Blog de Christy Ganzert Pato

Diálogos em terra arrasada

Arquivo paraCrise de 1929

Conceição Tavares – “Deus mercado virou diabo”

São Paulo, quinta-feira, 25 de setembro de 2008

“Deus mercado virou diabo”, diz economista

Para Maria da Conceição Tavares, neoliberalismo sofreu “golpe mortal” e agora interessa ao capitalismo a auto-regulação

Economista diz que Brasil “ainda não está ameaçado”, pois bancos não estão “metidos em especulação” e não há dívida externa

MAIR PENA NETO
DA REUTERS

Os Estados Unidos precisam regular, e rápido, o seu sistema financeiro sob pena de não conseguirem controlar a atual crise e perderem sua hegemonia no setor, advertiu a economista Maria da Conceição Tavares em entrevista à Reuters.
Estabelecer as regras do jogo é a questão-chave para estabilizar o mercado, na opinião da professora da UFRJ e da Unicamp, uma das principais vozes da economia brasileira desde a década de 1970.
Mas seria interesse do capitalismo se regular? A economista avalia que, no momento, sim, pois o modelo neoliberal naufragou. “O Deus mercado virou diabo na terra do gelo.”
A economista vê sinais de declínio dos EUA até pelo fato de o país não estar mais sozinho, como na crise de 1929, e ter que se entender com a China.
“Não escreveria hoje, como escrevi em 1984, a retomada da hegemonia americana. Ou resolvem rápido essa crise ou, se deixarem para depois da eleição, não conseguem manter a hegemonia”, afirmou Conceição, para emendar, taxativa: “O século 21 não será norte-americano”. Leia, a seguir, mais opiniões da economista.

BANCOS
O Brasil ainda não está ameaçado. Os bancos brasileiros não estão metidos nessa ciranda. Há uma supervisão muito grande do Banco Central. Mesmo os derivativos a BM&F registra. Não tem controle de capitais, mas tem registro, o que significa que, se você quiser controlar, tem os instrumentos. As condições favoráveis do Brasil são as seguintes: bancos privados não estão metidos nessa especulação; não temos dívida externa pública; temos reservas; o problema de balanço de pagamentos é pequeno; o impacto das commodities não dá para perceber e somos muito abertos ao mundo. Temos mais comércio com a Argentina do que com os EUA. Los hermanos são mais importantes que o big brother.

ECONOMIA REAL
A crise não está na economia real. Só na Europa e no Japão, onde a ligação entre bancos e a economia real é mais forte. No caso americano, não. Há um setor da economia real americana que já começou a decadência, e por aí virá uma recessão, que é o imobiliário. Esse não tem saída. No ciclo recente, o setor que primeiro puxa a economia americana é o imobiliário, depois automóveis, os duráveis e, finalmente, o investimento. Ainda não está claro se serão afetados. O investimento das empresas depende do que vai acontecer com a Bolsa. Se ela continuar oscilando, mas não tiver uma depressão, sobrevive.

RECESSÃO
Acho que vai ter uma recessão, ninguém duvida. Mas uma coisa é uma recessão, outra é uma depressão. Não há dúvida de que ainda vai ter uma liquidação de ativos financeiros que eram fictícios. Essa parte da liquidação financeira da riqueza vai continuar e a gente não sabe até quando. A ligação entre essa crise e o setor real agora é o aperto global do crédito. Se continuar, vamos para uma recessão global. Sem crédito, não funciona capitalismo algum.

ONTEM E HOJE
A única coisa que pode dar um certo otimismo é que em 1930 os EUA estavam sozinhos, mas agora eles têm a China como parceira. Em 1930, os EUA não tinham sócios, todas as reservas do mundo estavam com eles. Agora, os EUA não têm reservas, só têm dívida. Todas as reservas em dólar estão basicamente na Ásia.

