Blog de Christy Ganzert Pato

Diálogos em terra arrasada

Arquivo paraChina

Bruno Dallari – crítica à cobertura da Caros Amigos sobre a China

Caros Amigos,

achei vergonhoso o conjunto de matérias sobre a China publicadas na última edição do jornal. A forma como as matérias NÃO FALAM da realidade chinesa as fazem parecer quase publicidade ou matéria paga.

A China é uma ditadura feroz, não só com censura à imprensa e à internet, mas inclusive com interdições quanto a se poder publicar um jornal ou abrir um site. A China tem milhares de presos políticos, tortura institucionalizada, pena de morte ampla e indiscriminadamente aplicada, uma polícia truculenta, que reprime as menores manifestações de dissidência política ou mesmo religiosa.

Se Marx e Engels se aplicam à China é porque a situação da classe trabalhadora lembra a da Inglaterra do século XIX: uma camada de operários que trabalham 12 horas por dia ou mais, pagos com salários de fome e sem direito a nenhum tipo de descanso, e um vasto contingente de camponeses – 800 milhões – que estão perdendo o direito a suas terras para fazerem um “exército industrial de reserva” miserável nas cidades. O país está revertendo a reforma agrária que assegurava uma condição mínima de renda, de inserção social e de pertencimento a uma comunidade, para transformar os camponeses em mendigos urbanos, atomizados e deslocalizados, num cenário muito familiar a nós. A prosperidade não vai chegar a essas pessoas.

O processo de conversão da China ao capitalismo reinstituiu uma sociedade de classes muito mais brutal e sem mediações do que as sociedades de classes do Ocidente. Nenhum milionário ocidental tem o poder de quem tem dinheiro na China. O Partido Comunista Chinês há muito tempo não tem nada de comunista ou marxista, sendo apenas um estamento investindo em se perpetuar no poder. Toda discussão pública sobre o sistema político é proibida. Ciente do próprio déficit de legitimidade, o PCC investe em ufanismos nacionalistas, como as Olimpíadas e o lançamento de foguetes espaciais. O PCC sabe da fragilidade de sua base de sustentação e corre atrás do prejuízo, sobretudo prometendo a prosperidade capitalista, como cenoura para seduzir a população.

Não entendi e achei lamentável que Jayme Martins fosse convidado para escrever um artigo em “Caros Amigos”. Eu já o ouvi, numa palestra na USP, usar o argumento de Deng, que ele cita no artigo (“não importa a cor do gato; importa que ele cace os ratos”), para desqualificar o socialismo no melhor estilo da revista Veja, irônico e desdenhoso, qualquer coisa como: “só ingênuos ainda acreditam em sociedades socialistas; só o capitalismo pode prover riqueza e prosperidade”. A frase de Deng é usada para dizer: sejamos pragmáticos, é o mercado que funciona, não o Estado; não adiantam princípios igualitários, o que importa são os resultados, leia-se, a produção de mercadorias. É a senha para tornar moralmente aceitável o capitalismo selvagem que se instalou lá. É inacreditável a passagem do artigo na qual Jayme Martins usa uma citação da “Crítica à Economia Política” de Marx para chancelar sua posição – usar Marx para legitimar a mais crua versão do neocapitalismo!

A China não é uma potência mundial emergente e benigna, que fará um desejado contraponto aos Estados Unidos. A China tem uma política externa truculenta e beligerante, não se dando sequer ao trabalho de disfarçar que assume que o seu poder lhe dá prerrogativas de decidir e agir unilateralmente. A política asiática da China é muito semelhante à política dos EUA para a América Latina – de deslavado imperialismo. A ofensiva africana da China envolve compromissos e a sustentação de governos carniceiros, em troca de vantagens econômicas, numa abordagem claramente neocolonial. O envolvimento da China em Darfur foi direto e flagrante e o governo da China nem se deu ao trabalho de responder às críticas que recebeu.

A China tem sido usada, nos últimos anos, como o grande argumento do capitalismo: “Vejam a arrancada que pode dar um país quando se livra dos dogmas socialistas!”. O que está se criando lá é uma sociedade capitalista da pior espécie e uma potência capitalista que promete herdar e assumir o papel desempenhado primeiro pelo Império Britânico e depois pelos Estados Unidos no controle mundial da produção e circulação de riquezas. Para nós, socialistas, a emergência da China é razão de preocupação, não de comemoração. É o que eu esperaria que “Caros Amigos” mostrasse, e não que fizesse coro com outras publicações que festejam o sucesso chinês e o apresentam como porta-estandarte do capitalismo para o Terceiro Mundo.

