumentos financeiros de proteção a variações cambiais usados por exportadores típicos como a Aracruz) foram renegociados e, segundo analistas, provavelmente por operações de empréstimos. A empresa deve assumir o valor como dívida e liquidar o passivo ao longo do tempo.
A companhia anunciou que concluirá a negociação com os bancos até o dia 30 deste mês. É esperado para o fim do mês também o detalhamento do acordo com bancos para o desmonte dos contratos de derivativos cambiais. Entre os bancos envolvidos estão o JPMorgan, Santander, Barclays, Goldman Sachs, ING, Merrill Lynch, Itaú BBA, Calyon e BNP Paribas.
“Para os bancos, foi uma solução interessante. Transfere uma operação contratual, com risco de não ser honrada, em um financiamento. A operação entra na carteira de crédito dos bancos”, diz Marcelo Brisac, analista de recursos naturais da Itaú Corretora de Valores.
Para Brisac, a exposição aos tais derivativos cambiais poderia ter sido liquidada antes. “A impressão é que daria para zerar [a dívida] antes. Talvez esperaram uma situação cambial mais favorável, mas nesse caso, o tempo só piorou as coisas.”
Felipe Ruppenthal, analista do setor de papel e celulose do banco Geração Futuro, avalia que a taxa de câmbio foi de R$ 2,10. O impacto no item endividamento da Aracruz, diz Ruppenthal, será brutal. Até 30 de setembro, a empresa tinha dívida de R$ 2,6 bilhões, uma posição confortável de 2,2 vezes a geração de caixa da empresa, de R$ 1,2 bilhão em 12 meses.
Com o mercado mundial em crescimento, esse era um múltiplo de dívida confortável, que permitia à empresa partir para o endividamento necessário ao financiamento de projetos de expansão, como a conclusão da segunda fábrica de celulose em Guaíba (RS) e os projetos para formação da base florestal da segunda unidade da Veracel (empreendimento em parceria com a Stora Enso) e da fábrica de Governador Valadares (MG). Esses projetos estão temporariamente suspensos.
“Com os derivativos, a empresa se endividou sem ter feito os investimentos”, resume Ruppenthal. Os R$ 4,5 bilhões vão elevar a dívida da Aracruz para R$ 7,15 bilhões, estima o analista, o que projeta relação entre endividamento líquido sobre geração de caixa (Ebitda) de 5,79 vezes. Significa que a empresa precisará de toda a geração de caixa, durante mais de cinco anos, para pagar a dívida.

Investidores processam empresas que tiveram perdas cambiais

São Paulo, segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Investidores processam empresas que tiveram perdas cambiais

Ações na Justiça prevêem até indenizações por dano moral em razão do “estresse” provocado por operações de risco de companhias como Aracruz e Sadia

CRISTIANE BARBIERI
DA REPORTAGEM LOCAL

As perdas das empresas com operações financeiras cambiais continuam a movimentar investidores, bancos e acionistas. Em várias frentes, eles tentam diminuir os prejuízos -ou garantir os ganhos, no caso das instituições financeiras.
Na semana passada, os bancos obtiveram decisões favoráveis em ações impetradas por duas empresas exportadoras, que tentavam suspender os prejuízos resultantes de operações financeiras cambiais. Ao mesmo tempo, continua crescendo o número de reclamações de investidores individuais na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), contra essas empresas.
Alguns desses investidores começam, inclusive, a estruturar ações para pedir indenizações. O advogado Alexandre Dantas Fronzaglia irá processar os controladores da Aracruz e da Sadia, empresas que registraram as maiores perdas com operações cambiais.
No caso da Aracruz, Fronzaglia processará VCP, Safra, família Lorentzen e BNDES. Com relação à Sadia, ele espera que a empresa se manifeste sobre seus principais acionistas.
“São os controladores quem nomeiam conselheiros que, por sua vez, escolhem administradores. Eles são os responsáveis, em última instância, pela má gestão”, diz Fronzaglia. “Além disso, houve desvio no objetivo do estatuto social, que prevê a produção de celulose e de frangos, e não especulação com derivativos financeiros.”
O advogado aponta também que a Aracruz contratou um escritório de advocacia para defender os administradores. “Ou seja, estão usando o meu dinheiro para defender quem me prejudicou”, diz Fronzaglia.
Ele pedirá indenização baseado no valor de suas ações, descontando a desvalorização do Ibovespa (índice que mede o valor médio dos papéis mais negociados na Bolsa) nos últimos meses.
Fronzaglia também pretende pedir indenização por danos morais, por conta do estresse sofrido. Os R$ 300 mil que o advogado tinha aplicados tornaram-se R$ 50 mil.
“Você busca investir em empresas sólidas, com padrões de governança, terras, fábricas, plantações e, de uma hora para outra, ela está quebrada, vítima de mau gerenciamento”, diz Fronzaglia. “Não é possível que fique por isso mesmo.”
Do mesmo modo, outros investidores também estão procurando seus direitos. “Questionei a CVM se não havia uma legislação que obrigasse as empresas a deixar bem claro as operações que fazem e o risco que representam para o investidor”, afirma o engenheiro Renato Guimarães, de Campo Grande (MS) que entrou com uma reclamação na CVM contra a Sadia. “Como sou leigo, fui perguntar a quem entende e cuida do mercado, antes de tomar alguma outra providência, como ir à Justiça.”
A Aracruz tem exposição em dólares de US$ 6,26 bilhões, sendo que US$ 4,1 bilhões numa operação financeira na qual a empresa tem de pagar em dobro a valorização do dólar. No ano, a alta da moeda foi de 31%. A fabricante de celulose tem reunido-se com 13 bancos credores, mas as negociações não chegaram a consenso.
As perspectivas parecem ficar mais difíceis para as empresas, quando começam a vir a público decisões da Justiça favorecendo bancos. A fabricante de calçados Daiby teve cassada uma liminar, na qual pedia para não ter de pagar ao HSBC perdas com a variação cambial. Na suspensão da liminar, o relator diz que o risco é a essência desse contrato.
Já a fabricante de equipamentos médicos Baumer impetrou ação com medida cautelar contra o Santander, pleiteando suspensão da cobrança de juros de parcelas de uma operação de derivativos. As parcelas, que eram de R$ 20 mil, passaram para R$ 150 mil em setembro e R$ 310 mil, em outubro. A Justiça indeferiu o pedido porque o contrato foi firmado de forma livre entre as partes.
Tanto as empresas quanto os bancos não responderam aos pedidos de entrevista.

