Blog de Christy Ganzert Pato
Diálogos em terra arrasadaArquivo paraCâmbio e Taxas de Juros
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. – Dilemas da política econômica
São Paulo, quinta-feira, 19 de junho de 2008 
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
Dilemas da política econômica
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Parece esgotado o caminho seguido nos últimos anos de deprimir a inflação via valorização cambial |
A ECONOMIA brasileira talvez esteja atravessando a conjuntura mais delicada desde 2002-2003. É verdade que o ritmo de crescimento continua forte, como há muito não se via. Infelizmente, dois problemas ameaçam estragar o quadro favorável: a inflação e o déficit do balanço de pagamentos em conta corrente.
Os indicadores ainda não são alarmantes. Mas a dificuldade é que, quando se tenta enfrentar um problema, corre-se o risco de agravar o outro e vice-versa. Além disso, certas maneiras de enfrentá-los podem sacrificar o crescimento da economia. A alta da inflação é fruto, em larga medida, de choques externos: os aumentos acentuados dos preços internacionais dos alimentos, do petróleo e de commodities metálicas.
O aquecimento da demanda interna também deu a sua contribuição, mas até agora o que mais pesou nos índices ao consumidor foram os aumentos dos preços dos alimentos. Já o desequilíbrio crescente nas contas externas tem pouco a ver com esses choques. O Brasil é basicamente exportador de alimentos e matérias-primas e depende pouco de combustíveis importados. Os nossos termos de troca ficaram estáveis tanto em 12 meses como no acumulado de 2008, segundo estimativas da Funcex.
O desequilíbrio na conta corrente decorre da combinação de câmbio valorizado com expansão da demanda interna. Uma forma de tentar conciliar o ajuste da conta corrente com a sustentação do ritmo de crescimento da economia seria induzir uma certa depreciação do real, invertendo parcialmente a apreciação exagerada dos anos recentes. Essa alternativa teria sido viável quando a inflação estava bem-comportada.
Agora, uma depreciação seria perigosa, pois potencializaria o impacto inflacionário dos choques externos.
Por outro lado, parece esgotado o caminho seguido nos últimos anos de deprimir a inflação via valorização cambial. O levantamento das projeções de instituições do mercado, realizado pelo Banco Central, aponta para um déficit em conta corrente de US$ 23 bilhões em 2008 e de US$ 31 bilhões em 2009 -isso com a taxa de câmbio em relação ao dólar entre R$ 1,70 e R$ 1,75 nesses dois anos.
Podemos supor que, se o BC continuar aumentando o diferencial de juros entre o Brasil e o resto do mundo, algo se fará (acumulação adicional de reservas ou restrições à entrada de capitais de curto prazo, por exemplo) para tentar evitar uma valorização adicional do real.
A eficácia da taxa básica de juro como instrumento de controle da inflação parece hoje menor -dada a necessidade de preservar, em alguma medida, a posição externa da economia. A política monetária só deveria ser usada com moderação -e complementada com outros instrumentos de combate à inflação (por exemplo: controles seletivos de crédito ao consumo, cortes de gastos não-prioritários do governo, desonerações tributárias e outras medidas para controlar pressões localizadas de preços).
Da mesma forma, como não se pode recorrer à depreciação cambial, o desequilíbrio externo deveria ser enfrentado com outros instrumentos (por exemplo: incentivos fiscais e creditícios aos setores que exportam e concorrem com importações, aumentos seletivos de tarifas de importação nos setores mais vulneráveis à concorrência externa). O grande desafio é enfrentar a inflação e o desequilíbrio externo sem sacrificar a retomada do crescimento econômico e dos investimentos.
PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. , 53, escreve às quintas-feiras nesta coluna. Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).
ALEXANDRE SCHWARTSMAN – Uma idéia “muy amiga”
Ressalte-se que, no caso dos artigos assinados, não necessariamente concordo com a avaliação feita pelo autor. Mas se ele foi incluído na clipagem é porque acho importante o debate suscitado.
