Blog de Christy Ganzert Pato
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Envio de lucros ao exterior atinge recorde
São Paulo, terça-feira, 29 de abril de 2008 
Envio de lucros ao exterior atinge recorde
Com aumento de 39% nas remessas e queda do saldo comercial, contas externas têm pior resultado desde outubro de 98
Déficit nas transações correntes soma US$ 10,8 bi até março, próximo do saldo negativo de US$ 12 bi que o BC prevê para o ano todo
NEY HAYASHI DA CRUZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
As remessas de lucros para o exterior voltaram a bater recorde no mês passado, chegando a US$ 4,345 bilhões e superando em 39% a marca anterior, que havia sido alcançada em dezembro do ano passado. Isso fez com que as contas externas do Brasil atingissem seu pior resultado em quase dez anos, segundo o Banco Central.
No mês passado, a conta de transações correntes -que contabiliza a compra e a venda de bens e serviços com outros países- ficou negativa em US$ 4,429 bilhões, o maior déficit desde outubro de 1998. Foi o sexto mês consecutivo em que esse indicador ficou no vermelho, o que não acontecia desde 2002.
As transações correntes são formadas por balança comercial (exportações menos importações), balança de serviços (pagamento de juros da dívida externa, gastos com viagens internacionais, remessas de dividendos ao exterior, entre outros) e transferências unilaterais (dinheiro enviado ao Brasil por residentes no exterior, e vice-versa).
O Brasil contabilizou um superávit nessa conta entre 2003 e 2007, graças ao desempenho da balança comercial. Mas o cenário mudou neste ano: no primeiro trimestre, essa conta teve um déficit recorde de US$ 10,757 bilhões, próximo do saldo negativo de US$ 12 bilhões que o Banco Central prevê para o ano todo. O mercado já trabalha com déficit de US$ 16,6 bilhões para o ano, segundo pesquisa feita pelo BC.
O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, diz que a volta do déficit nas contas externas já era esperada. “Os números mostram uma certa deterioração no resultado de transações correntes neste início de ano. É um quadro de menor saldo comercial e remessas de lucros bem mais elevadas”, afirma.
Para Lopes, o crescimento no envio de dividendos ao exterior não preocupa, pois indica que as empresas que atuam no Brasil estão tendo ganhos também elevados. “Se não estivessem tendo lucro, não iriam remeter [para fora do país].”
Riscos
O economista José Luiz Rossi Júnior, professor do Ibmec São Paulo, diz que o saldo negativo nas contas externas não deve ser problema, desde que a economia continue crescendo para atrair capital estrangeiro suficiente para financiar esse desequilíbrio. “Um país que espera ter um crescimento alto normalmente apresenta déficit em transações correntes”, diz, referindo-se à necessidade que um país em desenvolvimento costuma ter em importar máquinas e receber empréstimos para financiar sua expansão.
Rossi também cita as elevadas reservas em moeda estrangeira que o Brasil possui atualmente -cerca de US$ 195 bilhões- como um seguro adicional que pode ajudar o país a enfrentar algum problema que surja para financiar seu déficit externo.
Já a economista Adriana Dupita, da LCA Consultores, afirma que, caso o déficit em transações correntes fique insustentável, é possível contar também com um ajuste na taxa de câmbio. Ou seja, se o rombo for muito grande, uma desvalorização do real ajudaria a estimular exportações e, assim, equilibrar as contas externas.
“Se vai ter superávit ou déficit [em transações correntes], não é o mais importante. Importante é se o Brasil vai continuar recebendo dólares para financiar isso”, afirma Dupita. Segundo ela, mesmo num cenário externo mais incerto, os juros altos praticados no país e a expectativa de uma elevada taxa de crescimento econômico nos próximos anos devem continuar atraindo investimentos tanto financeiros quanto produtivos, ajudando a financiar o déficit externo que é esperado de agora em diante.
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. – Dilemas da política econômica
São Paulo, quinta-feira, 19 de junho de 2008 
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
Dilemas da política econômica
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Parece esgotado o caminho seguido nos últimos anos de deprimir a inflação via valorização cambial |
A ECONOMIA brasileira talvez esteja atravessando a conjuntura mais delicada desde 2002-2003. É verdade que o ritmo de crescimento continua forte, como há muito não se via. Infelizmente, dois problemas ameaçam estragar o quadro favorável: a inflação e o déficit do balanço de pagamentos em conta corrente.
Os indicadores ainda não são alarmantes. Mas a dificuldade é que, quando se tenta enfrentar um problema, corre-se o risco de agravar o outro e vice-versa. Além disso, certas maneiras de enfrentá-los podem sacrificar o crescimento da economia. A alta da inflação é fruto, em larga medida, de choques externos: os aumentos acentuados dos preços internacionais dos alimentos, do petróleo e de commodities metálicas.
O aquecimento da demanda interna também deu a sua contribuição, mas até agora o que mais pesou nos índices ao consumidor foram os aumentos dos preços dos alimentos. Já o desequilíbrio crescente nas contas externas tem pouco a ver com esses choques. O Brasil é basicamente exportador de alimentos e matérias-primas e depende pouco de combustíveis importados. Os nossos termos de troca ficaram estáveis tanto em 12 meses como no acumulado de 2008, segundo estimativas da Funcex.
O desequilíbrio na conta corrente decorre da combinação de câmbio valorizado com expansão da demanda interna. Uma forma de tentar conciliar o ajuste da conta corrente com a sustentação do ritmo de crescimento da economia seria induzir uma certa depreciação do real, invertendo parcialmente a apreciação exagerada dos anos recentes. Essa alternativa teria sido viável quando a inflação estava bem-comportada.
Agora, uma depreciação seria perigosa, pois potencializaria o impacto inflacionário dos choques externos.
Por outro lado, parece esgotado o caminho seguido nos últimos anos de deprimir a inflação via valorização cambial. O levantamento das projeções de instituições do mercado, realizado pelo Banco Central, aponta para um déficit em conta corrente de US$ 23 bilhões em 2008 e de US$ 31 bilhões em 2009 -isso com a taxa de câmbio em relação ao dólar entre R$ 1,70 e R$ 1,75 nesses dois anos.
Podemos supor que, se o BC continuar aumentando o diferencial de juros entre o Brasil e o resto do mundo, algo se fará (acumulação adicional de reservas ou restrições à entrada de capitais de curto prazo, por exemplo) para tentar evitar uma valorização adicional do real.
A eficácia da taxa básica de juro como instrumento de controle da inflação parece hoje menor -dada a necessidade de preservar, em alguma medida, a posição externa da economia. A política monetária só deveria ser usada com moderação -e complementada com outros instrumentos de combate à inflação (por exemplo: controles seletivos de crédito ao consumo, cortes de gastos não-prioritários do governo, desonerações tributárias e outras medidas para controlar pressões localizadas de preços).
Da mesma forma, como não se pode recorrer à depreciação cambial, o desequilíbrio externo deveria ser enfrentado com outros instrumentos (por exemplo: incentivos fiscais e creditícios aos setores que exportam e concorrem com importações, aumentos seletivos de tarifas de importação nos setores mais vulneráveis à concorrência externa). O grande desafio é enfrentar a inflação e o desequilíbrio externo sem sacrificar a retomada do crescimento econômico e dos investimentos.
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. , 53, escreve às quintas-feiras nesta coluna. Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).