Blog de Christy Ganzert Pato
Diálogos em terra arrasadaArquivo paraCiclos e Crise
Desemprego ameaça estabilidade global
São Paulo, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 
Desemprego ameaça estabilidade global
Onda de demissões avança pelo mundo, e agência da ONU diz que 50 milhões de empregos podem ser perdidos
DO “NEW YORK TIMES”
Desde advogados em Paris até operários de fábricas na China e seguranças na Colômbia, as fileiras dos desempregados estão inchando rapidamente em todo o mundo.
As perdas de empregos decorrentes da recessão que começou nos Estados Unidos em dezembro de 2007 podem chegar a estarrecedores 50 milhões até o final deste ano, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma agência das Nações Unidas. A recessão já levou à perda de 3,6 milhões de empregos nos Estados Unidos.
Os altos índices de desemprego, especialmente entre trabalhadores mais jovens, já levaram a protestos em países tão diversos quanto Letônia, Chile, Grécia, Bulgária e Islândia e contribuíram para greves no Reino Unido e na França.
No mês passado o governo da Islândia, país cuja economia está prevista para se contrair em 10% neste ano, caiu, e o primeiro-ministro adiantou as eleições nacionais, após semanas de protestos enfurecidos.
Na semana passada, o novo diretor de inteligência nacional dos Estados Unidos, Dennis C. Blair, afirmou ao Congresso que a instabilidade causada pela crise econômica global já é a maior ameaça à segurança norte-americana, passando o terrorismo.
“Quase todo o mundo foi pego de surpresa com a rapidez com que o desemprego vem crescendo, e quase todos estão sem saber como reagir”, disse Nicolas Véron, do centro de pesquisas Bruegel, em Bruxelas, na Bélgica.
Em economias emergentes como as da Europa Oriental, teme-se que o desemprego crescente possa incentivar um afastamento da política de livre mercado, pró-ocidental, enquanto, nos países desenvolvidos, o desemprego pode reforçar o protecionismo.
De fato, alguns pacotes de estímulo europeus, além do plano de US$ 787 bilhões aprovado nos Estados Unidos anteontem, incluem proteções para empresas domésticas, elevando a probabilidade de batalhas comerciais protecionistas.
Enquanto o desemprego vem crescendo nos EUA desde o final de 2007, só recentemente as demissões na Europa, na Ásia e no mundo em desenvolvimento ganharam ritmo.
O FMI prevê que até o fim do ano o crescimento econômico global chegue ao nível mais baixo desde a Grande Depressão dos anos 1930, segundo Charles Collyns, vice-diretor do departamento de pesquisas do Fundo. De acordo com o FMI, o crescimento mundial “virtualmente parou”, e a previsão é que as economias desenvolvidas encolham 2% neste ano.
“É a pior situação desde 1929″, disse o ministro do Emprego da França, Laurent Wauquiez. “O que é novo agora é que a situação é global, e estamos sempre falando sobre isso. Está em todos os países.”
Na Ásia, qualquer atitude de satisfação arrogante que possa ter existido por suas economias terem escapado de ser prejudicadas pela dívida de alto risco americana foi apagada pelo desespero crescente gerado pela queda das vendas dos maiores exportadores.
Milhões de trabalhadores migrantes na China continental estão procurando trabalho, mas constatando que as fábricas estão sendo fechadas. Embora essas manifestações não tenham sido tão grandes quanto as da Grécia ou as do Báltico, já houve dezenas de protestos em fábricas individuais na China e na Indonésia.
Os chamados por protecionismo vêm encontrando eco entre um público assustado. No Reino Unido, empregados de refinarias e usinas elétricas fizeram greve em protesto contra o uso de trabalhadores da Itália e de Portugal numa obra.
A expectativa é que até meados do ano que vem o desemprego no Reino Unido chegue a 9,5%, contra 6,3% no momento; na Alemanha, pode subir de 7,8% para 10,5%. Mesmo a Índia estancou. Cerca de 500 mil pessoas perderam seus empregos entre outubro e dezembro do ano passado.
População japonesa se adapta à crise
São Paulo, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 
População japonesa se adapta à crise
DO “FINANCIAL TIMES”
Hidenobu Ishikawa, gerente de marketing, deseja uma nova câmera, mas não se atreve a conversar sobre o assunto com sua mulher. Soh Aoki passou o Ano-Novo em uma vila para sem-teto e desempregados, depois que de uma hora para outra não encontrou mais os trabalhos temporários que o sustentaram por vários anos. Mayumi Sakuma, um escritor free–lancer, ficou sem água quente por uma semana para economizar dinheiro para o conserto do gás. Por todo o Japão, as pessoas estão se ajustando às difíceis realidades da recessão.
“O impacto da crise é como três ou quatro bombas atômicas explodindo no mundo”, afirma Toshiaki Sumita, de uma empresa de vidro óptico que viu suas vendas caírem pela metade e cujas fornalhas estão paradas desde o início deste ano.
Inicialmente, o Japão parecia relativamente isolado dos problemas financeiros internacionais. Mas, enquanto o seu sistema bancário está em muito melhor forma do que o dos EUA e o da Europa, a economia real se mostrou muito vulnerável ao contágio global.
A decisão do governo dos EUA de deixar o Lehman Brothers quebrar, em setembro de 2008, atingiu o Japão de duas maneiras. Primeiro, a retirada de fundos estrangeiros afetou as já abaladas ações japonesas, enfraquecendo o capital dos bancos locais, tornando-os mais relutantes na hora de emprestar. Segundo, o colapso global da demanda por produtos como carros e eletrônicos atingiu violentamente o poderoso setor exportador.
Mesmo consumidores que não foram afetados diretamente por esses problemas reagiram cortando seus gastos, acrescentando a fraca demanda interna aos problemas gerais.
Mas é claro que nem tudo é sombrio no Japão. O país possui enormes reservas tanto de riqueza como de talento e muitas das suas empresas são impressionantemente enxutas. Ainda assim, mesmo algumas companhias que normalmente estariam bem posicionadas para se beneficiar dos problemas econômicos estão sofrendo.
Com as linhas de produção ociosas por todo o país, a Onuma Machine, que negocia equipamentos industriais usados, não encontra dificuldades para encontrar material para seus galpões. Mas o presidente da empresa, Hisao Onuma, diz que sofre para encontrar compradores ainda que os preços estejam a metade dos “bons tempos”.
Onuma, que, para economizar dinheiro, determinou que seus funcionários reduzam o consumo de eletricidade e não usem rodovias com pedágios, disse que a desaceleração global fez com que as economias vizinhas, como a China, não compensassem o espaço deixada pela queda japonesa. “Eu nunca vi nada como isso.”
PIB japonês tem maior queda em 34 anos
São Paulo, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 
PIB japonês tem maior queda em 34 anos
Segunda maior economia mundial encolhe 12,7% no 4º trimestre do ano passado e mostra situação pior que EUA e Europa
Economia japonesa está em recessão desde novembro de 2007, e FMI estima retração de 2,6% neste ano, na maior queda desde o pós-Guerra
DA REDAÇÃO
A economia japonesa engrenou o terceiro trimestre seguido de retração e o tombo foi o maior em 34 anos, mostrando resultados ainda piores que os dos Estados Unidos e da Europa e que a crise ganhou no final do ano passado ritmo e alcance não visto em décadas.
