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O verdadeiro alvo – Vladimir Safatle

O verdadeiro alvo
Por Vladimir Safatle

Afinal de contas, quem exatamente o governo de Israel quer atacar, quando avança sobre a Faixa de Gaza?

O verdadeiro alvo Afinal de contas, quem exatamente o governo de Israel quer atacar, quando avança sobre a Faixa de Gaza?

Não há hoje assunto ao mesmo tempo mais urgente e mais bloqueado do que o conflito palestino. Mais urgente, porque ele há muito deixou de ser um problema regional. Seus desdobramentos influenciam de maneira decisiva a relação entre os árabes e o que convencionamos chamar de Ocidente. Esta é uma peça maior, e não apenas da pauta da política externa mundial. Levando em conta que os árabes e os turcos compõem atualmente o conjunto mais expressivo de trabalhadores pobres em países europeus, além de parcela significativa da classe média de países sul-americanos, não é difícil compreender como a “questão árabe” tornou-se ou pode se tornar, em muitos países, um assunto de política interna.

No entanto, a urgência do assunto só não é maior que o seu bloqueio. De fato, encontramos todos os dias artigos e mais artigos sobre o problema. Mas a grande maioria está bloqueada pela profusão infindável de preconceitos toscos, assim como amálgamas intelectualmente desonestos e apressados, produzidos por ambos os lados. Isto, quando não se entra no mais raso psicologismo.

Assim, os palestinos são muitas vezes apresentados como crianças que não sabem escolher (já que votaram no Hamas nas eleições legislativas de 2006 “contra seus próprios interesses”). Os israelenses, por sua vez, seriam arrogantes e egoístas. Não se vai muito longe com análises deste calibre. Muito menos com as que não cansam de repetir o mantra do “terrorismo islâmico” ou do “Estado assassino”.

Na verdade, não precisamos de julgamentos sumários nem pregações morais, mas de análises que demonstrem onde falham certos discursos oficiais hegemônicos, que tentam definir a interpretação do conflito onde a argumentação precisa parar, a fim de que procedimentos de estigmatização possam começar. Talvez isto nos ajude a compreender como, em pouco mais de dez anos, conseguimos passar de uma situação de paz à vista a uma sucessão de ações militares cada vez mais chocantes.
O argumento do direito de auto-defesa é consistente?

O governo de Israel tem patrocinado uma larga operação militar para, segundo Shimon Perez, “dar uma lição no Hamas”. Até agora, o resultado são mais de 1.000 mortos, sendo ao menos 300 crianças. Contra críticas internacionais, o governo de Israel afirma ter o direito de agir em defesa de sua integridade territorial e da segurança de seus cidadãos.

Tal segurança teria sido colocada em xeque devido a ataques com foguetes arcaicos operados pelo Hamas após uma longa trégua. Que tais ataques não tenham produzido vítimas, isto não significa que o governo de Israel não deveria lutar para evitar vítimas futuras. E, neste caso, lutar consistiria em “quebrar definitivamente a capacidade de ataque do Hamas”, como disse o próprio governo.

O raciocínio todo é correto, desde que aceitemos que o direito de defesa se aplica à relação entre Israel e Palestina. No entanto, este direito não pode ser aplicado quando se trata de ações referentes à gestão de um território ocupado ilegalmente. Ou seja, não posso alegar direito de defesa quando reajo a ataques vindos de um território que invadi ilegalmente. Infelizmente, esta é claramente a situação em que Israel se encontra em relação à Palestina (composta, de maneira indissociável, da faixa de Gaza e da Cisjordânia).

O direito internacional, representado pela ONU (diga-se de passagem, a mesma instituição que criou o Estado de Israel, o que lhe dá toda a legitimidade para enunciar uma lei sobre a situação), reconhece à Palestina o estatuto jurídico de “território ocupado”, ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de 40 anos.

A decisão é tão claramente aceita por instâncias internacionais que, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal brasileiro deverá indeferir o pedido israelense de deportação de um fanático que cometeu crimes na Cisjordânia e que veio a se esconder em nosso território, já que a jurisdição de Israel sobre os territórios ocupados não é reconhecida. Ou seja, uma situação ilegal anula a possibilidade de fazer apelo a um direito internacionalmente reconhecido.

Mas é claro que virá a pergunta: não teriam os israelenses a obrigação de assegurar seus cidadãos contra ações de um grupo vergonhosamente antissemita, que assassina civis e prega claramente a destruição do Estado de Israel ao invés de pregar apenas a defesa dos palestinos contra a ocupação? Afinal, a luta dos povos árabes contra o Estado de Israel não é uma invenção paranóica. As guerras de 1967 e de 1973 são prova maior de que toda vigilância é necessária. Ainda mais com o crescimento do caráter beligerante do dito fundamentalismo islâmico, representado na região pelo Hamas. Não estaríamos aí diante de uma situação de exceção, em que os critérios tradicionais de direito e justiça devem ser suspensos?

Aqui, vale a pena fazer duas colocações. Primeiro, o estado contínuo de guerra contra Israel desde sua fundação, em 1948, nunca foi o resultado de algum pretenso ódio milenar irracional entre árabes e judeus provocado por fanatismos religiosos, como muitas vezes se procura vender, mas de um clássico conflito territorial derivado do mais catastrófico processo de descolonização do século XX. Povos que ainda nos anos 20 viam-se como irmãos semitas foram jogados em um conflito fratricida devido a uma descolonização, operada sobretudo pela Grã-Bretanha, que prometia reiteradamente a ambos o direito sobre as mesmas terraswrt_note()1.

De qualquer forma, essa situação há muito perdeu força, principalmente depois da antiga OLP, de Yasser Arafat, reconhecer as fronteiras de 1967. O único país que ainda está em estado de beligerância com Israel é a Síria, devido à invasão israelense das colinas de Golã. Um histórico processo de negociação iria começar agora, graças à mediação da Turquia, no qual Israel devolveria o território ocupado em troca da normalização das relações. Algo nos moldes do que ocorreu com o Egito e a península do Sinai. Mas a invasão da faixa de Gaza jogou uma verdadeira pá de cal em tudo isso.

Por outro lado, se a questão gira em torno da implementação de políticas sólidas de segurança nacional, só podemos repetir uma pergunta de Daniel Baremboim, alguém cuja grandeza de espírito só é comparável à sua inteligência musical impar: “Esta é, afinal, a maneira mais eficaz de defender-se?”. A resposta é simplesmente: não.

Na verdade, não haveria maneira mais eficaz de defesa do que fazer aquilo que disse o Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente norte-americano Jimmy Carter: “negociar diretamente com o Hamas” e suspender o bloqueio a Gaza, que além de ser mais uma afronta ao direito internacional, alimenta o desespero e humilhação dos palestinos, solo fértil para o crescimento do apoio ao grupo islâmico. Da mesma forma, não haveria atualmente as deploráveis bravatas antissemitas de Ahmadinejad e o perigo real do Irã transformar-se em potência nuclear descontrolada se a política mundial não tivesse enveredado pelo caminho brutal da administração Bush.