Saudações, Bruno Dallari

Bruno Dallari é Professor do Departamento de Linguística da PUC-SP

Retração nos EUA e na Europa abala setor exportador chinês

São Paulo, segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Retração nos EUA e na Europa abala setor exportador chinês

Federação de indústrias prevê o fechamento de ao menos 15 mil empresas e demissão de 2,5 milhões de trabalhadores em 3 meses

Redução nas vendas já provoca quebra de milhares de fábricas no sul da China; em Xangai, produção industrial teve queda de 6%

RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM

Cerca de 2,5 milhões de trabalhadores podem perder seu emprego nos próximos três meses no setor chinês mais dependente da economia mundial: o exportador.
O cálculo é da Federação de Indústrias de Hong Kong. Em entrevista ao jornal “South China Morning Post”, o diretor da federação, Clement Chen Cheng-jen, disse que os efeitos da crise econômica afetarão também bancos e serviços.
Empresários de Hong Kong são donos de 60 mil fábricas no sul da China. Elas empregam 11 milhões de pessoas e produzem de computadores a têxteis. EUA e União Européia já estão comprando menos da China, mas os efeitos da recessão global devem afetar mais ainda o pólo manufatureiro mundial.
“Estamos muito, muito preocupados”, disse Chen. “Nossa percepção é grave, até médio prazo, e a recessão vai durar um bom tempo.” Ele prevê que pelo menos 15 mil fábricas fecharão até o fim de janeiro.
Os 1.500 funcionários da fábrica BEP, de eletrodomésticos, foram avisados ontem de que a empresa fecharia hoje. Ela fica em Shenzhen, cidade de 8 milhões de habitantes que concentra milhares dessas fábricas. A fábrica de roupas U-Right International fechou na semana passada e demitiu 500.
O governo de Hong Kong anunciou ontem que oferecerá linhas de crédito a pequenas e médias empresas. “O setor das fábricas para exportação já estava sofrendo há alguns anos, com o aumento dos custos de matérias-primas e dos salários e com a apreciação do yuan diante do dólar”, disse à Folha a chefe do Escritório de Análise Econômica do governo de Hong Kong, Helen Chan.
“O governo chinês deu estímulo por muito tempo e retirou incentivos nos últimos anos, deixando que o mercado resolvesse quem sobreviveria, mas acho que, diante dessa situação, o suporte para essas empresas é necessário.”
Para Chan, por duas décadas o casamento entre a China continental e Hong Kong foi perfeito. A ex-colônia britânica, hoje com administração autônoma, ficava com a logística, as marcas, o controle de qualidade e o porto avançado. Já a vizinha região do delta do rio Pérola, com 40 milhões de habitantes, oferecia mão-de-obra abundante para as fábricas.
A competitividade não é mais a mesma e a desaceleração dos mercados mundiais já atinge a região, onde 20 milhões de pessoas trabalham na indústria exportadora.

Protestos
O caso que provocou maiores protestos até agora foi a falência da fábrica de brinquedos Smart Union, que deixou 6.500 funcionários na rua.
Cerca de mil funcionários protestaram na semana passada por salários não recebidos em Dongguan, no sul da China.
O setor de brinquedos para exportação é um dos mais afetados pela desaceleração econômica na União Européia e nos Estados Unidos, os dois maiores compradores dos produtos chineses: 3.361 fábricas fecharam apenas neste ano.
A Smart Union era fornecedora de empresas como Mattel e Disney e não pagava salários havia semanas para os seus 6.500 funcionários. “A maior razão para o fechamento é que somos muito dependentes do mercado dos EUA, que ficou ocioso”, afirmou Xu Xiaofeng, executivo da empresa.
No início deste mês, o governo de Dongguan estabeleceu um fundo de 1 bilhão de yuans (R$ 300 milhões) para ajudar pequenas e médias empresas afetadas pela crise nas exportações. Críticos dizem que ele chegou tarde demais.
A crise ainda afeta outras regiões. Em Xangai, a produção industrial caiu 6% em setembro na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Em Jiangsu, a queda foi de 4% no comércio, nos raros números de desaceleração divulgados pela imprensa estatal.