Com as exportações, seu tradicional motor, em queda e o mesmo acontecendo com a demanda interna, o Japão encolheu 12,7% na taxa anualizada nos últimos três meses de 2008, 10,4 pontos percentuais mais que trimestre anterior e o pior resultado desde 1974, na época do choque do petróleo, quando o recuo foi de 13,1%.
Para ter uma ideia da intensidade da crise na segunda maior economia mundial, o PIB (Produto Interno Bruto) japonês se retraiu em 3,3% no quarto trimestre em relação aos três meses anteriores. Já a Alemanha, a maior economia europeia e que, assim como a japonesa, tem um forte setor exportador, teve queda de 2,1% nessa mesma comparação, e os Estados Unidos, o epicentro da crise global, recuaram 1%.
Os últimos três meses de 2008 foram marcados pela concordata do banco Lehman Brothers na metade de setembro, detonando o agravamento da crise global e, consequentemente, da economia japonesa, que, segundo painel do governo, está em recessão desde novembro de 2007.
No caso japonês, essa piora da crise pode ser lida nos números do PIB: as exportações de bens e serviços recuaram 45% na taxa anualizada e a demanda privada caiu 2,6%. A taxa anualizada significa que, caso o número do trimestre se repita nos nove meses seguintes, esse será o dado final do ano.
Com a demanda mundial por carros e eletrônicos em queda devido à crise, as exportações japonesas estão em queda e grandes empresas do país vêm anunciando nos últimos dias demissões em massa, apontando que elas não esperam uma recuperação no curto prazo.
Companhias como Panasonic, Pioneer, Nissan e NEC disseram que pretendem fechar 65 mil postos de trabalho (a maior parte deles no Japão), além de várias fábricas, e outras, como a Toyota, que recentemente se tornou a maior montadora mundial, esperam o seu primeiro prejuízo anual para o período de 12 meses que se encerra em 31 de março.
Além dos problemas da crise, que diminuiu fortemente o apetite dos consumidores pelo mundo, as empresas japonesas enfrentam a valorização do iene, que derrubou a competitividade no exterior dos produtos do país asiático.
Com isso, a sua produção industrial recuou 9,6% em dezembro do ano passado, a maior queda desde o início do levantamento, em 1953, e a estimativa do governo é a de que tenha ocorrido uma nova retração de em torno de 9% no mês passado, sinalizando que a crise não perdeu força neste começo do ano. E a confiança das famílias, que representam cerca da metade da economia, está no menor nível em 26 anos.
A previsão do FMI é que o país encolherá 2,6% neste ano, que, se confirmada, será a maior queda no pós-Guerra.
Para o ministro da Economia do Japão, Kaoru Yosano, o país vive a pior crise econômica desde o fim da Segunda Guerra, em 1945. “Não há nenhuma dúvida sobre isso”, disse, complementando que o governo não pretende lançar novos planos para estimular a economia.
Para tentar reanimar a economia, o governo já lançou três pacotes de estímulo desde agosto do ano passado que, somados, chegam a quase US$ 700 bilhões (metade do PIB brasileiro de 2007), mas parte desses planos ainda está parada no Congresso, aguardando aprovação. E os juros estão em 0,1%, mas o BC não descarta a volta da política de taxa zero, adotada entre 2001 e 2006.
Com agências internacionais
País tem o maior corte de vagas desde 1974
São Paulo, sábado, 07 de fevereiro de 2009 
País tem o maior corte de vagas desde 1974
FERNANDO CANZIAN
DE NOVA YORK
A economia dos EUA perdeu mais 598 mil empregos em janeiro (maior corte de vagas mensal desde dezembro de 1974), elevando o desemprego para 7,6%, o maior em 16 anos.
Uma revisão nos números de 2008 pelo Departamento do Comércio também acrescentou mais 400 mil demitidos às contas iniciais. Com isso, 2008 terminou como o pior ano da história para o mercado de trabalho nos Estados Unidos: 2,974 milhões de pessoas foram mandadas embora.
O aumento do desemprego em janeiro elevou o total de pessoas sem trabalho nos EUA para 11,6 milhões, ante 4,1 milhões há pouco mais de um ano.
O resultado do mês passado fez com que o total de demissões no país atingisse 3,6 milhões desde dezembro de 2007, quando os EUA entraram em recessão. Metade desses cortes ocorreu somente nos últimos três meses, o que mostra uma aceleração dos efeitos da crise e a sua provável continuidade durante um longo período.
Diante dos números, o presidente dos EUA, Barack Obama, qualificou como “indispensável” a aprovação pelo Congresso do pacote quase trilionário de estímulo. Diante da expectativa de aprovação, as Bolsas reagiram positivamente, e o índice Dow Jones subiu 2,70%.
A taxa de desemprego nos EUA não crescia tão rápido em um período de três meses consecutivos desde o início da recessão dos anos 1980. E em apenas dois períodos a partir de 1948 (ambos na recessão dos anos 1980), o número total de desempregados no país ultrapassou os 11,6 milhões atuais.
O resultado de janeiro foi, individualmente, o pior deste atual período recessivo e veio bem acima do que os mais pessimistas previam. Com exceção dos setores de saúde e educação, praticamente todos os outros cortaram vagas abruptamente, revelando um desaquecimento espalhado e profundo.
O setor industrial foi o mais afetado e eliminou 207 mil postos de trabalho. Foi o maior corte desde 1982, quando os Estados Unidos também estavam em recessão. A área de construção civil veio em seguida: perdeu 111 mil vagas.
No comércio, que acaba de passar pelo pior período de vendas de Natal em vários anos, foram demitidas mais de 45 mil pessoas.
No setor financeiro, a sangria foi menor em janeiro, com corte de 42 mil pessoas. Mas a área, onde são pagos alguns dos maiores salários, já perdeu 388 mil empregos a partir de 2007.
Homens e mulheres
Com a indústria e a construção concentrando o grosso dos cortes nos últimos meses, cerca de 80% dos demitidos mais recentemente são homens, segundo estudo da ONG Center for American Progress.
Embora a força de trabalho nos EUA seja praticamente dividida meio a meio entre o sexo masculino (50,9%) e feminino (49,1%), as mulheres tendem a atuar em áreas menos sensíveis em tempos de crise, como educação e saúde. São setores que contam também com expressivos repasses de verbas estatais.
Na contramão das demais áreas, educação e saúde acrescentaram 54 mil novos empregos em janeiro.
Os resultados oficiais também não deram nenhuma indicação de que uma recuperação no mercado de trabalho possa estar a caminho. Um dos indicativos é que as empresas especializadas em fornecer trabalhadores temporários (geralmente a quem ainda tem dúvidas entre contratar ou não) cortaram a oferta de vagas em 76,4 mil no mês passado.
Os desempregados têm encontrado dificuldades cada vez maiores para voltar ao mercado. Na média, eles têm procurado empregos por mais de dez semanas, quando encontram ou desistem. Quase um em cada quatro desempregados está sem trabalho há mais de seis meses.