Empresas mudam posição e elevam alta do dólar no país

São Paulo, quarta-feira, 08 de outubro de 2008

Empresas mudam posição e elevam alta do dólar no país

Corrida ao mercado de câmbio impulsiona moeda

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA
DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

Além da crise de crédito e da fuga de recursos para investimentos de menor risco, a alta do dólar, no Brasil, que já chega a cerca de 50% desde agosto, tem um componente adicional.
Muitas empresas que fizeram aposta de alto risco na manutenção do dólar numa faixa de R$ 1,60 a R$ 1,70 até o final do ano em operações complexas de câmbio estão desmontando suas posições abruptamente e, para isso, compram dólar de forma alucinada.
É essa a razão que fez o dólar subir ontem 5,14% e atingir R$ 2,311 -maior valor desde 31 de maio de 2006-, apesar das vendas da moeda realizadas pelo Banco Central.
A equipe econômica, incluindo o BC, já foi informada desse movimento e nada pode fazer. São operações legais e sigilosas. Só os bancos e as empresas que realizaram a operação podem tornar as informações transparentes.
Os rumores do mercado são que o total dessas operações pode ter atingido R$ 40 bilhões. Para muitos especialistas, depois da conclusão dessas operações de desmonte, o dólar deve recuar.
A duas únicas operações que vieram a público foram da Aracruz e da Sadia. As perdas da Aracruz somaram R$ 1,9 bilhão, e as da Sadia, R$ 750 milhões. As informações do mercado são que muitas outras empresas e fundos de investimento fizeram essas mesmas operações e agora se desfazem delas para evitar um prejuízo maior se o dólar subir mais.
Complexas e sofisticadas, essas operações de derivativos proporcionaram lucros enormes às empresas e continuariam a possibilitá-los, caso a crise não tivesse alterado o rumo dos acontecimentos. Nenhuma instituição previa que o dólar fosse romper a barreira de R$ 1,90, muito menos que chegasse a R$ 2,30.
Apesar de complexas, as operações tinham mais ou menos o seguinte formato: as empresas ou fundos apostaram que o dólar não iria passar de R$ 1,90 neste ano. Elas venderam para os bancos opções de compra de dólar fixando este limite para o dólar. Quando as empresas fizeram essas operações, a cotação da moeda americana estava em cerca de R$ 1,60.
Essas operações foram registradas na BM&F, na Cetip e em mercados de balcão fora do Brasil (“offshore”). A pergunta que se faz é: se ninguém apostava na alta do dólar, por que alguns bancos aceitavam comprar essas opções de alto risco dessas empresas?
A resposta é que os bancos compravam esses títulos e os lançavam contabilmente no chamado Livro de Volatilidade, de operações de altíssimo risco, e ao mesmo tempo faziam o chamado “hedge” (proteção) para se protegerem de eventuais perdas. Ou seja, o banco não perdia com a operação e poderia ganhar muito caso o dólar ultrapassasse a barreira de R$ 1,90, como aconteceu.
Muitas dessas operações de alto risco foram casadas com algum tipo de empréstimo contraído num banco ou num fundo de investimento. As instituições ofereciam ao mesmo tempo empréstimos a juros favorecidos caso as empresas aceitassem fazer essas opções derivativas de venda de dólar a futuro. O mercado apelidou essas operações casadas de “tarn” -”lago nas montanhas”, em inglês.
Com a alta do dólar, as empresas, agora, estão correndo para desfazer suas posições no mercado de câmbio, apesar de as opções não terem vencido ainda. O problema é que, quanto mais sobe o dólar, maiores são as perdas das empresas. Por isso, as empresas estão comprando dólar para zerar suas posições, como se diz no jargão do mercado financeiro.
Essas operações chegaram a ser estudadas por alguns grandes bancos, mas eles preferiram não fazê-las. Foram consideradas de risco muito elevado.