O Espírito Chinês

No calor das Olímpiadas, uma entrevista do cineasta Zhang Yimou correu o mundo, pois exacerbava o “espírito” chinês de trabalho. De fato, com uma capacidade de extração de mais-valia absoluta dessa magnitude, ninguém pode rivalizar com o crescimento da China. Só não me explicaram ainda qual a expectativa de vida de um trabalhador chinês…

Abaixo, a dita entrevista:

Here is Part II of CDT’s translation of segments of a long interview with Zhang Yimou, the General Director of the Beijing Olympics Opening Ceremony, from Southern Weekend. Read Part I of the CDT translation here.

Southern Weekend: After seeing the Opening Ceremony, foreigners are admiring, at least from the language in their comments, and cannot imagine that someone can have such tremendous resources, and can produce such a grand product. Do they have such questions or misunderstandings when they interview you?

Zhang Yimou: None of them said this to me. They only felt — actually, I felt that we had two things added together, one plus one, that made such an impact. The first one is a human performance. I often joke with them and say that our human performance is number two in the world. Number one is North Korea. Their performances can be so uniform! This kind of uniformity brings beauty. We Chinese can do it too. After hard training and strict discipline, Chinese achieved that as well. Like the moveble type cubes, they follow orders. Actors listen to the orders, and can do it like computers. Foreigners admire this. This is the Chinese spirit. We can make our human performance reach such a level, through hard and smart work. This many foreigners cannot achieve. [trabalhadores chineses são como computadores? Hummm, eu conheço esse tipo de exploração com outro nome].

I have conducted operas in the West. It was so troublesome. They only work four and a half days each week. Everyday there are two coffee breaks. There cannot be any discomfort, because of human rights. This can really worry me to death. Wow, one week, I thought I should have rehearsed it very smoothly already, but they could not even stand in straight lines yet. You could not criticize them either. They all belong to some organizations. ….they have all kind of institutions, unions. We do not have that. We can work very hard, can withstand lots of bitterness. We can achieve in one week what they can achieve in one month. Therefore our actors can give such a high quality performance. I think other than North Korea, no other country can achieve this in the world. [Interessante esse comunismo neoliberal. Sindicatos, direitos trabalhistas, direitos humanos, tudo isso é entrave ao crescimento. "Nós podemos alcançar em uma semana o que eles podem em um mês"].

The second is our ideas and use of technology. The technology used very fresh ideas and really outstanding concepts. It is very hard to have both. They may have the technology and ideas, but they cannot have the same level of human performance. North Korea can have the same level of human performance, but their ideas are really backward, very sixties. So if you think about it, I feel that only China can have both. I am not kidding.

These foreigners who really understand, they saw our quality of performance, and they really believe that they cannot produce it. Even if his ideas and technology can make it, but his human performance cannot produce it to this level.

Copyright Nanfang Zhoumou translation courtesy China Digital Times

SLAVOJ ZIZEK – O Tibete não é tudo isso

São Paulo, domingo, 13 de abril de 2008

+ Autores

O Tibete não é tudo isso


E se aqueles que se preocupam com a falta de democracia na China estiverem na realidade preocupados com o desenvolvimento acelerado do país?


PROTESTOS ANTI-CHINA POR COMETER ATOS DE VIOLÊNCIA CONTRA MONGES NÃO LEVAM EM CONTA QUE PEQUIM AJUDOU A TIRAR TERRITÓRIO DA MISÉRIA E DA CORRUPÇÃO APÓS A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

SLAVOJ ZIZEK
COLUNISTA DA FOLHA

As notícias publicadas em toda a mídia nos impõem uma imagem determinada que é mais ou menos como segue. A República Popular da China, que, nos idos de 1949, ocupou ilegalmente o Tibete, durante décadas promoveu a destruição brutal e sistemática não apenas da religião tibetana, mas também da própria identidade dos tibetanos como povo livre. Os protestos recentes do povo tibetano contra a ocupação chinesa foram novamente sufocados com força policial e militar bruta.
Como a China está organizando os Jogos Olímpicos de 2008, é dever de todos nós que amamos a democracia e a liberdade pressionarmos a China para devolver aos tibetanos aquilo que ela lhes roubou; não se pode permitir que um país que possui um histórico tão deficiente em matéria de direitos humanos passe uma mão de cal sobre sua imagem com a ajuda do nobre espetáculo olímpico.
O que farão nossos governos? Vão ceder ao pragmatismo econômico, como de costume, ou encontrarão a força necessária para colocar nossos mais elevados valores éticos e políticos acima dos interesses econômicos de curto prazo?
Embora a atividade chinesa no Tibete sem dúvida tenha incluído muitos atos de destruição e terror assassino, existem muitos aspectos dela que destoam dessa imagem simplista de “mocinhos versus vilões”.
Enumero, a seguir, nove pontos a serem mantidos em mente por qualquer pessoa que faça um julgamento sobre os fatos recentes no Tibete.