Martin Wolf – Por que o pacote bancário de Obama vai fracassar
São Paulo, quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009 
Por que o pacote bancário de Obama vai fracassar
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Novo plano de ajuda a bancos parece fazer sentido se e apenas se o principal problema for a falta de liquidez; mas o mais provável é que se trata de insolvência |
MARTIN WOLF
DO “FINANCIAL TIMES”
A PRESIDÊNCIA de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, a pergunta seria ridícula. Mas não vivemos tempos normais. O momento é de perigo. Hoje, o novo governo ainda pode rejeitar a responsabilidade por aquilo que recebeu como legado; no futuro, isso já não será possível. Hoje, ainda é capaz de oferecer soluções; amanhã, vai ter se tornado o problema. Hoje, está em controle dos acontecimentos; amanhã, os acontecimentos o controlarão. Agir de menos é mais arriscado, agora, que agir demais. Caso Obama não aja de maneira decidida, corre o risco de se ver esmagado ao peso da crise, como seu predecessor. Os custos de outra Presidência fracassada, para os EUA e para o mundo, são elevados demais para que possamos contemplá-los.
O que seria necessário? A resposta é: foco e ferocidade. Caso Obama não resolva a crise, toda a esperança sobre sua Presidência estará perdida. Caso o faça, estará livre para reformular a agenda nacional. Mas simplesmente esperar pelo melhor é tolice. O presidente deveria esperar pelo pior e agir como se fosse isso que receberá.
Mas esperar pelo melhor é o que vemos por trás do pacote de estímulo e -a julgar das escassas informações oferecidas pelo secretário do Tesouro, Tim Geithner, ontem- também do novo pacote para solucionar a crise do setor bancário.
O programa de socorro aos bancos parece ser mais uma vez filho das fracassadas intervenções dos últimos 18 meses: otimista e ineficiente. Se esse “rebento do programa de alívio de ativos problemáticos” fracassar, a credibilidade de Obama estará arruinada. Agora é o momento de ações que sejam a solução certeira para o problema; e as medidas propostas não aparentam ser a resposta.
Ao longo de todo o debate, houve duas posições contrastantes sobre a causa dos males do sistema financeiro. A primeira é que o problema é de pânico. A segunda é que o problema envolve insolvência.
De acordo com a primeira interpretação, os preços de um conjunto definido de “ativos tóxicos” caíram para abaixo de seu valor em longo prazo, o que em alguns prazos os tornou impossíveis de vender. A solução, muita gente sugere, é que o governo crie um mercado, comprando ativos ou garantindo os bancos contra prejuízos. Esse raciocínio embasou o Tarp (Programa de Alívio de Ativos Problemáticos) original.
De acordo com a segunda interpretação, proporção considerável dos bancos está insolvente; seus ativos valem menos que seus passivos. O FMI argumenta que os potenciais prejuízos sobre ativos de créditos gerados nos EUA atingem, só eles, US$ 2,2 trilhões. O economista Nouriel Roubini estimou que o pico de prejuízos dos ativos gerados nos EUA possa atingir US$ 3,6 trilhões.
Em minha opinião, há pouca dúvida de que a segunda interpretação seja a correta, e isso se provará cada vez mais verdadeiro à medida que a economia mundial se deteriore. Mas o cerne da questão não é esse. O que é preciso é determinar se, na presença de tamanha incerteza, podemos basear nossas respostas na esperança de que tudo seja resolvido da melhor maneira. A resposta é clara: as autoridades racionais precisam sempre antecipar o pior. Caso essa expectativa termine por se provar pessimista, o resultado seria um sistema financeiro com excesso de capitalização. Mas, se a opção otimista estiver errada, teremos bancos zumbis e um governo desacreditado. A escolha dificilmente poderia ser mais evidente.
O novo plano parece fazer sentido se e apenas se o principal problema for a falta de liquidez. A oferta de garantias e a aquisição de certa proporção dos ativos tóxicos, com limitação das injeções de capital a menos do que os US$ 350 bilhões que restam no Tarp, não enfrentaria o problema da insolvência que tantos observadores informados identificam. De fato, qualquer programa de aquisição de ativos tóxicos ou de garantia será uma forma ineficaz, não-efetiva e injusta de resgatar as instituições financeiras com capitalização insuficiente: não-efetiva porque os governos terão de adquirir vastos volumes de ativos dúbios a preços excessivos, ou oferecer garantias generosas demais, para tornar solventes os bancos insolventes; ineficaz porque grandes injeções de capital ou programas de conversão de dívidas em capital são maneiras melhores de recapitalizar bancos; e injusta porque seriam dados subsídios a instituições quebradas e ao comprador privado de maus ativos.
Por que, então, o governo dos EUA está cometendo o que parece ser um erro? Talvez porque esteja esperando pelo melhor. Mas pode ser que também por se ter proposto a pergunta errada. As autoridades não se perguntaram o que precisa ser feito para conseguir uma solução garantida, mas sim qual seria a melhor solução sob os limites oferecidos por três normas arbitrárias que o governo impôs a si mesmo: evitar a estatização; evitar prejuízos para os detentores de títulos; e evitar novos pedidos de dinheiro ao Congresso. Mas por que um novo governo, diante de uma crise tão profunda, não tenta alterar os termos do debate? A timidez exibida até agora é deprimente. Presuma que o problema seja a insolvência e que o modesto valor de mercado sustentado no momento pelos bancos comerciais americanos (US$ 400 bilhões) derive do apoio do governo. Presuma, igualmente, que seja impossível levantar grandes montantes em capital privado hoje. Nessa situação, é preciso que haja recapitalização de uma das duas maneiras descritas acima. Ambas têm desvantagens: a recapitalização pelo governo é um resgate aos credores e envolve administração estatal temporária; conversão de dívidas em capital prejudicaria o mercado de títulos, as seguradoras e os fundos de pensão. Mas não há como escapar à escolha.
Caso Geithner ou Lawrence Summers, o presidente do conselho de assessores econômicos da Casa Branca, estivessem assessorando os EUA como país estrangeiro, fariam questão de apontar brutalmente para essa realidade.
O conselho correto continua a ser aquele que os EUA deram aos japoneses nos anos 90: admitam a realidade, reestruturem os bancos e, acima de tudo, abatam imediatamente as instituições zumbis. Decidir se a resposta certa é criar novos “bons bancos”, deixando que os velhos maus bancos pereçam; ou formar novos “bancos ruins”, que permitam a sobrevivência dos velhos bancos expurgados, é uma questão secundária, ainda que importante. Minha inclinação pessoal é pela primeira solução, porque a cultura dos velhos bancos parece excessivamente tóxica.
Ao fazer as perguntas erradas, Obama está realizando uma aposta imensa. Ele deveria ter decidido limpar os estábulos bancários de Áugias. É preciso que reconsidere sua decisão, se já não for tarde demais.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Vinicius Torres Freire – Uma decepção e dois trilhões
São Paulo, quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009 
VINICIUS TORRES FREIRE
Uma decepção e dois trilhões
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Plano Obama estreia como fiasco político, ainda não está pronto e estatiza mais o crédito por meio do Fed, o BC dos EUA |
É MUITO DIFÍCIL , para não dizer logo pretensioso, avaliar um plano que prevê negócios de trilhões de dólares, lida com instrumentos financeiros que nem a cúpula da banca diz compreender e que pretende reformar os maiores bancos da maior economia do mundo. Mas um efeito evidente e imediato do anúncio do pacote Obama foi uma onda de decepção nos EUA.
Barack Obama já enfrentara dificuldades para aprovar no Congresso mesmo uma versão desfigurada de seu plano de estímulo fiscal (gastos em obras, serviços públicos e abatimento de impostos). O seu plano de conserto das finanças privadas não foi, a princípio, politicamente mais afortunado. A estreia econômica do presidente da esperança foi inesperadamente ruim. Sim, o governo não tem nem um mês. Mas, antes mesmo da posse, americanos eminentes ou influentes já se perguntavam se os EUA podiam esperar tanto para George Bush descer da pilha de ruínas que deixou na Casa Branca.