Lembremos que o Irã estava em um claro movimento de abertura de seu regime e normalização de relações internacionais, primeiro com Rafsanjani e depois com o reformista Kathami.

Este movimento foi quebrado em 2005 como uma das consequências do recrudescimento das tensões produzidas pela invasão no vizinho Afeganistão. O desejo iraniano de transformação em potência nuclear foi resultado de um cálculo simples: os EUA invadiram o Iraque mesmo sem mandato da ONU e não invadiram a Coréia do Norte (com suas ameaças à “ordem mundial”) porque o primeiro não tinha armas nucleares, e o segundo tinha. Logo, esta é a condição para a sobrevivência.
Gênese do fundamentalismo islâmico popular

Mas voltemos à idéia de que a melhor política de segurança teria sido negociar diretamente com o Hamas. De fato, ele deu claros sinais, desde que venceu as eleições legislativas de 2006, de que sentaria à mesa de negociações. O Hamas aceitou longas tréguas, como esta que terminou em 19 de dezembro.

Alguns de seus líderes, como o chefe do conselho político Kahled Mechaal, chegaram mesmo a afirmar: “Queremos um Estado nas fronteiras de 1967″. Outro chegou a propor uma “trégua de cem anos”. Ou seja, havia indícios de que poderia acontecer com o Hamas o que aconteceu com o IRA, na Irlanda do Norte: a transformação de um grupo armado em ator político.

De qualquer forma, é oportuno contextualizar um dos dispositivos maiores que fundamentam a recusa do governo de Israel em negociar com o Hamas: “Não é possível negociar com alguém que não reconhece seu direito de existência”. Sim, é verdade. Por isto, é muito difícil avançar, enquanto existir, em Israel, partidos importantes como o Likud (atualmente na frente nas pesquisas eleitorais), cuja carta programática simplesmente não reconhece o direito à existência de um Estado palestino. Ou seja, os palestinos também não têm seu direito a um Estado reconhecido por todos os principais atores políticos israelenses.

No entanto, durante o governo do likudista Netanyahu, Arafat negociou com um partido que, em sua carta, não reconhecia o direito a um Estado palestino à oeste do Rio Jordão. Se Arafat fez, os políticos israelenses também podem fazer. Diga-se de passagem, mesmo aquilo que o atual partido governista Kadima propõe aos palestinos, além de ignorar frontalmente todas as resoluções da ONU a respeito dos territórios ocupados, dificilmente pode ser chamado de “Estado”, pois não leva em conta princípios fundamentais de autonomia e autodeterminação.

Mas podemos ainda dizer, juntamente com o atual governo de Israel: “Não negociamos com terroristas”. Em uma ironia maior da história, ele repete as mesmas palavras usadas pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada atuantes nos anos 40, como o Irgun e o grupo Stern.

Isto, sem falar que foi com o adjetivo de “terrorista” que Albert Einstein e Hannah Arendt trataram o futuro primeiro-ministro de Israel, Menachen Begin (carta ao “New York Times”, 4 de dezembro de 1948), líder do futuro Likud, do qual saiu o atual primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert. Mas, se há algo que a história das lutas de ocupação (Argélia, Vietnã, Irlanda etc.) nos ensina, é o seguinte: chega uma hora em que você terá que negociar com os “terroristas”. Por sinal, foi este o destino das relações entre o governo de Israel e os “terroristas” da OLP de Arafatwrt_note()2.

Pode-se contra-argumentar, no entanto, que entre o Hamas e a antiga OLP há uma diferença maior. Arafat não queria criar um Estado islâmico às portas de Israel. Seu grupo era laico. Sim, é verdade, mas isto, por si só, não justifica que o conflito palestino seja visto como uma situação de exceção. Pois a pergunta que deve ser respondida é: como um grupo como o Hamas, com um programa minoritário no início dos anos 90, transformou-se hoje no partido mais popular da Palestina? Uma popularidade que irá aumentar significativamente após este conflito, tal como aconteceu com o Hizbollah.

Cada palestino morto significa a consolidação de um sentimento de humilhação e descrença em relação à negociação política. E o que é expulso do campo simbólico da política retorna sob a forma de violência real. Por sinal, esta foi a equação que sempre alimentou o Hamas e que continuará a alimentá-lo. Pois não se destrói um grupo armado aumentando seu apoio popular.

A quem duvida do aumento do apoio ao Hamas, convido que veja a versão inglesa do canal de TV mais assistido no mundo árabe (Al-Jazeera) e analise a maneira como seus militantes são retratados. Tudo isto demonstra que o ataque a Gaza não era justificado nem do ponto de vista do direito de defesa, nem sequer do ponto de vista da eficácia de medidas de segurança.

Neste ponto, gostaria de esclarecer minha posição. Robert Kurz, em um artigo profundamente confuso (“Folha de S. Paulo”, 11/01/2008), critica o que ele chama de “esquerda pós-moderna(?)” que estaria disposta a “identificar-se com a administração autoritária da crise mundial (do capitalismo), aceitando como inevitável a guerra islâmica contra os judeus, como se ela fosse um mero flanqueamento ideológico”. Como se esta tal esquerda pós-moderna defendesse o Hamas por confundi-lo com uma força dos antigos “movimentos anti-imperialistas” e misturasse isto com tendências culturalistas e relativistas. Juntar-se-ia a isto um velho neoestatismo (o fantasma clássico a assombrar a vida de Robert Kurz), que crê valer a pena pacificar as massas por meios autoritários de um Estado forte, nem que seja um Estado islâmico. Contra isto, diz Kurz, deveríamos insistir na necessidade de “aniquilamento” do Hamas e do Hizbollah.

Há tempos não se via uma análise tão fora de esquadro, pois esta esquerda pós-moderna que apoia o Hamas e flerta com neoestatismo simplesmente não existe. Talvez Kurz pense em Foucault, com seu fascínio inicial equivocado pela revolução iraniana, e acredite que os críticos atuais da invasão a Gaza partilhem um erro simétrico. No entanto, se este for de fato o esquema na mente de Kurz, só podemos dizer que ele é delirante, já que as razões de Foucault em hipótese alguma passavam por alguma espécie de neoestatismo.

De qualquer forma, podemos aproveitar a colocação de Kurz. Pois, se houver esquerdistas dispostos a admitir certa complacência ideológica perigosa com grupos como o Hamas, devemos dizer claramente: não há compromisso possível entre a esquerda e um grupo claramente antissemita e reacionário. Ao contrário, ele representa tudo aquilo contra o qual lutamos, já que foi a esquerda que elevou o antissemitismo a um dos crimes mais inaceitáveis (pensemos no papel maior de Adorno, neste sentido). No entanto, deve-se constatar que todas as tentativas de “aniquilar” militarmente o Hamas só aumentaram sua força, pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que ele aparecesse, aos olhos dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação.