Poder protetor
1) Não é fato que até 1949 o Tibete era um país independente, que então foi repentinamente ocupado pela China. A história das relações entre eles é longa e complexa, e em muitos momentos a China exerceu o papel de poder protetor. O próprio termo “dalai-lama” é testemunho dessa interação: reúne o “dalai” (oceano) mongol e o “bla-ma” tibetano.
2) Antes de 1949, o Tibete não era nenhum Xangri-Lá, mas um país dotado de feudalismo extremamente rígido, miséria (a expectativa média de vida pouco passava dos 30 anos), corrupção endêmica e guerras civis (sendo que a última, entre duas facções monásticas, ocorreu em 1948, quando o Exército Vermelho já batia às portas do país).
Por temer a insatisfação social e a desintegração, a elite governante proibia o desenvolvimento de qualquer tipo de indústria, de modo que cada pedaço de metal usado tinha que ser importado da Índia.
Mas isso não impedia a elite de enviar seus filhos para estudar em escolas britânicas na Índia e transferir seus ativos financeiros a bancos britânicos, também na Índia.
3) A Revolução Cultural que devastou os mosteiros tibetanos na década de 1960 não foi simplesmente “importada” dos chineses: na época da Revolução Cultural, menos de cem guardas vermelhos foram ao Tibete, de modo que as turbas de jovens que queimaram mosteiros foram compostas quase exclusivamente de tibetanos.
4) No início dos anos 1950, começou um longo, sistemático e substancial envolvimento da CIA na incitação de distúrbios anti-China no Tibete, de modo que o receio chinês de tentativas externas de desestabilizar o Tibete não era, de modo algum, “irracional”.
5) Como demonstram as imagens veiculadas pela TV, o que está acontecendo agora nas regiões tibetanas já não é mais um protesto “espiritual” pacífico de monges (como o que aconteceu em Mianmar um ano atrás), mas (também) bandos de pessoas matando imigrantes chineses comuns e incendiando suas lojas. Logo, devemos avaliar os protestos tibetanos segundo os mesmos critérios com os quais julgamos outras manifestações violentas: se tibetanos podem atacar imigrantes chineses em seu próprio país, por que os palestinos não podem fazer o mesmo com colonos israelenses na Cisjordânia?
6) É fato que a China fez grandes investimentos no desenvolvimento econômico do Tibete e em sua infra-estrutura, educação, saúde etc. Para explicar em termos simples: apesar de toda a opressão inegável, nunca, em toda sua história, os tibetanos medianos desfrutaram de um padrão de vida comparável ao que têm hoje.
7) Nos últimos anos, a China vem mudando sua estratégia no Tibete: a religião despida de política hoje é tolerada e mesmo apoiada. Mais do que na pura e simples coação militar.
Em suma, o que escondem as imagens veiculadas pela mídia de soldados e policiais chineses brutais espalhando o terror entre monges budistas é a muito mais eficaz transformação socioeconômica em estilo americano: dentro de uma ou duas décadas, os tibetanos estarão reduzidos à situação dos indígenas americanos nos EUA.
Parece que os comunistas chineses finalmente entenderam a lição: de que vale o poder opressor de polícias secretas, campos e guardas vermelhos destruindo monumentos antigos, comparado ao poder do capitalismo sem freios, quando se trata de enfraquecer todas as relações sociais tradicionais?