O núcleo do plano é aparentado do plano Bush. Agora, um fundo com dinheiro público e privado compraria títulos podres dos bancos, começando com US$ 500 bilhões. Isto é, compraria papéis cuja renda dependia do pagamento de prestações imobiliárias, na maior parte. Ainda se trata, pois, de repassar a alguém o mico dos bancos. O objetivo é recompor a quantidade mínima de dinheiro (base de capital) nos bancos, de modo a que possam voltar a emprestar ou não parecer falidos.
O problema também continua o mesmo do plano Bush: quanto pagar por papéis podres? Pagar demais significa dar dinheiro aos bancos. Pagar pouco pode acabar com eles. A alternativa é estatizar: ficar com os prejuízos e com os bancos. De resto, de onde virá o dinheiro privado?
Outro aspecto importante do plano reforça o papel do Fed como banco-mor dos EUA. Mas o plano Obama eleva o caixa do Fed para tais fins de US$ 200 bilhões para até US$ 1 trilhão. O Fed, indiretamente, empresta dinheiro a empresas e consumidores (que compram casas, carros e mensalidades da faculdade ou gastam via cartão de crédito). O Fed na verdade empresta dinheiro para que fundos e instituições financeiras comprem títulos lastreados nessas dívidas, o que abre espaço para mais empréstimos no setor privado.
Um problema que continua a arruinar o sistema financeiro são os despejos e os calotes imobiliários (e, agora, também no cartão de crédito etc.). Mais calotes, menos capital nos bancos. Menos capital, menos empréstimos e juros maiores. O governo não deu detalhes do plano para auxiliar a renegociação de dívidas da casa própria (para piorar, mal se sabe hoje quem são os credores dessa dívida, que foi transformada em títulos e revendida no mercado).
Uma dificuldade nova, mas incontornável, serão as auditorias (“testes de estresse”) que vão verificar quais bancos ainda são viáveis o suficiente para que possam receber dinheiro do plano de socorro (via compra de ações). Além das disputas que isso deve causar, pode haver um clima de juízo final ou de tribunal do júri: quem morre e quem merece auxílio público? Novidade também, os bancos socorridos só vão poder pagar no máximo um centavo de dividendo por ação enquanto não pagarem sua dívida com o governo.
GM vai demitir 10 mil no mundo e reduzir salários
São Paulo, quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009 
GM vai demitir 10 mil no mundo e reduzir salários
Medida faz parte do plano de reestruturação que será apresentado ao governo americano
Cortes atingem 14% da mão-de-obra da empresa; no Brasil, General Motors disse não ter informação sobre impactos da medida
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A General Motors decidiu cortar 10 mil postos de trabalho na área administrativa ao redor do mundo e impor reduções salariais a parte de seus funcionários nos Estados Unidos no decorrer deste ano.
A medida faz parte do programa de reestruturação da montadora que será apresentado ao governo dos EUA na semana que vem. O plano será decisivo para a GM garantir a continuidade da ajuda bilionária do governo daquele país.
Ao longo de 2009, a montadora deve diminuir de 73 mil para 63 mil seu quadro de funcionários administrativos -um enxugamento de 14%. Já o pagamento de seus executivos nos EUA sofrerá corte de 10%, enquanto outros empregados terão uma redução de 3% a 7% no país. Haverá também revisão de pagamentos e benefícios fora dos Estados Unidos.
A assessoria de imprensa da GM do Brasil disse que ainda não há informações sobre os impactos da medida no país.
“Essas duras ações são necessárias por conta da severa queda nas vendas de veículos no mundo e da necessidade de reestruturação da GM para garantir viabilidade a longo prazo”, afirmou a montadora, por meio de comunicado.
Em janeiro, as vendas da GM caíram 49% nos EUA. Como resultado, os executivos da GM vêm afirmando que a companhia fará um corte de custos mais profundo sob o plano de reestruturação que será submetido ao governo dos EUA e que poderá garantir mais empréstimos dentro do pacote de socorro às montadoras.
Detalhes
Na semana passada, a GM abriu um programa de demissão voluntária e ofereceu aposentadoria antecipada a seus trabalhadores horistas. Há três meses, a montadora eliminou 5.100 postos também por meio de demissão voluntária.
Desta vez, porém, o corte se dá por meio de dispensas involuntárias. “Pode ser que haja oportunidades para saídas voluntárias, mas [as demissões] são essencialmente involuntárias”, afirmou o porta-voz da GM, Tom Wilkinson.
Nos EUA, serão fechados 3.400 dos 29.500 cargos administrativos da GM até maio.
Wilkinson explicou que os cortes não serão lineares, pois estarão baseados nas necessidades de pessoal em cada departamento. A General Motors poderá, por exemplo, contratar mais engenheiros para o desenvolvimento de veículos que são movidos a bateria.
De acordo com ele, alguns países poderão sofrer cortes mais significativos, a depender do comportamento das vendas nesses mercados.
Belluzzo – os antecedentes da tormenta
Economia| 07/10/2008

CAPITALISMO EM CRISE
Os antecedentes da tormenta
Ao examinarmos todo o período do pós-guerra, este por certo é o momento de maior fragilidade na administração da economia capitalista. Está claro que os efeitos deste novo capítulo da crise, deflagrado pelo estouro da bolha imobiliária, não desacelera apenas a economia norte-americana. O lubrificante da desregulação parece ter esgotado a capacidade de azeitar a engrenagem do sistema. A análise é de Luiz Gonzaga Belluzzo.
Luiz Gonzaga Belluzzo
O crescimento da última década foi celebrado como a expressão de um triunfo inexcedível da experiência capitalista dos Estados Unidos sobre o resto do mundo. Avaliações peremptórias não hesitaram em apontá-la como superior não só à experiência socialista, como também a de outros tipos de capitalismo, como o japonês e os modelos europeus de sociedade e de economia. (1)
O crescimento desse período teve início na segunda metade de 92, foi lento até mais ou menos 1995/1996 e, paradoxalmente, começou a se acelerar após as crises mexicana, asiática e brasileira. Em boa medida a economia norte-americana se nutriu das crises na periferia do sistema para ganhar nervos e musculatura. O período que vai do final dos anos 70 até esse salto, marca uma lenta recuperação do poderio econômico, militar e financeiro dos Estados Unidos. Ele se fez não só com a derrota política e econômica da URSS, mas também com a imposição do padrão capitalista norte-americano e, sobretudo, do capital financeiro do país às demais nações.
Desde os anos 70, os Estados Unidos já vinham abandonando certas referências que marcaram seu crescimento no pós-guerra, bem como desmontando regras prudenciais de gestão financeira adotadas a partir dos anos 30 e consolidadas durante o esforço bélico. Tais características haviam contribuído significativamente para a recuperação da Europa no pós-guerra, além de abrirem espaços para a industrialização de países do Terceiro Mundo. A existência de um bloco socialista competindo com o capitalismo foi igualmente decisiva na ampliação das oportunidades de desenvolvimento no planeta.