Basta lembrar que, em 1994, na época dos acordos de Oslo, a popularidade do grupo não passava de 15%. Hoje, ela é assustadoramente alta. Quer dizer, só há uma maneira de “aniquilar” o Hamas, e esta maneira não passa pela vitória militar, seja lá o que isto possa significarwrt_note()3.

Ninguém está aqui fazendo “vistas grossas” para os perigos do fundamentalismo islâmico, mas procurando a melhor maneira de desativar a bomba que ele representawrt_note()4.

Não esqueçamos que essa recrudescência do sentimento religioso no Oriente Médio é o resultado direto de um longo bloqueio, patrocinado pelo Ocidente, de modificações políticas nos países árabes. Desde os anos 50, o Ocidente vem sistematicamente minando todos os movimentos políticos árabes de autodeterminação e independência. O caso da conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é paradigmático.

Por outro lado, os regimes mais corruptos e totalitários da região são apoiados de maneira irrestrita pelo Ocidente (Paquistão, Arábia Saudita, Jordânia, Tunísia, Egito -cujo “presidente” Hosni Mubarak está no poder há meros 37 anos). Ou seja, a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam. Os árabes fizeram a prova do caráter formalista e “flexível” dos valores ocidentais.

Neste ambiente de cinismo e bloqueio do campo político, o retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. Foi isto o que aconteceu. Ou seja, não se trata aqui de traço arcaizante típico de civilizações refratárias ao nosso “choque civilizatório”. Trata-se de um sintoma recente de bloqueio do potencial transformador do campo político.

Por isto, os movimentos islâmicos não são apenas, como diz Kurz, “uma ideologia culturalista pós-moderna da crise de uma parte das elites há muito tempo ocidentalizadas nos países islâmicos”. Eles são movimentos de forte apoio popular, e este é o caráter verdadeiramente dramático da situação. Desmontar este apoio popular só é possível criando alternativas políticas reais e com forte potencial de transformação social.

Só que todas as vezes que tais alternativas foram tentadas, elas logo foram abortadas pelo Ocidente. O que nos permite acreditar que apenas a construção do campo político no mundo árabe irá, a médio termo, instaurar uma situação na qual o apelo à religião não terá mais ressonância social. Elas podem voltar a ser sociedades indiferentes à religião. Por outro lado, basta ver a Arábia Saudita para perceber que a criação de um Estado islâmico nunca foi realmente problema a tirar o sono do ocidente.
O sócio do Hamas

Retornemos à questão principal. Se os ataques não são justificáveis do ponto de vista do direito de defesa, nem são úteis como medidas de segurança, afinal para que eles servem? Algumas pessoas mal-intencionadas dizem que se trata de estratégia eleitoral para vitaminar os combalidos candidatos da coalização no poder. Tanto a direitista Tzipi Livni quanto o trabalhista Ehud Barak, membros do consórcio governista, estavam predestinados a perder a eleições de fevereiro.

O Partido Trabalhista de Barak estava condenado a ter uma das participações mais humilhantes de sua história. Como em um passe de mágica, tudo isto mudou. Mas não. Não é possível que alguém íntegro como o primeiro-ministro Ehud Olmert possa ter tramado isto. É verdade que nenhum governante na história de Israel foi alvo de tantos processos judiciais por corrupção, teve índices tão baixos de popularidade (3% de aprovação, em 2007) e foi tão acusado de incompetência como Olmert. Mas isto é certamente uma intriga da oposição.

Ao invés de usar este argumento, que é circunstancial, gostaria, no entanto, de usar um argumento “estrutural”. Na verdade, esta incrível ascensão do Hamas só foi possível porque eles têm um sócio poderoso e sempre pronto a fortalecê-lo. Não, este sócio não é o Irã. Este sócio é a direita israelense, que está ininterruptamente no poder desde a época de Benjamin Netanyahu (como gostaria de mostrar, o governo do trabalhista Ehud Barak não foi uma exceção) e que nunca acreditou nos acordos de Oslo.

A direita israelense é o grande sócio do Hamas porque, graças a este, ela consegue atingir seu verdadeiro alvo: os judeus esquerdistas, anticomunitaristas e pacifistas de Israel e do mundo, que sempre criticaram duramente e com os melhores argumentos a situação nos territórios ocupados, chegando mesmo às heróicas ações dos refuseniks (israelenses que se recusavam a servir o exército na Cisjordânia e na faixa de Gaza). Tais proposições podem parecer gratuitas e profundamente arbitrárias, fruto de alguma espécie de delírio esquerdista diversionista. No entanto, elas não o são.

Voltemos, por exemplo, à época dos acordos de Oslo. Naquele momento em que a paz parecia possível, um fenômeno extremamente relevante mostrou toda sua amplitude. Enquanto os governos de Rabin e Arafat tentavam implementar o plano, uma oposição que tudo fazia para minar os acordos foi mostrando sua verdadeira face.

No caso do governo de Israel, víamos não apenas colonos judeus que afrontavam o exército israelense em processos de desocupação de assentamentos e discursos incendiários de rabinos conservadores contra o próprio governo israelense. Muitos hão de se lembrar, por exemplo, destas inacreditáveis campanhas publicitárias feitas por organizações judaicas fundamentalistas, que conclamavam os judeus do mundo, com armas em punho, a impedirem a entrega de terras aos palestinos. O final deste processo foi o chocante assassinato de Rabin por um colono judeu.

Nunca na história de Israel seu povo se mostrou tão dividido. O que levou alguns a acreditar que a unidade do povo israelense poderia ser seriamente ameaçada com o avanço do processo de paz. Pois há uma ambiguidade maior no cerne da concepção israelense de nação. Por um lado, ela é assentada na criação de um Estado moderno e laico, onde haveria espaço inclusive para os árabes (mesmo que em número limitado), mas, de outro, ela é assombrada por fantasmas religiosos e comunitaristas no interior dos quais um messianismo redentor se mistura perigosamente com a tentativa de criar vínculos orgânicos entre nação, Estado e povo.

Isto sem falar no paradoxo gritante que é um Estado querer ser, ao mesmo tempo, moderno e ter um bizantino Ministério das Questões Religiosas, com suas cortes rabínicas, seu Departamento de Banhos Rituais e sua Divisão de Assuntos sobre Enterros. Poderíamos mesmo dizer que um espectro ronda o Estado de Israel: o espectro do teológico-político. Foi ele que ganhou encarnação trágica com o assassinato de Rabin por um colono.

Do lado de Israel, ficou claro que o avanço do processo de paz só seria possível através de uma confrontação corajosa com este núcleo teológico-político que sempre serviu de alimento para uma parte de seu imaginário como nação. No entanto, isto seria simplesmente a morte da direita israelense com seu comunitarismo indisfarçável e seus partidos religiosos que visam colonizar o campo social com narrativas mítico-religiosas.