DECLÍNIO DO IMPÉRIO
Desta vez acho que é sinal do declínio [americano]. A menos que levem no bico os chineses e russos. Estão com problemas de petróleo. Tinham que ter tomado providências imediatas para regular o mercado futuro de petróleo. Você não consegue mais fazer preço e os preços não têm tendência específica, sobem e descem de maneira enlouquecida. Nisso não se parece nada com 1930, que era uma crise de deflação de ativos e de preços. Agora é de liquidação de ativos financeiros e os preços… não têm uma tendência definida.

SEM BRETON WOODS
A complicação é como [os EUA] se entendem com Europa de um lado e China do outro. Não são parceiros da mesma natureza. Infelizmente, não creio que vá haver uma reunião como Breton Woods. Não estamos caminhando para uma ordem mundial nova. Estamos caminhando para uma certa desordem. Os parceiros não vão seguir as ordens americanas, sobretudo em matéria financeira. É difícil um acordo por Estados. Acho que os EUA vão se regular primeiro e os demais países vão se adaptar, não creio em regulação conjunta. Seria ideal, mas não creio.

FALHAS NO PACOTE
O [Henry] Paulson [secretário do Tesouro dos EUA], homem de Wall Street, propôs salvar os bancos e só. Não disse mais nada sobre regulá-los. Os candidatos não estão satisfeitos com essa idéia de socializar os prejuízos. [Os EUA] fizeram isso na década de 1990. A raiz dessa crise é a crise de 1990, quando, em vez de regular, liberalizaram tudo na pretensão de que os mercados se auto-regulavam, sobretudo as grandes instituições que tinham rating. Aí o Congresso começou a chiar e aos poucos os bancos vão começar aceitando a supervisão.

DEUS E O DIABO
No momento, interessa ao capitalismo se regular. O neoliberalismo foi-se. O Deus mercado virou diabo na terra do gelo. Sofreu golpe mortal. Paulson ainda queria manter dessa maneira, tanto que não falou em regulação, mas o pessoal cobra porque é dinheiro para burro… O governo terá de regular, não é um processo fácil. Terá que fazer acordo com comissões financeiras do Senado e da Câmara. Se conseguirem um acordo, aí já dá para todos irem para casa disputar as eleições.

DONO DO CASSINO
Ou os EUA resolvem quais são as regras agora, enquanto são donos do cassino, ou daqui a pouco não adianta nada porque não serão mais os donos. É mais fácil fazer acordo quando eu, que sou a banca, faço as regras e convido os demais a seguirem ou se adaptarem. Ou resolvem rápido ou se deixarem para depois da eleição não conseguem manter a hegemonia.

SEM DINHEIRO
O auxílio dos bancos centrais não resolveu nada, só injetou liquidez. Quando você injeta liquidez, mas os bancos não emprestam uns aos outros, mais sobe a taxa interbancária. Esse assunto não está resolvido. Foi isso que levou o Paulson a avançar para resgatar os títulos podres para que as instituições fiquem sãs.

Harold James – A história não tem lições que nos ajudem

São Paulo, domingo, 21 de setembro de 2008

ARTIGO

A história não tem lições que nos ajudem

HAROLD JAMES
DO “FINANCIAL TIMES”