O modelo pós-II Guerra
É importante lembrar que a direção política do capitalismo estadunidense nesse período era bem mais heterogênea do que a atual. Havia, por exemplo, dentro do governo Roosevelt, uma fração muito importante do Partido Democrata que preconizava um futuro salvaguardado pela aliança entre os Estados Unidos e a União Soviética. O inimigo verdadeiro, desse ponto de vista, seria o velho imperialismo europeu, o que explica, em parte, as dificuldades do representante inglês em Bretton Woods, John Mayanard Keynes, para viabilizar suas propostas de reforma do sistema monetário internacional.
Ao contrário do que ocorreu no final da I Guerra Mundial, porém, e que levou à crise do capitalismo desregulado de então, cujo ápice foi a Depressão de 29 e dos anos 30 – em 1944 os EUA tomaram a decisão política de não repetir os erros do passado. O Plano Marshall e o impulso dado à reconstrução européia para a unificação econômica, foram decisivos para as economias alemã e a francesa se rearticularem. Da mesma forma, o financiamento norte-americano foi o divisor que permitiu a reconstrução econômica japonesa.
A impressão dominante naquele momento era a de que o capitalismo estava diante de um sólido e prolongado ciclo de expansão à salvo das flutuações cíclicas violentas inerentes à sua dinâmica de crescimento. Novas formas de regulação e controle do sistema haviam sido introduzidas sob o impulso de forças sociais que emergiram ao final da Guerra, entre elas os partidos comunistas, que tiveram papel relevante na definição das estratégias de reconstrução do capitalismo europeu.Entre as principais características dessa nova institucionalidade estava a admissão de que o Estado, obrigatoriamente, deveria promover a regulação do ciclo econômico.
Os Estados nacionais passaram então a se apropriar e a dispender uma fatia do produto nacional muito superior àquela observada nos anos 20. O maior controle público sobre o excedente evitaria que as flutuações do ciclo econômico redundassem em ajustes baseados na contração quase automática da renda e do emprego como ocorrera até 1929. A segunda característica associada às coligações sociais e políticas que emergiram nesse período foi o crescimento do salário real e dos benefícios sociais, paralelamente ao aumento da produtividade do trabalho. (2) Um terceiro pilar fundamental de sustentação dessa arquitetura foi a instituição do controle dos movimentos de capitais entre os países, sobretudo dos capitais de curto prazo.
Vale lembrar que a reforma que Keynes e Dexter White tentaram aprovar em Breton Woods envolvia, grosso modo, as seguintes balizas: o dinheiro internacional seria simplesmente uma moeda de conta, permitindo que os países trocassem mercadoria por mercadoria. O dinheiro funcionaria assim apenas como referência de cálculo. Os países que tivessem déficit registrariam num banco internacional, em sua conta, a dívida com os demais. A compensação entre os déficits e superávits tornaria desnecessário saldar dívidas através de movimentos de capitais de curto prazo. Keynes, a partir da experiência nefasta dos anos 20, estava convencido de que não era prudente delegar aos mercados a regulação do fluxo monetário internacional. Tampouco eles deveriam assumir a responsabilidade pelo fornecimento de liquidez aos países que porventura registrassem déficit na balança de pagamentos.
Como se sabe, esse sistema não foi aceito em sua totalidade nem pelos Estados Unidos, nem pela Inglaterra. Mesmo assim o acordo de Bretton Woods permitiu que os países controlassem suas contas de capital, proporcionando-lhes maior autonomia na fixação das políticas monetária e fiscal. A prerrogativa de proibir a entrada e a saída de capitais manteve-se até meados da década de 80, inclusive no Brasil, garantindo certo grau de proteção à política econômica contra ondas de volatilidade e movimento especulativo no plano internacional. Ao contrário do que ocorre hoje, caso houvesse uma crise na Bolsa de Nova York, os governos não tinham que elevar a taxa de juro– dispunham de instrumentos para impedir que os efeitos da turbulência fossem integralmente internalizados.
O que se verifica neste dias é exatamente o oposto. Capitais se movem livremente pelo planeta apostando na desvalorização das moedas; promovendo chantagem explícita contra políticas de juro baixo; ou ainda tomando posição nos mercados à vista, ou de contratos futuros, contra economias supostamente dotadas de moedas frágeis. Se esses mercados funcionam livremente, a especulação é inevitável – por definição, eles são mercados especulativos. (3) Falar em controle de capitais tornou-se um anátema a partir dos anos 70– pelo menos foi assim até a emergência da nova crise acionada pelo estouro da bolha imobiliária nos EUA. Na verdade, os grandes protagonistas do processo econômico, a grande empresa internacional e os grandes bancos, frequentemente ganham mais dinheiro no mercado financeiro do que na produção de mercadorias.
Quando uma empresa está localizada em vários mercados, como ocorre hoje, poderá ter um ganho fenomenal se estiver bem posicionada diante de uma alteração cambial –o que não é difícil considerando-se que têm acesso a boas informações e relações estreitas com grandes bancos. Em caso de aposta equivocada, todavia, as perdas, como estamos vendo, podem assumir contornos sistêmicos imprevisíveis.
Para os reformadores de Bretton Woods a estabilidade do câmbio e dos juros era fundamental para a tomada de decisão na esfera produtiva do capitalismo. Uma decisão de longo prazo, como é o caso de um grande investimento, requer um horizonte razoável de segurança e para isso duas taxas devem oferecer certo grau de previsibilidade: a taxa de juros e a taxa de câmbio. Esses são dois preços-chave da economia que informam fundamentalmente a decisão capitalista: a taxa de juros indica qual é a conveniência do detentor da riqueza mantê-la sob a forma de capital monetário ou investi-la sob a forma produtiva, ou qualquer outra forma. Para isso a estabilidade da taxa de juro em um patamar moderado é fundamental. (4) No caso da taxa de câmbio, o que se espera é que ela amplie o horizonte de paridade entre o dinheiro particular – as moedas nacionais – e a moeda de referência mundial. Se esses preços flutuam erraticamente, a decisão do capitalista torna-se totalmente desordenada.
A lógica do controle dos capitais que prevaleceu nos anos 50/60, permitiu que as economias pudessem crescer de maneira mais ou menos equilibrada gerando, não por acaso, aquilo que se convencionou chamar de milagre alemão, milagre japonês, milagre italiano…Tudo ancorado na arquitetura de um capitalismo domesticado, quer dizer, do capitalismo controlado politicamente pela intervenção do Estado em cada país. Essa institucionalidade impediu que fossem reproduzidas as crises dos anos 20, e mesmo as crises do final do século XIX em boa parte do século XX.
Fim de um modelo
A partir do final dos anos 60, essa arquitetura começa a ruir por conta do agravamento de um defeito de origem fundamental na sua engrenagem: a moeda internacional utilizada nesse arranjo era a moeda de um país, o dólar norte-americano. Políticos e técnicos que participaram dos debates de Bretton Woods já haviam identificado os limites dessa ambigüidade.
Somente enquanto essa moeda fosse emitida de maneira moderada, haveria possibilidade de ser aceita pelas demais nações como referência internacional. Embora o fetiche da moeda seja conhecido, a verdade é que ela não tem vida própria, mas reflete um fenômeno social. Sua legitimidade como meio de troca e reserva de valor só subsiste na medida em que figurar aos olhos da sociedade como representação efetiva da riqueza existente.(5)
A partir de meados dos anos 60 esse predicado começou a desbotar nas notas de dólar. A moeda norte-americana passou a se enfraquecer em conseqüência do papel exercido pelo país como polícia do mundo ocidental, o que obrigava o Tesouro a um dispêndio de moeda muito superior ao que seus parceiros estavam dispostos a aceitar.