Por isto, para ela, tratava-se no fundo de adiar o processo de paz ad infinitum e retirar qualquer força de pressão social dos grupos pacificistas esquerdistas. E a melhor maneira para isto era alimentando a popularidade de um grupo de fanáticos islâmicos através de uma escalada de provocações, ações militares e humilhações ao governo da Autoridade Palestina. Foi assim que a direita israelense e o Hamas cresceram juntos a partir do final do governo Rabin. Um precisa do outro para existir. Foi assim também que os grupos judaicos pela paz, espalhados pelo mundo, foram impiedosamente esvaziados.

Mas pode-se dizer que o argumento aqui apresentado é falho. Afinal, o que dizer do Partido Trabalhista, que governou Israel com Ehud Barak e está atualmente na coalização governista que comanda a invasão? Trata-se também de um membro da direita israelense? Hoje, certamente sim. O que vemos é um partido que, como seus congêneres sociais-democratas na Europa, não tem mais criatividade política alguma nem força suficiente para escapar de uma agenda securitária que foi posta em circulação pela direita e pela extrema-direita. Tanto que hoje ele não passa de um sócio indistinguível do Kadima.

Este destino havia ficado muito claro com o governo Barak. Mas não foi Barak que propôs em Camp David o melhor plano de paz para os palestinos, com garantias de um estado com 92% da Cisjordânia e a divisão de Jerusalém? Sim e, diga-se de passagem, foi um erro crasso de Arafat não o ter aceitado. O argumento da recusa é que o acordo não tratava do direito de retorno dos mais de 900.000 refugiados palestinos a Israel, tal como garantido pela resolução 194 da ONU. Em nome de um direito estruturalmente semelhante, a Otan havia invadido o Kosovo. Mesmo que Arafat tivesse legalmente razão, era hora de pegar o que estava sendo oferecido.

No entanto, vale a pena aqui também uma contextualização. O governo Barak nunca conseguiu escapar de uma agenda securitária e de retaliação militar contínua, já então dominante, até porque sua coalização era muito heteróclita para tanto e, de fato, porque talvez ele não tivesse nada mais a oferecer. Pois hoje temos relatos de membros do gabinete Clinton (então mediador do processo) a respeito das negociações de Camp David que deixam sérias dúvidas sobre as reais intenções de Barak.

Já a situação guardava algo de surreal: uma negociação daquela envergadura sendo feita por um presidente e um primeiro-ministro que iriam sair do cargo meses depois e que por isto, em última instância, não poderiam garantir a implementação do que seria acordado. Na verdade, temos todo o direito de perguntar por que Barak esperou os últimos dias de seu governo para sentar-se à mesa de negociaçõeswrt_note()5.

Dois povos, um Estado

Gostaria de terminar este artigo dizendo que, se o verdadeiro alvo desta invasão é o bloco pacifista e esquerdista judaico, que um dia teve peso real na constituição da agenda política da região e que poderia começar a desatar o nó entre política e teologia que parece querer colonizar os dois lados, então cabe a todos realmente interessados na paz lutar por construir uma alternativa política real com forte poder de transformação social. Diria que esta alternativa já havia sido sintetizada de maneira decisiva por um intelectual cuja grandeza faz falta em um momento com este: Edward Said. Sua luta incansável por um Estado binacional entre judeus e palestinos deve nos servir de guia.

De fato, os defensores da criação de um Estado palestino esquecem de um dado simples: ele não seria viável economicamente e serviria apenas de dormitório para mão-de-obra barata e sem direitos trabalhistas a ser explorada por seus vizinhos. Gaza é uma faixa de terra árida com 11 km de largura e 44 km de extensão. A Cisjordânia é do tamanho do Distrito Federal. Não se constrói um Estado com tão pouco.

Mas, para além deste “detalhe” pragmático, há uma questão maior. Um Estado binacional criaria uma dinâmica sociopolítica realmente transformadora, com poder irradiador para toda a região. Muitos rechaçam a ideia, dizendo: “No fundo, isto significa dizer que o povo judeu (ou o povo palestino) não tem direito a ter um Estado”. Bem, neste caso, devemos dizer claramente: nenhum povo tem direito a ter um Estado, pois o ímpeto fundamental do Estado moderno é a dissociação radical entre Estado, nação e povo.

O Estado moderno deve ser uma construção que permita aos sujeitos serem reconhecidos para além de suas etnias, religiões e culturas enquanto cidadãos indiferentes a suas diferenças. Por acreditarmos no caráter emancipador desta indiferença, devemos rejeitar radicalmente todo o qualquer nacionalismo com seus motivos de conservação de hábitos e tradições enquanto guia de conduta, assim como devemos rejeitar as armadilhas que procuram nos aprisionar em identidades sociais construídas no bojo de tradições religiosas. Lutemos, pois, por uma época em que as nações sejam peças políticas do passadowrt_note()6.

É verdade que nosso tempo parece particularmente triste para defesas desta natureza. Pois vivemos em uma era em que belgas se digladiam a fim de se separarem, franceses criam ministérios da identidade nacional, em que estruturas como a Comunidade Européia são, na verdade, federações comerciais que só conseguem estabelecer algum acordo político quando é questão de correr atrás de imigrantes. Mas talvez estes sejam sintomas de uma época esgotada que teima em não morrer. Acelerar seu desabamento é nossa tarefa.

Por isto, contra aqueles que vêem no conflito palestino o último capítulo da luta milenar na defesa dos valores da civilização judaico-cristã, devemos afirmar, com um sorriso: “Então parem o carro, porque eu quero descer. Já vi montanhas de cadáveres demais em nome desta civilização esclarecida”.

Sejamos fiéis à grandeza dos críticos de nossa própria tradição e digamos, junto com eles: a civilização judaico-cristã só foi grande quando teve a força de suspeitar de seus próprios valores, de se autocriticar impiedosamente, de esquecer suas raízes religiosas. Então ela aprendeu, como disse Nietzsche, a força dos que sabem que é necessário se perder para poder encontrar seu verdadeiro destino. Talvez a criação de um Estado binacional nesta região carregada de tanto simbolismo como é o “oeste do Rio Jordão” seria o começo necessário para esta perda que emancipa.

Cabe a dois povos igualmente vítimas do exílio, do desterro, da perseguição e da humilhação a tarefa de ser fiel a essa experiência histórica comum e transformá-la na mola mestra de um novo momento de criatividade política. Com a inteligência que transforma sofrimento em criação, diremos: o exílio é nossa verdadeira força.

Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e autor, entre outros, de “A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética” (Unesp, 2006), “Lacan” (Publifolha, 2007) e “Cinismo e Falência da Crítica” (Boitempo, 2008).
Publicado em 24/1/2009 em http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/3051,1.shl

1 – Os advogados da “tese do ódio milenar” deveriam primeiramente explicar como foi possível, em plena época de dominação muçulmana na Península Ibérica, haver algo como a “idade de ouro do pensamento judeu” (a respeito da qual Maimônides é o representante mais conhecido). Diga-se de passagem, foi apenas com a cristianização da península no final de séc. XV que os judeus foram expulsos de lá. Por isto, tais advogados deveriam também tentar nos explicar porque, ao serem expulsos da península ibérica, os judeus procuraram refúgio no Império Otomano, onde, durante a história do império, puderam aceder a cargos importantes na administração pública e no parlamento (séc. XIX): fatos simplesmente impensáveis na grande maioria dos países europeus. Todos os estudos históricos sérios são unânimes em afirmar que as condições de vida dos judeus no Império Otomano eram, em grande parte, muito melhores do que em qualquer outro país europeu. Diga-se, de passagem, se há um procedimento ideologicamente suspeito chamado “anti-historicismo” e fundado na recusa em levar em conta os condicionantes históricos na determinação de fatos presentes, há também o não menos suspeito “hiper-historicismo” que consiste em remeter a causa de todo conflito presente ao paleolítico e, com isto, esvaziar toda possibilidade de resolução.

2 – Bush Júnior, quando perguntado sobre a possibilidade de negociar com o Hamas, disse a frase: “Você acredita que venceríamos Hitler com diálogo e diplomacia?”. Que este amálgama tenha saído da boca de Bush Júnior, bem, isto não impressiona ninguém, mas que intelectuais inteligentes operem com ele, eis algo de inaceitável. Primeiro, deveríamos parar de vez com esta tendência nefasta, presente em ambos os lados do conflito, de comparar o opositor aos nazistas. Assim, o Hamas é igual a Hitler e o “Estado sionista” age como o “Estado nazista”. Francamente, esta é uma maneira de simplesmente não querer discutir o problema. E se for para apoiar-se nas infames declarações racistas de radicais palestinos, deveríamos lembrar da profusão de racismo que ultimamente sai da boca de políticos israelenses influentes, alguns comparando os árabes a “vermes” e “povo que tem a mentira no sangue”. Melhor seria assumir o conflito por aquilo que ele é: não um conflito de civilizações, uma reedição das cruzadas ou uma luta do bem contra o mal radical, mas um conflito territorial que assumiu proporções que nunca deveria ter assumido.

3 – Diga-se de passagem, é assustador ver o vocabulário do “aniquilamento” sair da boca de um pretenso leitor da Escola de Frankfurt, mesmo relacionando-se com fanáticos religiosos. Rezemos para que este seja apenas um erro de tradução. Pois, se não for este o caso, poderíamos dizer: sendo a ordem “aniquilar o Hamas”, de nada adianta desmantelá-lo como se fez inúmeras vezes com o ETA ou o IRA. Como nestes dois casos, logo ele se recomporá. Melhor seria eliminar fisicamente seus membros, já que eles não se deixam prender facilmente. Mas também de nada adianta eliminar apenas os membros. Tenho todo o direito de acreditar que os filhos e irmãos dos membros alimentarão o ódio contra o inimigo e pegarão em armas na primeira oportunidade. Devemos ter a responsabilidade preventiva de eliminar também os filhos e irmãos. Mas o que dizer também dos vizinhos que cresceram juntos com estes “eliminados” e que podem se ver na obrigação moral de continuar a batalha? Talvez devêssemos também cuidar dos vizinhos. Ou seja, como dizia o “neoestatista” Hegel, as piores catástrofes são normalmente feitas com as melhores razões.

4- Imaginemos que, ao final de ataques parecidos, o governo de Israel consiga aniquilar a estrutura do Hamas. O que aconteceria? Muito provavelmente, novos grupos, muito mais radicais (pois alimentados pela destruição provocada pelos ataques), apareceriam, inclusive os não submetidos a um comando central com o qual se poderia negociar. Desesperados com o fracasso de lutas nacionalistas, eles poderiam ser levados a fazer algo que, até agora, o Hamas não fez: aliar-se integralmente ao jihadismo internacional (Al-Qaeda), acertando alvos em todas as partes do mundo.

5 – Para uma exposição clara do que realmente foram as negociações de Camp David, ver o artigo de Robert Malley (assistente especial de Clinton para o conflito palestino) e Hussein Agha: “Camp David: the tragedy of errors” (http://www.nybooks.com/articles/14380) .

6 – Em uma resenha de livros de Slavoj Zizek sobre Robespierre e Mao Tse-tung, insisti no vínculo entre o terror jacobino e certos traços da noção moderna de subjetividade, repetindo uma estratégia sintetizada pela primeira vez por Hegel. Esta primeira emergência violenta de uma subjetividade, que aparece como puramente negativa em relação às estruturas político-institucionais, determinará alguns momentos centrais da história das revoluções do séc. XX. Hegel havia claramente compreendido que tal emergência exigia pensar novas estruturas sociais, capazes de dar conta da exigência de reconhecimento de sujeitos não-substanciais e profundamente marcados pela experiência da negatividade. Podemos dizer que, de certa forma, tentar realizar esta tarefa foi o motor escondido de alguns momentos maiores do século XX. Certas pessoas de notória má-fé acreditaram que, com isto, eu estaria fazendo apologia do terrorismo (termo que eles usam ao bel-prazer, aplicando até a operadores de rádios-piratas, membros do MST e vendedores de DVDs falsificados). Não creio que valha a pena tentar refutá-los e é claro que o amálgama é intolerável e espúrio. O que procurei foi simplesmente aceitar a tarefa de pensar os vínculos entre projeto moderno e tradição revolucionária (tanto política quanto artística). Qualquer pessoa de bom senso percebe, por exemplo, que estas questões não têm relação alguma com pretensa permissividade à ideologia religiosa-nacionalista delirante de grupos como Hamas, Hizbollah e cia. Mas, infelizmente, talvez Descartes estivesse errado em acreditar que o bom senso é a coisa mais bem partilhada do mundo.

Os meninos-soldados da África

Os meninos-soldados da África

Desde a guerra da Libéria, em 1989, crianças combatem em muitas regiões da África

Gilles Lapouge, de O Estado de S. Paulo

quarta-feira, 26 de novembro de 2008, 09:02 | Online

PARIS - Com o novo abrasamento do Congo, voltam a nossas vistas uma das invenções mais tétricas de nosso tempo: aqueles “meninos-soldados” que desde a guerra da Libéria, em 1989, combatem em muitas regiões da África.

No Nord-Kivu, o general Laurent Nkunda que comanda a revolta contra os soldados do governo legal da República Democrática do Congo utiliza esses meninos. Imagens nos mostram essas crianças. Pequenas, indiferentes, além do bem e do mal, da pena e do horror, elas carregam com altivez, grotescamente, metralhadores ou fuzis Kalashnikov tão grandes como elas.

Uma outra guerra que se desenrola não mais no Congo, mas no Sudão, consome muitos meninos, a de Darfur, que opõe as tropas do governo de Cartum a populações nômades. Esses nômades são massacrados pelas milícias de Cartum. Eles replicam desenvolvendo seu próprio exército, um exército rebelde que recruta crianças. Mais de 10 mil foram recrutadas segundo a Unicef do Sudão.