OS DRAMAS dos últimos dias -a queda do Lehman Brothers, a rápida aquisição do Merrill Lynch, o enfraquecimento da AIG, as ameaças a todas as outras instituições- não têm precedentes históricos reais. É impossível identificar, desde a Grande Depressão, algum paralelo à extensão da crise bancária vivida nesta semana. Mas as implosões do fim de semana passado nem sequer se parecem com a experiência da Depressão nos EUA, em que o país foi varrido por semanas de pânico que geraram o caos. A crise atual, em contraste, atinge diretamente o coração do sistema financeiro e põe em risco todo um sistema complexo de garantias de crédito e respaldos de seguradoras que, afirmava-se, tornavam o sistema à prova de crises.
Como todo mundo, os banqueiros gostam de contar com um “cobertor reconfortante”, ou seja, algo que lhes transmita segurança. Em meio a qualquer episódio de fraqueza dos bancos ou turbulência financeira, costumam repetir que aprenderam as lições certas com a Depressão. Tornou-se artigo de fé a idéia de que uma catástrofe daquela magnitude nunca mais poderia se repetir.
Na década de 1930, foi especialmente a criação da política monetária que ficou paralisada. Saiu dessa história a lição simples que todos os responsáveis pelo traçado da política econômica e financeira absorveram da obra “Monetary History of the United States”, de Milton Friedman e Anna Schwartz, e de seu capítulo central sobre a Depressão. A recomendação é simples: os bancos centrais têm a responsabilidade de não permitir que o colapso de um banco seja seguido por uma contração monetária deflacionária. O Federal Reserve, o BC Europeu e o Banco da Inglaterra estão neste momento fazendo muito mais do que colocar essa lição em prática.
Eles estão garantindo volumes maciços de liquidez e concedendo crédito contra uma gama cada vez maior de ativos. Os BCs acreditam que precisam interromper o efeito dominó de colapsos no setor financeiro que pode levar a uma situação em que os bancos deixem de conceder empréstimos a qualquer credor. Essa lição sobre liquidez não é a mesma que foi tirada por Friedman e Schwartz.
Ela é mais ativista e mais antiga. Ela decorre da experiência britânica das crises dos bancos no século 19 e foi exposta de maneira contundente em “Lombard Street”, de Walter Bagehot. Bagehot foi a versão anterior daquele “cobertorzinho” que transmitia segurança aos banqueiros. A doutrina do fornecimento de liquidez depende de uma separação clara entre liquidez e solvência. Bagehot foi completamente lúcido a esse respeito: a responsabilidade do BC consiste em injetar liquidez temporária para enfrentar os problemas de instituições momentaneamente sem liquidez, mas não insolventes.
Mas, se sua doutrina era tão eficaz para solucionar crises, por que aconteceram os pânicos e colapsos da Grande Depressão? O problema é que a Grande Depressão foi muito diferente dos pânicos de Bagehot, como o são nossos problemas atuais. No meio de um pânico que não surge de modo repentino, mas que decorre de um problema de valorização (como é o caso da crise das hipotecas de alto risco), quando os mercados não estão mais comunicando sinais de preço com eficácia, é impossível saber o que significa a solvência. De fato, uma peculiaridade do pedido de concordata do Lehman é a declaração de ativos e passivos, na qual os ativos ainda constam como sendo maiores que os passivos.
Se existem paralelos a serem traçados entre a Depressão e a saga de hoje, eles estão na Europa continental, onde instituições grandes e complexas que ocupavam posições centrais na rede financeira quebraram: o Creditanstalt, na Áustria, ou o Darmstadter Bank, na Alemanha, ou ainda o sistema bancário italiano inteiro. Como é o caso da crise atual, a queda de cada grande instituição desencadeou a busca para ver qual poderia ser o próximo alvo. A paralisia política da Depressão deveu-se às circunstâncias excepcionais de um pânico grande e prolongado. Como os bancos deixaram de dar sinais positivos, ninguém podia aplicar a doutrina de Bagehot.
A norma tranqüilizadora revelou-se inútil, e os responsáveis pela política simplesmente fizeram experimentos e torceram para que os resultados fossem positivos. Se você fizer um bochecho com boa liquidez, é possível que consiga livrar-se do gosto ruim da insolvência. Hoje existem riscos reais. Pesar e analisá-los é algo que deve ser feito com capacidade de julgamento e para o qual a história não nos oferece lições sólidas nas quais possamos nos basear. A fraqueza da AIG e as ameaças às outras instituições não têm precedentes históricos reais.


HAROLD JAMES é professor de história e assuntos internacionais na Woodrow Wilson School e na Universidade Princeton e ocupa a cadeira Marie Curie de história no European University Institute.