São Paulo, quarta-feira, 16 de abril de 2008 
ALEXANDRE SCHWARTSMAN
Uma idéia “muy amiga”
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A experiência argentina com metas para a taxa de câmbio está, pois, levando o país ao descontrole inflacionário |
A USINA de más idéias não parece fechar. Seu mais recente produto é a proposta de alteração do modus operandi do Banco Central, que, em vez de ter a inflação como meta, passaria a ajustar a política monetária com o objetivo de manter a taxa de câmbio a níveis considerados “competitivos”. Não é preciso, porém, sequer entrar na controvérsia sobre qual é o nível “competitivo” do câmbio (os iluminados que hoje juram que o câmbio de equilíbrio é de R$ 2,30 contra o dólar previram uma crise do balanço de pagamentos quando o câmbio baixou a menos de R$ 3,50) para mostrar que essa idéia não faz o menor sentido, como freqüentemente acontece nestas plagas.
Há nela um problema primário: confunde a taxa nominal de câmbio (a cotação da moeda) com a taxa real de câmbio, aquela ajustada pela diferença da inflação entre países. Implícita à idéia há a noção de que o BC pode fixar a taxa real de câmbio, isto é, controlar a taxa nominal e, simultaneamente, a inflação, mas, como veremos, trata-se de uma impossibilidade.
Não é difícil controlar a taxa nominal de câmbio. No limite, o BC sempre pode fixá-la, ou, mesmo que não a fixe formalmente, pode, pela compra e venda de moeda estrangeira, devidamente apoiada pela política monetária, manter a taxa de câmbio no patamar que desejar. O truque está na definição da política monetária: a taxa interna de juros (ajustada pelo risco) não pode ser diferente da taxa internacional de juros. Se for superior à taxa internacional, a moeda tende a se apreciar, e, se for inferior a esta, a taxa tende a se depreciar.
Note-se que, em tal situação, não há decisão sobre a taxa local de juros, pois ela sempre será balizada pela taxa internacional, isto é, sob regimes de câmbio (quase) fixo, a política monetária deixa de ser autônoma. No entanto, não há garantia nenhuma de que a taxa de juros coerente com determinado patamar da taxa de câmbio também seja congruente com o equilíbrio interno, um fenômeno que uma breve olhada a sul da fronteira pode iluminar.
Assim, no período 1999-2001, a Argentina, sob o regime da conversibilidade, precisou conviver com taxas reais de juros extremamente elevadas, refletindo os prêmios de risco externo, passando por três anos de deflação até o colapso final.
Agora, sob condições antípodas (preços de exportação em alta e taxa internacionais mais baixas), o problema é exatamente o oposto, ou seja, a inflação se acelera rapidamente. Como há sérios reparos à qualidade da medida de inflação (oficialmente 8,8% até março), devemos usar uma medida alternativa, o deflator do PIB, segundo o qual a inflação se encontrava próxima a 18% ao final de 2007.
Isto dito, se a inflação local supera, em muito, a externa, a taxa real de câmbio na Argentina deve ter se apreciado, a despeito da estabilidade da taxa nominal de câmbio (entre 3,10 e 3,15 pesos por dólar). De fato, usando o deflator do PIB como medida de inflação, podemos mostrar que a taxa real de câmbio na Argentina se apreciou em cerca de 20% desde o final de 2004.
A experiência argentina com metas para a taxa de câmbio está, pois, levando aquela economia ao descontrole inflacionário, sem evitar a apreciação da moeda em termos reais, apesar de seu gasto primário crescer menos de 4% ao ano descontada a inflação. Imagine o efeito da adoção desse regime num país cujo gasto primário cresce 9% ao ano acima da inflação. É mesmo uma proposta “muy amiga”…
ALEXANDRE SCHWARTSMAN , 45, é economista-chefe para América Latina do Banco Real, doutor pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.