Quem são esses meninos? Eles têm de 9 a 14 anos. Em geral, unem-se aos rebeldes porque viram seus pais serem assassinados debaixo de seus olhos pelas milícias de Cartum, os terríveis janjawids (os “cavaleiros do demônio”).

Hassan tem 13 anos. “Os janjawids invadiram a aldeia. Eles viram meu pai doente. Eles lhe disseram, ´Você é velho`, e o mataram. Minha mãe se jogou sobre meu pai. Os janjawids dispararam uma segunda rajada.” Hassan fugiu e procurou um acampamento rebelde para aprender a matar, para se vingar dos janjawids. Agora, ele mata.

Esses diálogos nos foram trazidos por Larisse Houssou. cujos artigos receberam o prêmio da Comissão Européia dos Direitos Humanos. Houssou nos mostra um outro menino, Boubacar (13 anos, mas combate desde os 9).

Ele é chamado de “o matador”. Sua especialidade: arrastar os prisioneiros sobre pedregulhos, dilacerando-os até a morte.  Njaima, 11 anos, é “o cortador”. Ele oficia quando é preciso mutilar um inimigo. Quantos ele supliciou? Ele conta nos dedos. Dez. “Depois, eu não sei mais contar.” Uma de suas lembranças: um dia, seu chefe lhe ordenou que cortasse dois dedos de cada mão de um prisioneiro. Njaima não tinha faca. Foi preciso utilizar uma tenaz, “mas não foi fácil”.

Samir tem 14 anos. Ele aprendeu seu ofício nas escolas de guerrilha que os rebeldes mantêm no deserto. “Nós debatemos problemas políticos e sociais. Como não vamos à escola, isso nos instrui um pouco.”

No mês passado, o chefe ordenou a Samir para degolar dois janjawids. Ele os fez ajoelhar, a cabeça abaixada, pés e mãos já arrancados, e os decapitou a golpes de facão. Samir pensou em seus irmãos e irmãs que os janjawids haviam decapitado.

Um belo documentário (“Johnny Mad Dog”) foi exibido em Paris. Ele mostra meninos-soldado da Libéria. Silhuetas grotescas atravessam a tela, trajando uniformes surrealistas, uma mistura de uniformes de batalha, jeans e vestidos de noiva recuperados dos ataques. Esmagados sob o peso de suas armas e munições, esses pequenos seres abandonados ocupam a savana como grandes insetos de pesadelo.

Nos arredores de uma grande cidade, um grupo de meninos aterroriza adultos. Um escolar vai ao encontro de seu pai. Os meninos-soldado agarram o escolar, o obrigam a abater seu pai. Um menino-soldado a mais!

Japão usou arma bacteriológica, admite tribunal

O Estado de São Paulo

Quarta-feira, 28 de agosto de 2002

Japão usou arma bacteriológica, admite tribunal

Mas a corte de Tóquio rejeita pagamento de indenizações a 180 chineses

TÓQUIO – Um tribunal de Tóquio admitiu ontem pela primeira vez que o Exército Imperial japonês usou armas bacteriológicas na China durante a 2.ª Guerra Mundial, mas rejeitou o pedido de indenização de um grupo de 180 chineses, que também exigia uma desculpa oficial do Japão.
Segundo fontes da Justiça de Tóquio, é a primeira vez que um tribunal japonês reconhece os testes realizados com germes pela Unidade 731 e outras divisões de armas bacteriológicas do Exército Imperial entre 1937 e 1945. O processo foi aberto inicialmente em 1997 vítimas e parentes de pessoas mortas nos ataques com armas biológicas. É exigida uma indenização de aproximadamente US$ 83 mil por pessoa. Os advogados do grupo apresentarão recurso.

Segundo os reclamantes, o Exército japonês usou pulgas infectadas com peste bubônica e comida preparada com a bactéria do cólera nas províncias de Zhejiang e Hunan, causando a morte de milhares de civis. Centenas de prisioneiros foram vivisseccionados e milhares usados em experiências com armas bacteriológicas pela Unidade 731. E aviões japoneses expuseram prisioneiros a germes para analisar a reação.

Segundo dados obtidos recentemente, foi o próprio imperador Hirohito, irritado e impaciente pelos “escassos progressos” na luta contra os chineses, que autorizou seu Exército a utilizar “todos os meios, incluindo armas químicas e bacteriológicas”.

O juiz do tribunal distrital de Tóquio, Koji Iwata, afirmou que a evidência apresentada pela defesa mostra que o uso de germes como arma pelo Exército Imperial na China “causou a morte de muitos civis”. Mas ele argumentou que, de acordo com as leis internacionais, cidadãos que não sejam japoneses não têm o direito de pedir compensação diretamente ao governo do Japão. O governo diz que não tem obrigação de pagar indenizações por atos cometidos antes da aprovação da Lei Estatal de Compensação, que entrou em vigor após a guerra.

O direito internacional havia proibido antes do início da 2.ª Guerra o uso de armas químicas e bacteriológicas. Contudo, o Japão ignorou o direito internacional e levou adiante experiências contra os soldados de Mao Tsé-tung.

O historiador Hal Gold, autor de um estudo sobre a Unidade 731 publicado em 1996, descreve como alguns prisioneiros em idade avançada eram isolados e obrigados a vestir roupas com pulgas que, reproduzindo-se em massa, eram infectadas com germes e espalhadas entre a população.

A temida Unidade 731, com 2 mil homens, foi desmobilizada e suas instalações na cidade chinesa de Harbin foram destruídas após o fim da guerra. Segundo historiadores, seus membros receberam ordens de “levar para o túmulo os segredos” sobre as experiências de guerra. (France Presse, EFE e Ansa)