Contra a parede
Ontem, o BC voltou a realizar um leilão de contratos de “swap” cambial, oferecendo aos bancos papéis que pagam a variação do câmbio em determinado período. Em troca, o BC recebe juros. No entanto, de novo, foi efetivamente negociado um volume inferior ao ofertado pelo BC: US$ 1,359 bilhão, contra US$ 2,3 bilhões.
Segundo a Folha apurou, muitos bancos estão pedindo taxas altas demais pelos contratos e acabam não os adquirindo porque o BC não concorda em vender nas suas condições. Essa estratégia limita o sucesso da intervenção. Assim, as instituições financeiras esperam forçar o BC a vender moeda no mercado à vista.

Estudo sobre Vioxx teve autor-fantasma

São Paulo, quarta-feira, 16 de abril de 2008

Estudo sobre Vioxx teve autor-fantasma

Periódico “Jama” revela que multinacional Merck redigiu trabalhos sobre a droga e contratou médicos para assiná-los

Prática, conhecida como “ghostwriting”, é comum na indústria, afirma autor de estudo; empresa e médicos contestam publicação

STEPHANIE SAUL
DO “NEW YORK TIMES”

A multinacional farmacêutica Merck redigiu por conta própria dúzias de estudos sobre uma de suas drogas mais vendidas e depois recrutou médicos de prestígio para colocar os seus nomes nos relatórios antes da publicação -prática conhecida como “ghostwriting”. A revelação foi feita hoje por um artigo na revista “Jama”, da Associação Médica Americana.
O trabalho, baseado em documentos obtidos a partir de processos sobre o antiinflamatório Vioxx, oferece uma visão rara e detalhada sobre a prática do “ghostwriting” (autoria-fantasma, em inglês) em estudos médicos publicados em periódicos acadêmicos.
O artigo cita um rascunho de um estudo sobre o Vioxx que ainda estava à procura de um pesquisador de renome, identificando o autor principal apenas como “Autor externo?”
O Vioxx era uma droga campeã de vendas antes de a Merck retirá-lo do mercado em 2004, após evidências de que ele causou ataques cardíacos. No ano passado, a empresa fez um acordo para pagar US$ 4,85 bilhões a pacientes do Vioxx ou suas famílias que moveram ações contra a multinacional.
O autor principal do artigo no “Jama”, Joseph Ross, da Escola de Medicina Mount Sinai, em Nova York, disse que olhar de perto os documentos da Merck levanta questões amplas sobre a validade de boa parte das pesquisas publicadas pela indústria porque o “ghostwriting” parece ser disseminado.
“Isso quase põe em questão toda a pesquisa legítima que é feita pela indústria farmacêutica”, disse Ross, cujo artigo sai na edição de hoje do “Jama” (www.jama.com).
A Merck reconheceu que às vezes contrata jornalistas para rascunhar relatórios de pesquisa antes de enviá-los aos médicos cujos nomes acabam aparecendo na publicação. Mas a empresa contestou a conclusão do artigo de que os autores não fazem pesquisa ou análise.
E pelo menos um dos médicos cuja pesquisa publicada foi questionada pelo artigo, Stephen Ferris, professor de psiquiatria da Universidade de Nova York, disse que a noção de que o artigo que leva seu nome teve um autor-fantasma é “simplesmente falsa”. Ele disse que é “notável” que Ross e seus colegas não tenham feito apuração nenhuma além de vasculhar os documentos da Merck e ler os artigos publicados na literatura médica.
Em um editorial hoje, o “Jama” disse que a análise mostrou que a Merck aparentemente manipulara dezenas de publicações para promover o Vioxx. “Está claro que pelo menos alguns dos autores tiveram pouca participação direta”, diz o editorial. “E, ainda assim, se deixaram chamar de autores”.
O editorial convoca os editores de revistas médicas a pedir que cada autor relate sua contribuição específica para os artigos científicos.
Embora a influência da indústria sobre artigos científicos já tenha sido questionada antes, os documentos da Merck fornecem a visão mais abrangente até agora da magnitude da prática, segundo outro autor do artigo, David Egilman, da Universidade Brown.
Nos processos do caso Vioxx, milhões de documentos da Merck foram fornecidos aos querelantes. Ross e Egilman tiveram acesso a eles porque deram consultoria aos advogados dos querelantes.
Ross disse que as preocupações vão muito além da autoria, levantando questões sobre a validade dos testes clínicos nos quais se baseia a pesquisa. “Quem desenhou o teste? Quem fez a análise? Quem interpretou a análise?”
Vasculhando os documentos da Merck, Ross e seus colegas desenterraram e-mails e documentos relativos a 96 publicações. Em alguns casos, o departamento de marketing da Merck estava envolvido no planejamento dos manuscritos.