Apesar da prosperidade geral – e aqui é importante lembrar que 1968 foi um ano de grande prosperidade e esta durou até 1973 – os europeus começaram a contestar a universalidade do dólar, ou o seu papel como representante da riqueza universal. Os primeiros a contestar foram os franceses. No seu entender, o volume de dólares injetado nos mercados pelos EUA excederia o total demandado para as trocas internacionais e os negócios financeiros, conforme havia sido acordado em Bretton Woods. O presidente De Gaulle inicia então a trocar dos dólares excedentes pelo ouro de Fort Knox. Em resposta, em 1971, Nixon, então presidente dos Estados Unidos, declara unilateralmente a inconversibilidade e o fim do padrão concertado em Bretton Woods.
Entre 1968 e 1971, na crise do dólar, começa a se formar o chamado Euro Mercado, cuja característica notável era a expansão de negócios financeiros fora dos controles prudenciais das autoridades monetárias. Sua emergência reflete o excesso de gastos e o déficit da balança de pagamentos norte-americanos. Quando o Banco da Alemanha, um banco central clássico e ortodoxo, acumulava excedentes em sua balança de pagamentos, deslocava o excesso de dólares e o redepositava no Euro Mercado. Essa foi uma das razões do chamado milagre econômico brasileiro, em pleno regime ditatorial.
A farta liquidez externa incentivou o Brasil a se endividar maciçamente em dólar no Euro Mercado, cujas taxas de juros eram convidativas – da ordem de 6% ao ano. Na época, entretanto, esse mercado era relativamente pequeno; só alguns países em desenvolvimento tinham acesso a ele.
Quando os norte-americanos declararam a inconversibilidade, em 1971, e permitiram a flutuação cambial em 1973 (até então, as taxas de câmbio eram fixas e administradas pelo FMI, sendo preciso sua licença para a desvalorização de uma moeda), desencadeou-se a flutuação geral das paridades. Esse foi um dos fatores que deflagrou o aumento do preço do petróleo, fixado em dólares.
Durante toda a década de 70 houve grande controvérsia sobre a substituição do dólar como moeda de reserva, sendo feitas várias tentativas nesse sentido. Os Estados Unidos saíram da guerra do Vietnã derrotados política e militarmente. Foi um período em que se anunciava urbi et orbi o fim da hegemonia norte-americana, o esgotamento de seu poder e a possível substituição da supremacia dos EUA pela da Alemanha. Em 1979, no entanto, na reunião do FMI realizada em Belgrado, os Estados Unidos reafirmaram a hegemonia do dólar posta em xeque pelos interesses europeus.
Primeiro, o governo norte-americano elevou brutalmente as taxas de juros, promovendo a valorização do dólar a ponto de explodir o déficit fiscal do país. Em seguida, Reagan promoveu uma redução de impostos que favoreceu os ricos e a classe média mais alta. Depois, em 1981/1982, iniciou-se a reversão do ciclo de alta dos juros. O declínio das taxas deflagrou um vigoroso ciclo de consumo e de importações na economia norte-americana. Japão, Coréia e Taiwan foram os grandes provedores desse mercado até 1985. O Japão conseguia superávits monumentais à custa dos déficits dos EUA. O que permitia uma dieta pantagruélica ao consumo norte-americano, sem qualquer problema adicional de balança de pagamento, era o fato de deter o controle da moeda de reserva, ou seja, deter a prerrogativa de pagar seu déficit em dólar, e o mundo, de novo, aceitar.
A diferença em relação ao cenário dos anos 70 é que os Estados Unidos passaram a financiar o seu déficit emitindo papéis do Tesouro, como uma espécie de colchão de liquidez. Quando ocorreu a crise da dívida externa na América Latina, devido ao aumento na taxa de juros, o déficit fiscal norte-americano permitiu que os bancos limpassem de seus balanços os créditos podres latino-americanos. Ou seja, a exemplo do que se faz hoje em escala turbinada por um grau de incerteza e de imprudência inéditos, trocaram-se ativos podres por títulos com liquidez de mercado assegurada – e naquele momento a taxas de juros mais convidativas que as atuais. Foi assim que o déficit do Tesouro salvou os bancos norte-americanos enquanto os mais precipitados anteviam a quebra da maior economia do mundo. Como se sabe, tal não ocorreu. Os bancos privados carregaram papéis da dívida norte-americana em suas carteiras, utilizando-os como um mecanismo de transição para o ajuste do sistema financeiro privado. Se o governo dos EUA não tivesse feito um déficit (do tamanho daquele feito por Reagan) e se não tivesse emitido dívida pública, os bancos norte-americanos teriam quebrado.
Os Estados Unidos salvaram seu sistema bancário, ao mesmo tempo em que se transformaram – de credores globais desde o final da I Guerra Mundial – em devedores globais (a dívida pública norte-americana, que em 2001 era de três trilhões de dólares, deve saltar nesta crise de 2008 para algo como dez trilhões de dólares). Os anos 80 foram marcados por essa mudança de posição, em que parecia que os bancos japoneses, por exemplo, iriam superar – e superaram em volume de depósitos internacionais – os bancos norte-americanos.
Durou pouco essa impressão. Em 1985, quando a coisa estava indo longe demais, os Estados Unidos fizeram as famosas reuniões do Louvre e depois do Plaza, que deram origem ao G7. Nessa rodada de peixes grandes os EUA comunicaram que a valorização do dólar fora longe demais. O déficit do país estava exagerado e a indústria norte-americana não suportaria mais a carga da perda de competitividade internacional.
Arremataram anunciando que chegara a hora de seus parceiros assumirem o ônus de reverter esse quadro unilateralmente. Curto e grosso, obrigaram o ien e o marco a se revalorizarem em relação ao dólar, sem que os EUA tivessem que elevar suas taxas de juros para isso.
Foi o início da longa crise japonesa. O Japão foi obrigado a cortar custos, a reduzir lucros e salários de suas empresas. Com o ien excessivamente valorizado, e as moedas dos vizinhos asiáticos ainda desvalorizadas face ao dólar, os investimentos japoneses se deslocaram para o Sudeste Asiático. Isso explica o aparecimento da segunda geração de Tigres Asiáticos – Cingapura, Malásia, Tailândia, resultado da expansão regional do capitalismo japonês .
A partir dessas plataformas as empresas japonesas retomaram a capacidade de exportar para os Estados Unidos. O Japão criou laços profundos com o Sudeste Asiático, mas acabou nocauteado no começo dos anos 90. Os parceiros asiáticos continuaram a crescer até a nova crise de 1997 (recuperarando-se depois, mas de maneira frágil).
Os EUA no centro da crise
Apesar de ter crescido a partir de 1995/1996, a taxa média de expansão da economia norte-americana na década de 90 foi inferior ao desempenho médio verificado entre os anos 50/60. O mesmo ocorreu com a maioria dos demais países: na era dos mercados financeiros desregulados as taxas de crescimento foram muito inferiores às do período anterior, o do capitalismo domesticado, por qualquer critério de comparação (taxa de crescimento, expansão do emprego, crescimento dos salários reais…).