As escravas sexuais coreanas, durante a 2ª Guerra Mundial

São Paulo, quarta-feira, 29 de maio de 2002

TURISTA OCIDENTAL

No centro de Seul, a 511ª manifestação semanal em frente à Embaixada do Japão

O BANQUINHO DAS EX-ESCRAVAS SEXUAIS

MÁRIO MAGALHÃES
ENVIADO ESPECIAL A SEUL

Vendo estas mulheres assim de perto, ao vivo, de carne e osso, custa-se a acreditar que tudo tenha se passado como se passou.
E tudo aconteceu exatamente como hoje se sabe. Depoimentos são centenas. Fotografias também existem. Organismos multilaterais, como a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, escarafuncharam até reconstituir as passagens mais sórdidas.
O vínculo supremo com o passado é a memória destas octogenárias e septuagenárias. O que para alguns parece remoto, para elas foi ontem. Quando muito, anteontem. Não cicatrizou.
É pontualmente meio-dia de quarta-feira no centro de Seul. O sol de verão incendeia a primavera na Coréia do Sul. Sentadas em banquinhos, dez mulheres se postam na calçada em frente à Embaixada do Japão.
Diante delas, uma tropa de policiais com idade para ser seus netos ou bisnetos as contempla expondo cassetetes de dimensões pornográficas e escudos. Começa a 511ª manifestação semanal das ex-escravas sexuais.
São sobreviventes. De 1932 a 1945, o Exército Imperial Japonês recrutou à força cerca de 200 mil mulheres para servirem sexualmente aos seus soldados e oficiais nos fronts de guerra asiáticos.
A maioria era de coreanas. Ficava mais fácil: em 1910, o Japão anexara a Coréia na marra. Sairia em 1945. Em 1992, contavam-se apenas 300 coreanas vivas. Hoje não são mais de 140.
Com as mulheres em silêncio, em seus banquinhos, integrantes de um movimento de apoio à punição de criminosos de guerra narram ao microfone coisas do passado. De mulheres que estão ali, que não estão, que morreram.
Chung Seo-woon foi arrastada para a Indonésia. Depois contaria não ter entendido o que um médico militar japonês fez ao lhe penetrar uma barra de ferro quente. Descobriu que fora uma das 3.000 esterilizadas em Jacarta. De segunda a sexta, suportava 50 militares por dia. Sábado e domingo, cem. Nunca pôde ter filhos.
Chong Ok-sun foi carregada aos 13 anos. Resistiu, desvirginaram-na com um cassetete. Viu outra coreana reclamar e ter a cabeça arrancada com uma espada. Uma escrava foi retalhada. Chong nunca mais teve intercurso. Por causa da dor e do trauma.
Cessam os discursos. Os cerca de 80 presentes, dos quais 16 freiras católicas, entoam cânticos. Palavras de ordem. Punhos cerrados. Levanta do banquinho a única ex-escrava a discursar hoje: Yoon Sun-man, 83. Recomeça, agora de costas para as companheiras e de frente para a embaixada, a reviver a sua saga.
Boa parte das mais de 100 mil coreanas foi sequestrada quando tinha de 14 a 18 anos. O Exército Imperial Japonês temia a proliferação de doenças venéreas. Por isso queria virgens. Não adiantava mentir, falar em marido. Os cabelos denunciavam a condição conjugal. Casada se penteava de um jeito, solteira de outro.
O Japão passou a construir em 1932 o que foi designado eufemisticamente de “”estações de conforto”. Nelas estariam as “”comfort women”, expressão em inglês que qualifica as mulheres que provêm conforto. A primeira estação foi montada em Shangai, na China. Outras foram espalhadas por toda a Ásia, porém não na Coréia.
Por isso, desavisadas, algumas coreanas aceitavam convites para trabalhar em fábricas distantes, aliviando em uma boca famílias empobrecidas e famélicas. Em vez de ir para fábricas, eram despejadas nessa espécie pouco alardeada de campo de concentração: as “”estações de conforto”.
Não se tratava de prostíbulos nem de prostitutas. Não havia negócio nem nada elas recebiam para “”confortar” os militares. Submetidas a trabalho forçado, não podiam sair. Era escravidão.
Muitas tentaram fugir e foram mortas. Numa só estação, 70 foram assassinadas em 1945 horas antes do resgate por tropas dos EUA. Várias se suicidaram, ainda presas ou nas décadas seguintes.
Agora, de frente para a embaixada, Yoon Sun-man reafirma as reivindicações essenciais: que o Japão peça desculpas, puna os responsáveis ainda vivos, reconheça que houve crimes de guerra, compense as vítimas e corrija os livros que escamoteiam a tragédia das “”comfort women”.
O Japão afirma que não pode responder com base nas leis sobre guerra só aprovadas em 1949, em Genebra. E que os acordos pós-Segunda Guerra Mundial (1939-45) zeraram o jogo.
Para muitas sobreviventes, o tempo não passou. Sua história permanece tabu até na Coréia. Depois da guerra, elas eram consideradas prostitutas. Escondiam o passado. Na manifestação, uma delas oculta o rosto com uma folha de papel. Quatro compartilham uma casa no interior.
Até dez anos atrás faltava coragem para reaparecer e exigir o que consideram seus direitos. O primeiro protesto foi em janeiro de 1992, numa quarta-feira. Não pararam mais. Sempre às 12h.
Yoon Sun-man, escravizada em 1941, termina o discurso da quarta passada. Às 12h30, nem um minuto a mais ou a menos, elas vão embora com os banquinhos. Kim Sun-duk, 79, diz ao estrangeiro persistir porque injustiças devem ser punidas. E Yoon Sun-man, numa última frase, se vira e acrescenta: “”Eu não posso morrer antes de ouvir desculpas”.

Falsas Pretensões

The Center for Public Integrity
January 23, 2008

False Pretenses

FOLLOWING 9/11, PRESIDENT BUSH AND SEVEN TOP OFFICIALS OF HIS ADMINISTRATION WAGED A CAREFULLY ORCHESTRATED CAMPAIGN OF MISINFORMATION ABOUT THE THREAT POSED BY SADDAM HUSSEIN’S IRAQ.
By Charles Lewis and Mark Reading-Smith

President George W. Bush and seven of his administration’s top officials, including Vice President Dick Cheney, National Security Adviser Condoleezza Rice, and Defense Secretary Donald Rumsfeld, made at least 935 false statements in the two years following September 11, 2001, about the national security threat posed by Saddam Hussein’s Iraq. Nearly five years after the U.S. invasion of Iraq, an exhaustive examination of the record shows that the statements were part of an orchestrated campaign that effectively galvanized public opinion and, in the process, led the nation to war under decidedly false pretenses.

On at least 532 separate occasions (in speeches, briefings, interviews, testimony, and the like), Bush and these three key officials, along with Secretary of State Colin Powell, Deputy Defense Secretary Paul Wolfowitz, and White House press secretaries Ari Fleischer and Scott McClellan, stated unequivocally that Iraq had weapons of mass destruction (or was trying to produce or obtain them), links to Al Qaeda, or both. This concerted effort was the underpinning of the Bush administration’s case for war.

It is now beyond dispute that Iraq did not possess any weapons of mass destruction or have meaningful ties to Al Qaeda. This was the conclusion of numerous bipartisan government investigations, including those by the Senate Select Committee on Intelligence (2004 and 2006), the 9/11 Commission, and the multinational Iraq Survey Group, whose “Duelfer Report” established that Saddam Hussein had terminated Iraq’s nuclear program in 1991 and made little effort to restart it.

In short, the Bush administration led the nation to war on the basis of erroneous information that it methodically propagated and that culminated in military action against Iraq on March 19, 2003. Not surprisingly, the officials with the most opportunities to make speeches, grant media interviews, and otherwise frame the public debate also made the most false statements, according to this first-ever analysis of the entire body of prewar rhetoric.

President Bush, for example, made 232 false statements about weapons of mass destruction in Iraq and another 28 false statements about Iraq’s links to Al Qaeda. Secretary of State Powell had the second-highest total in the two-year period, with 244 false statements about weapons of mass destruction in Iraq and 10 about Iraq’s links to Al Qaeda. Rumsfeld and Fleischer each made 109 false statements, followed by Wolfowitz (with 85), Rice (with 56), Cheney (with 48), and McClellan (with 14).