Ideologia “new age”
8) Uma das principais razões por que tantas pessoas no Ocidente tomam parte nos protestos contra a China é de natureza ideológica: o budismo tibetano, habilmente propagado pelo dalai-lama, é um dos pontos de referência da espiritualidade hedonista “new age”, que está rapidamente se convertendo na forma predominante de ideologia nos dias atuais.
Nosso fascínio pelo Tibete o converte numa entidade mítica sobre a qual projetamos nossos sonhos. Assim, quando as pessoas lamentam a perda do autêntico modo de vida tibetano, não estão, na verdade, preocupadas com os tibetanos reais.
O que querem dos tibetanos é que sejam autenticamente espirituais por nós, em lugar de nós mesmos o sermos, para continuarmos a jogar nosso desvairado jogo consumista.
O filósofo francês Gilles Deleuze [1925-75] escreveu: “Se você está preso no sonho de outro, está perdido”. Os manifestantes que protestam contra a China estão certos quando contestam o lema olímpico de Pequim, “Um mundo, um sonho”, propondo em lugar disso “um mundo, muitos sonhos”.
Mas eles devem tomar consciência de que estão prendendo os tibetanos em seu próprio sonho, que é apenas um entre muitos outros.
9) Para concluir, a dimensão realmente nefasta do que vem acontecendo hoje na China está em outra parte. Diante da atual explosão do capitalismo na China, os analistas freqüentemente indagam quando vai se impor a democracia política, o acompanhamento político “natural” do capitalismo.
Essa questão com freqüência assume a forma de outra pergunta: até que ponto o desenvolvimento chinês teria sido mais rápido se fosse acompanhado de democracia política? Mas será que isso é verdade?
Numa entrevista há cerca de dois anos, [o sociólogo] Ralf Dahrendorf vinculou a crescente desconfiança com que a democracia vem sendo vista nos países pós-comunistas do Leste Europeu ao fato de que, após cada mudança revolucionária, a estrada que conduz à nova prosperidade passa por um “vale de lágrimas”.
Ou seja, após o colapso do socialismo não se pode passar diretamente para a abundância de uma economia de mercado bem-sucedida: o sistema socialista limitado, porém real, de bem-estar e segurança precisou ser desmontado, e esses primeiros passos são necessariamente dolorosos.

Vale de lágrimas
O mesmo se aplica à Europa Ocidental, onde a passagem do Estado de Bem-Estar Social para a nova economia global envolve renúncias dolorosas, menos segurança e menos atendimento social garantido.
Para Dahrendorf, o problema é resumido pelo fato de que essa dolorosa passagem pelo “vale de lágrimas” dura mais tempo que o período médio entre eleições (democráticas), de modo que é grande a tentação de adiar as transformações difíceis, optando por ganhos eleitorais de curto prazo. Não surpreende que os países mais bem-sucedidos do Terceiro Mundo, em termos econômicos (Taiwan, Coréia do Sul, Chile), tenham adotado a democracia plena só após um período de governo autoritário.
Esse raciocínio não seria o melhor argumento em defesa do caminho chinês em direção ao capitalismo, em oposição à via seguida pela Rússia? Seguindo o caminho percorrido pelo Chile e a Coréia do Sul, os chineses usaram o poder irrestrito do Estado autoritário para controlar os custos sociais da passagem para o capitalismo, desse modo evitando o caos.
Em suma, uma combinação esdrúxula de capitalismo e governo comunista, longe de ser uma anomalia ridícula, mostrou ser uma bênção (nem sequer) disfarçada: a China se desenvolveu na velocidade em que o fez não apesar do governo comunista autoritário, mas devido a ele.
E se aqueles que se preocupam com a falta de democracia na China estiverem na realidade preocupados com o desenvolvimento acelerado da China, que faz dela a próxima superpotência global, ameaçando a primazia do Ocidente?
Há mesmo um outro paradoxo em ação aqui: e se a prometida segunda etapa democrática que vem após o vale de lágrimas autoritário nunca chegar?
É isso, possivelmente, que é tão perturbador na China de hoje: a idéia de que seu capitalismo autoritário talvez não seja apenas um resquício de nosso passado, a repetição do processo de acúmulo capitalista que se desenrolou na Europa entre os séculos 16 e 18, mas sim um sinal do futuro.
E se “a combinação agressiva entre o chicote asiático e o mercado acionário europeu” se mostrar economicamente mais eficiente que nosso capitalismo liberal? E se ela assinalar que a democracia, tal como a conhecemos, não é mais condição e motor do desenvolvimento econômico, e sim um obstáculo a ele?


SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de “Um Mapa da Ideologia” (Contraponto). Ele escreve na seção “Autores”, do Mais! . Tradução de Clara Allain .