No período Reagan, com a valorização do câmbio, o investimento cresceu muito pouco; sendo basicamente um ciclo de expansão apoiado em consumo. No período mais recente, assistimos a um ciclo de investimento e de consumo com brutal concentração de capital – não só na área produtiva, mas também na área financeira. A contrapartida desse processo, fortemente impulsionado pelo crédito, foi um elevado grau de endividamento do setor privado (famílias e empresas), que alcançou o nível mais alto do pós-guerra.
A valorização crescente do mercado de ações pode servir como fita métrica desse endividamento. Ela exprime a riqueza fiduciária que as famílias e as empresas pensam ter. Na medida em que as ações se valorizaram, famílias e empresas adquirem mais papéis e ações; imaginando que sua riqueza patrimonial se elevou, elas se endividam ainda mais– com as ações servindo como garantia (mais recentemente o mecanismo se transferiu para a valorização do mercado imobiliário). Bancos livres das regras prudenciais acumulam ativos de empréstimos a famílias ancoradas em uma base patrimonial anabolizada especulativamente.
Quando ocorre a correção de preços e o valor das ações cai, quem tem dívida em dólares vê seu patrimônio murchar drasticamente – diz-se desinflou o patrimônio. A poupança das famílias norte-americanas hoje é igual a zero (não poupam nada da sua renda); seu patrimônio líquido perde valor; os ativos que eles possuem estão se desvalorizando e o passivo fixado em dólares cresce e engorda.
Essa, na verdade, é a raiz da crise norte-americana presente desde 2001. Na medida em que as empresas vêem que a relação dívida/patrimônio aumentou muito, elas cortam investimento, e as famílias, seu consumo. Na ponta dessa convergência salta o desemprego, que tende a se agravar com a contração do crédito e da renda. Na medida em que o desemprego aumenta a tendência é um novo degrau de corte de gastos, o que leva a um nova rodada de demissões…
Uma das razões pelas quais os Estados Unidos conseguiram sustentar o padrão de crescimento, via endividamento, foi a capacidade de atrair capitais excedentes de todo o planeta – o Brasil hoje é o quarto maior investidor em títulos do Tesouro norte-americano, sendo a China o primeiro. Ninguém sabe até quando esse processo vai se sustentar. Até agora, a Bolsa cai, as taxas de juros declinam e a economia se desacelera, sem que haja uma fuga expressiva de capitais –ao contrário registra-se até um movimento inverso, uma busca de proteção, com investidores adquirindo papéis do Tesouro a uma taxa de remuneração inferior à inflação.
Qual é o limite dessa engrenagem? Ao examinarmos todo o período do pós-guerra, este por certo é o momento de maior fragilidade na administração da economia capitalista. Está claro que os efeitos deste novo capítulo da crise, deflagrado pelo estouro da bolha imobiliária, não desacelera apenas a economia norte-americana . Será preciso acompanhar a extensão e a profundidade dessa desaceleração sobre o mercado global para uma avaliação mais exata dos seus desdobramentos históricos para a economia capitalista. O certo, porém, é que o lubrificante da desregulação parece ter esgotado a capacidade de azeitar a engrenagem do sistema.
* Luiz Gonzaga Belluzzo é Professor-titular do Instituto de Economia
da Unicamp
Notas
(1) Nos anos 80 estava em voga se falar da excelência do capitalismo japonês, sua diferença e maior dinamismo. Mas essa ilusão com a possibilidade de a hegemonia norte-americana ser substituída por um outro país capitalista foi dissipada já em meados dos anos 80 – exatamente em 1985 –, quando os Estados Unidos forçaram a desvalorização do dólar e obrigaram o Japão a revalorizar o ien; portanto, a encarecer as suas exportações. Obrigaram-no também a abrir financeiramente sua economia. Com isso, impuseram ao Japão o começo de sua maior crise econômica do pós-guerra, e que não conseguiu superar até hoje. A economia japonesa praticamente não cresceu ao longo da década de 90, viveu uma recessão permanente, com pequenas recuperações, mas, nos dez anos que a economia norte-americana cresceu acima da média, ou acima de sua média histórica, o Japão cresceu significativamente abaixo de sua média histórica.
(2) Comparando-se o aumento de produtividade do imediato pós-guerra com o aumento de produtividade do trabalho de agora, mesmo nos Estados Unidos, vê-se que a média foi maior no imediato pós-guerra – coisa que a imprensa não diz!
(3) Especulativos não no sentido popular da palavra. São especulativos porque fazem aposta a partir de uma conjetura sobre o que vai acontecer com o valor de uma denominada moeda, o que vai acontecer com a taxa de juros.
(4) Não é por acaso que, em O Capital, Marx fecha o modelo com o capital a juros. Muitos leitores pensam que ele deixou o capital a juros para o fim porque era menos importante. Mas não é. Porque o capital a juros é a forma acabada – a forma mais aperfeiçoada, como ele diz – do capital, em que este se reproduz a si mesmo. E porque o capital a juros determina as condições de concorrência no mercado capitalista – que sinaliza quais são os capitais que vão sobreviver e quais vão soçobrar.
(5) Vemos na hiperinflação o que acontece: todo mundo foge da moeda, porque não há mais a confiança de que ela possa representar o padrão de medida de troca e de reserva de toda a riqueza existente. Portanto, é um fenômeno quase que convencional, uma convenção consolidada no espírito das pessoas. Não tem nada a ver com a materialidade ou a forma que assume.
Entrevista István Mészáros – a crise estrutural do sistema
Interview: A structural crisis of the system
Interview by Judith Orr and Patrick Ward , January 2009
István Mészáros won the 1971 Deutscher Prize for his book Marx’s Theory of Alienation and has written on Marxism ever since. He talks to Judith Orr and Patrick Ward about the current economic crisis.
The ruling class are always surprised by new economic crises and talk about them as aberrations. Why do you believe they are inherent in capitalism?
I recently heard Edmund Phelps, who got the 2006 Nobel Prize in Economics. Phelps is a kind of neo-Keynesian. He was, of course, glorifying capitalism and presenting the current problems as just a little hiccup, saying, “All we have to do now is bring back Keynesian ideas and regulation.”
John Maynard Keynes believed that capitalism was ideal, but he wanted regulation. Phelps was churning out the grotesque idea that the system is like a music composer. He may have some off days when he can’t produce so well but if you look at his whole life he’s wonderful! Just think of Mozart – he must have had the odd bad day. So that’s capitalism in trouble, Mozart’s bad days. If anyone believes that, he should have his head examined. But instead of having his head examined he is awarded a prize.
If our adversaries have this level of thought – which they have demonstrated now over a 50-year period so it’s not just an accidental slip by one award-winning economist – we could say, “Rejoice, this is the low level of our adversary.” But with this kind of conception you end up with the disaster we experience every day. We have sunk into astronomic debt. The real liabilities in this country must be counted in trillions.
But the important point is that they have been practising financial profligacy as a result of the structural crisis of the productive system. It is not an accident that money has been flowing in such an adventurist way into the financial sector. The accumulation of capital couldn’t function properly in the field of the productive economy.
We are now talking about the structural crisis of the system. It extends everywhere and it even encroaches on our relationship to nature, undermining the fundamental conditions for human survival. For example, from time to time they announce some targets to cut pollution. We even have a ministry of energy and climate change, which is really a ministry of hot air because nothing is done except announcing a target. But the target is never even approached, let alone fulfilled. This is an integral part of the structural crisis of the system and only structural solutions can get us out of this terrible situation.
You have described the US as carrying out credit card imperialism. What do you mean by that?