The massive database at the heart of this project juxtaposes what President Bush and these seven top officials were saying for public consumption against what was known, or should have been known, on a day-to-day basis. This fully searchable database includes the public statements, drawn from both primary sources (such as official transcripts) and secondary sources (chiefly major news organizations) over the two years beginning on September 11, 2001. It also interlaces relevant information from more than 25 government reports, books, articles, speeches, and interviews.

Consider, for example, these false public statements made in the run-up to war:

  • On August 26, 2002, in an address to the national convention of the Veteran of Foreign Wars, Cheney flatly declared: “Simply stated, there is no doubt that Saddam Hussein now has weapons of mass destruction. There is no doubt he is amassing them to use against our friends, against our allies, and against us.” In fact, former CIA Director George Tenet later recalled, Cheney’s assertions went well beyond his agency’s assessments at the time. Another CIA official, referring to the same speech, told journalist Ron Suskind, “Our reaction was, ‘Where is he getting this stuff from?’ “
  • In the closing days of September 2002, with a congressional vote fast approaching on authorizing the use of military force in Iraq, Bush told the nation in his weekly radio address: “The Iraqi regime possesses biological and chemical weapons, is rebuilding the facilities to make more and, according to the British government, could launch a biological or chemical attack in as little as 45 minutes after the order is given. . . . This regime is seeking a nuclear bomb, and with fissile material could build one within a year.” A few days later, similar findings were also included in a much-hurried National Intelligence Estimate on Iraq’s weapons of mass destruction — an analysis that hadn’t been done in years, as the intelligence community had deemed it unnecessary and the White House hadn’t requested it.
  • In July 2002, Rumsfeld had a one-word answer for reporters who asked whether Iraq had relationships with Al Qaeda terrorists: “Sure.” In fact, an assessment issued that same month by the Defense Intelligence Agency (and confirmed weeks later by CIA Director Tenet) found an absence of “compelling evidence demonstrating direct cooperation between the government of Iraq and Al Qaeda.” What’s more, an earlier DIA assessment said that “the nature of the regime’s relationship with Al Qaeda is unclear.”
  • On May 29, 2003, in an interview with Polish TV, President Bush declared: “We found the weapons of mass destruction. We found biological laboratories.” But as journalist Bob Woodward reported in State of Denial, days earlier a team of civilian experts dispatched to examine the two mobile labs found in Iraq had concluded in a field report that the labs were not for biological weapons. The team’s final report, completed the following month, concluded that the labs had probably been used to manufacture hydrogen for weather balloons.
  • On January 28, 2003, in his annual State of the Union address, Bush asserted: “The British government has learned that Saddam Hussein recently sought significant quantities of uranium from Africa. Our intelligence sources tell us that he has attempted to purchase high-strength aluminum tubes suitable for nuclear weapons production.” Two weeks earlier, an analyst with the State Department’s Bureau of Intelligence and Research sent an email to colleagues in the intelligence community laying out why he believed the uranium-purchase agreement “probably is a hoax.”
  • On February 5, 2003, in an address to the United Nations Security Council, Powell said: “What we’re giving you are facts and conclusions based on solid intelligence. I will cite some examples, and these are from human sources.” As it turned out, however, two of the main human sources to which Powell referred had provided false information. One was an Iraqi con artist, code-named “Curveball,” whom American intelligence officials were dubious about and in fact had never even spoken to. The other was an Al Qaeda detainee, Ibn al-Sheikh al-Libi, who had reportedly been sent to Eqypt by the CIA and tortured and who later recanted the information he had provided. Libi told the CIA in January 2004 that he had “decided he would fabricate any information interrogators wanted in order to gain better treatment and avoid being handed over to [a foreign government].”

The false statements dramatically increased in August 2002, with congressional consideration of a war resolution, then escalated through the mid-term elections and spiked even higher from January 2003 to the eve of the invasion.

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It was during those critical weeks in early 2003 that the president delivered his State of the Union address and Powell delivered his memorable U.N. presentation. For all 935 false statements, including when and where they occurred, go to the search page for this project; the methodology used for this analysis is explained here.

In addition to their patently false pronouncements, Bush and these seven top officials also made hundreds of other statements in the two years after 9/11 in which they implied that Iraq had weapons of mass destruction or links to Al Qaeda. Other administration higher-ups, joined by Pentagon officials and Republican leaders in Congress, also routinely sounded false war alarms in the Washington echo chamber.

The cumulative effect of these false statements — amplified by thousands of news stories and broadcasts — was massive, with the media coverage creating an almost impenetrable din for several critical months in the run-up to war. Some journalists — indeed, even some entire news organizations — have since acknowledged that their coverage during those prewar months was far too deferential and uncritical. These mea culpas notwithstanding, much of the wall-to-wall media coverage provided additional, “independent” validation of the Bush administration’s false statements about Iraq.

The “ground truth” of the Iraq war itself eventually forced the president to backpedal, albeit grudgingly. In a 2004 appearance on NBC’s Meet the Press, for example, Bush acknowledged that no weapons of mass destruction had been found in Iraq. And on December 18, 2005, with his approval ratings on the decline, Bush told the nation in a Sunday-night address from the Oval Office: “It is true that Saddam Hussein had a history of pursuing and using weapons of mass destruction. It is true that he systematically concealed those programs, and blocked the work of U.N. weapons inspectors. It is true that many nations believed that Saddam had weapons of mass destruction. But much of the intelligence turned out to be wrong. As your president, I am responsible for the decision to go into Iraq. Yet it was right to remove Saddam Hussein from power.”

Bush stopped short, however, of admitting error or poor judgment; instead, his administration repeatedly attributed the stark disparity between its prewar public statements and the actual “ground truth” regarding the threat posed by Iraq to poor intelligence from a Who’s Who of domestic agencies.

On the other hand, a growing number of critics, including a parade of former government officials, have publicly — and in some cases vociferously — accused the president and his inner circle of ignoring or distorting the available intelligence. In the end, these critics say, it was the calculated drumbeat of false information and public pronouncements that ultimately misled the American people and this nation’s allies on their way to war.

Bush and the top officials of his administration have so far largely avoided the harsh, sustained glare of formal scrutiny about their personal responsibility for the litany of repeated, false statements in the run-up to the war in Iraq. There has been no congressional investigation, for example, into what exactly was going on inside the Bush White House in that period. Congressional oversight has focused almost entirely on the quality of the U.S. government’s pre-war intelligence — not the judgment, public statements, or public accountability of its highest officials. And, of course, only four of the officials — Powell, Rice, Rumsfeld, and Wolfowitz — have testified before Congress about Iraq.

Short of such review, this project provides a heretofore unavailable framework for examining how the U.S. war in Iraq came to pass. Clearly, it calls into question the repeated assertions of Bush administration officials that they were the unwitting victims of bad intelligence.

Above all, the 935 false statements painstakingly presented here finally help to answer two all-too-familiar questions as they apply to Bush and his top advisers: What did they know, and when did they know it?