I quote former US senator George McGovern on the Vietnam War. He said that the US had run the Vietnam War on a credit card. The recent borrowing by the US is going sour now. This kind of economics can go on only as long as the rest of the world can carry the debt.
The US is in a unique position because it has been the dominant country since the Bretton Woods agreement. It is a fantasy that a neo-Keynesian solution and a new Bretton Woods would solve any of today’s problems. The US domination which Bretton Woods formalised immediately after the Second World War was economically realistic. The US economy was in a much more powerful position than any other economy in the world. It established all the vital international economic institutions on the basis of US privilege. The privilege of the dollar, the privilege enjoyed through the International Monetary Fund, the trade organisations, the World Bank, all were completely under US domination and still remain so today.
This cannot be wished out of existence. You can’t fantasise about reforming and slightly regulating it here and there. To imagine that Barack Obama is going to abandon the dominant position the US enjoys in this way – backed up by military domination – is a mistake.
Karl Marx called the ruling class a “band of warring brothers”. Do you think the ruling class internationally will work together to find a solution?
In the past imperialism involved several dominant actors who asserted their interests even at the expense of two horrendous world wars in the 20th century. Partial wars, no matter how horrendous they are, cannot be compared to the economic and power realignment which could be produced by a new world war.
But imagining a new world war is impossible. Of course there are still some lunatics in the military field who would not deny that possibility. But it would mean the total destruction of humanity.
We have to think about the implications of this for the capitalist system. It was a fundamental law of the system that if a force could not be asserted through economic domination you resorted to war.
Global hegemonic imperialism has been achieved and has operated quite successfully since the Second World War. But is that kind of system permanent? Is it conceivable that in the future no contradictions will arise in it?
There have also been some hints from China that this kind of economic domination cannot go on indefinitely. China is not going to be able to go on financing it. The implications and consequences for China are already quite significant. Deng Xiaoping once remarked that the colour of the cat – whether it’s capitalist or socialist – doesn’t matter so long as it catches the mouse. But what if, instead of happy mouse catching, you end up with a horrendous rat infestation of massive unemployment? This is now emerging in China.
These things are inherent in the contradictions and antagonisms of the capitalist system. Therefore we must think about solving them in a radically different way, and the only way is a genuine socialist transformation of the system.
Is there no decoupling of any part of the world economy from this situation?
Impossible! Globalisation is a necessary condition of human development. Ever since the expansion of the capitalist system was clearly visible, Marx theorised this. Martin Wolf of the Financial Times has complained that there are too many little, insignificant states that cause trouble. He argued that what was needed was “jurisdictional integration”, in other words complete imperialist integration – a fantasy concept. This is an expression of the insoluble contradictions and antagonisms of capitalist globalisation. Globalisation is a necessity but the form that is feasible, workable and sustainable is a socialist globalisation on the basis of socialist principles of substantive equality.
Although no decoupling from world history is conceivable it doesn’t mean that at every phase, in every part of the world, there is uniformity. Very different things are unfolding in Latin American compared to Europe, not to mention what I have already hinted at in China and the Far East, and Japan, which is in the deepest of trouble.
Just think back a little bit. How many miracles have we had in the post-war period? The German miracle, the Brazilian miracle, the Japanese miracle, the miracle of the five little tigers? How amusing that all these miracles turn into the most awful prosaic reality. The common denominator of all these realities is disastrous indebtedness and fraud.
One hedge fund manager has allegedly been involved in a $50 billion swindle. General Motors and the others were only asking the US government for $14 billion. How modest! They should be given $100 billion. If one hedge fund capitalist can organise an alleged $50 billion fraud, they should get all the funds feasible.
A system that operates in this morally rotten way cannot possibly survive, because it is uncontrollable. People are even admitting that they don’t know how it works. The solution is not to despair about it but to control it in the interests of social responsibility and a radical transformation of society.
The drive inherent in capitalism is to squeeze workers as hard as possible, and that’s clearly what governments are trying to do in Britain and the US.
The only thing they can do is advocate cutting workers’ wages. The principal reason why the Senate refused to pass even the $14 billion injection into the big three US car companies is they could not get agreement on a drastic reduction of workers’ wages. Think about the effect of that and the kind of obligations those workers have – for instance repaying massive mortgages. To ask them simply to halve their wages would generate other problems in the economy – again a contradiction.
Capital and contradictions are inseparable. We have to go beyond the superficial manifestations of those contradictions to their roots. You manage to manipulate them here and there but they will come back with a vengeance. Contradictions cannot be shoved under the carpet indefinitely because the carpet is now becoming a mountain.
You studied with Georg Lukács, a Marxist who goes back to the period of the Russian Revolution and beyond.
I worked with Lukács for seven years before I left Hungary in 1956 and we remained very close friends until he died in 1971. We always saw eye to eye – that’s why I wanted to study with him. It so happened that when I arrived to work with him he was being attacked very fiercely and openly in public. I could not stomach that and defended him, which led to all sorts of complications. Just as I left Hungary I was his designated successor at the university, teaching aesthetics. The reason I left was precisely because I was convinced that what was going on was a variety of very fundamental problems which that system could not resolve.
I tried to formulate and examine these problems in my books since then, in particular in Marx’s Theory of Alienation and Beyond Capital. Lukács used to say, quite rightly, that without strategy you can’t have tactics. Without a strategic view of these problems you cannot have the everyday solutions. So I have tried to analyse these problems consistently because they cannot be simply treated at the level of an article that relates only to what is happening today, though there is a big temptation to do that. Instead it has to be done within a historical perspective. I have been publishing since my first fairly substantial essay was published in 1950 in a literary periodical in Hungary and I have been working as hard as I could ever since. In whatever modest way we can, we make our contribution towards change. That’s what I have tried to do all my life.
What do you think the possibilities for change are at the moment?
Socialists are the last to minimise the difficulties of the solution. Capital apologists, whether they are neo-Keynesian or whatever else, can produce all kinds of simplistic solutions. I don’t think that we can consider the present crisis simply in the way we have in the past. The present crisis is profound. The deputy governor of the Bank of England has admitted that this is the greatest economic crisis in human history. I would only add that it is not the greatest economic crisis in human history but the greatest crisis in all senses. Economic crises cannot be separated from the rest of the system.
The fraudulence and domination of capital and the exploitation of the working class cannot go on forever. The producers cannot be kept constantly and forever under control. Marx argued that capitalists are simply the personifications of capital. They are not free agents; they are executing the imperatives of this system. So the problem for humanity is not simply to sweep away one bunch of capitalists. To simply put one type of personification of capital in the place of another would lead to the same disaster and sooner or later we’d end up with the restoration of capitalism.
The problems society faces have not simply arisen in the past few years. Sooner or later these have to be resolved and not, as the Nobel Prize winning economists might fantasise, within the framework of the system. The only possible solution is to found social reproduction on the basis of the producers being in control. That has always been the idea of socialism.
We have reached the historical limits of capital’s ability to control society. I don’t mean just banks and building societies, even though they cannot control those, but the rest. When things go wrong nobody’s responsible. From time to time politicians say, “I accept full responsibility,” and what happens? They are glorified. The only feasible alternative is the working class which is the producer of everything which is necessary in our life. Why should they not be in control of what they produce? I always stress in every book that saying no is relatively easy, but we have to find the positive dimension.
István Mészáros is the author of the recently published The Challenge and Burden of Historical Time.


