Blog de Christy Ganzert Pato

Diálogos em terra arrasada

Arquivo paraCrise Mundial de Alimentos

PAUL KRUGMAN – Reservas escassas de recursos podem travar expansão global

São Paulo, terça-feira, 22 de abril de 2008

ARTIGO

Reservas escassas de recursos podem travar expansão global

Estoques baixos indicam que era das commodities baratas acabou para sempre

PAUL KRUGMAN
DO “NEW YORK TIMES”

NOVE ANOS atrás, a “Economist” publicou grande reportagem sobre o petróleo, que na época era vendido por US$ 10 o barril. A revista avisou que essa situação poderia não durar muito tempo. Sugeriu que, em lugar disso, o preço poderia cair para US$ 5.
De qualquer maneira, disse a revista, o mundo “está diante da perspectiva de petróleo em abundância e a preço baixo durante o futuro previsível”.
Na semana passada, o preço do barril chegou a US$ 117. Não se trata só de dizer que o petróleo desmentiu a complacência de alguns anos atrás. Os preços dos alimentos também subiram, assim como os de metais básicos. E o aumento mundial nos preços dos commodities está trazendo de volta pergunta que não ouvíamos com freqüência desde os anos 1970: as reservas limitadas de recursos naturais vão representar um obstáculo ao crescimento econômico futuro do mundo?
A resposta que se dá a essa pergunta depende em grande medida do que se acredita que esteja motivando a alta nos preços dos recursos. Há três pontos de vista distintos sobre isso.
O primeiro diz que a razão principal é a especulação: que os investidores, interessados em obter retornos altos num período de juros baixos, investiram pesado em futuros de commodities, gerando alta nos preços. Segundo essa visão, a bolha deve se romper em algum momento não distante.
A segunda explicação é que os preços crescentes dos recursos devem-se a questões fundamentais -especialmente à demanda dos chineses-, mas que, com o tempo, vamos perfurar mais poços, plantar mais hectares, e o aumento da oferta reduzirá os preços outra vez.
O terceiro ponto de vista reza que a era das commodities baratas acabou para sempre -que estão se esgotando o petróleo, a terra na qual ampliar a produção de alimentos e, de modo geral, as reservas exploráveis do planeta.
Minha opinião fica em algum lugar entre a segunda e a terceira explicações. Algumas pessoas inteligentes -entre as quais George Soros- pensam que vivemos uma bolha de commodities. A objeção que faço a esse argumento é: onde estão os estoques?
Normalmente, a especulação empurra os preços dos commodities para cima, motivando o armazenamento deles. Mas não se vêem sinais desse armazenamento: os estoques de alimentos e metais encontram-se em seus níveis historicamente mais baixos e os de petróleo estão apenas normais.
O melhor argumento em defesa da segunda explicação, a de que o arrocho dos commodities é real, mas temporário, está na semelhança entre o que estamos vendo hoje e a crise dos recursos vivida nos anos 1970.
O que os americanos mais recordam sobre a década de 1970 são a alta dos preços do petróleo e as filas nos postos de combustíveis. Mas também houve grave crise global de alimentos, que provocou dor nas filas dos caixas dos supermercados e ajudou a causar períodos devastadores de fome generalizada em países mais pobres.
Olhando em retrospectiva, o boom de commodities de 1972-75 foi provavelmente fruto do rápido crescimento mundial, que superou a oferta, aliado aos efeitos de problemas climáticos e do conflito do Oriente Médio. O período difícil chegou ao fim, novas extensões de terra começaram a ser cultivadas, fontes de petróleo foram encontradas no golfo do México e no mar do Norte, e os recursos voltaram a custar pouco.
Desta vez, porém, pode ser diferente. As preocupações sobre o que acontece quando uma economia global em constante crescimento se choca com os limites de um planeta finito soam mais próximas da verdade hoje do que nos anos 1970.
Para começar, não prevejo que o crescimento da China vá diminuir no futuro próximo. É um contraste grande com o que aconteceu nos anos 1970, quando o crescimento no Japão e na Europa, os emergentes da época, diminuiu, aliviando a pressão sobre os recursos.
Enquanto isso, está se tornando mais difícil encontrar recursos. As grandes descobertas petrolíferas, em especial, passaram a ser poucas e raras.
E o mau tempo que prejudica a produção agrícola desta vez está começando a configurar-se como algo mais fundamental e permanente que o El Niño e La Niña, que prejudicaram as plantações 35 anos atrás. A Austrália passa pelo décimo ano de estiagem que, cada vez mais, parece constituir-se numa manifestação de mudanças climáticas de longo prazo.
Suponhamos que estejamos de fato topando com os limites do planeta. O que isso significa?
Mesmo que se verifique que de fato chegamos ao pico da produção petrolífera mundial, ou quase, isso não quer dizer que um dia digamos “oh, meu Deus! O petróleo acaba de se esgotar!” e assistamos à civilização desabar em anarquia ao estilo “Mad Max”.
Mas os países ricos vão enfrentar a pressão constante da alta dos preços das commodities sobre suas economias, dificultando a elevação de seu padrão de vida. E alguns países pobres passarão a viver perigosamente perto do abismo -ou cairão nele.
Não olhe agora, mas é possível que os bons tempos tenham ficado para trás.


PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do “New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de CLARA ALLAIN

FMI diz que pior da crise de alimentos está por vir

18/04/200811h34

FMI diz que pior da crise de alimentos está por vir e ataca biocombustíveis

da Efe, em Paris
com Folha Online

O diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, teme que “o pior” ainda esteja por vir nos distúrbios causados pela crise de alimentos em países pobres. Ele disse ainda que os biocombustíveis produzidos com produtos agrícolas alimentares colocam “um verdadeiro problema moral” no tema.

Além disso, Strauss-Kahn pediu que seja replantada a produção de biocombustíveis feita com produtos agrícolas que servem para a alimentação. “Nas revoltas da fome, o pior, infelizmente, talvez esteja à frente de nós”, disse Strauss-Kahn na emissora “Europe 1″, que acrescentou que “centenas de milhares de pessoas vão ser afetadas”.

O responsável do FMI disse que, além da fome e dos riscos de crise de fome, está “a desnutrição”. Ele ressaltou que as crianças mal alimentadas carregam as seqüelas durante “toda sua vida’.

“É extremamente grave. O planeta deve enfrentar isso”, sentenciou Strauss-Kahn, que reiterou sua recente afirmação de que a crise atual pode levar a “guerras”.

Ele afirmou que “não se trata de assustar, mas de ver a realidade” e explicou que, quando há situações “tão dramáticas”, a população critica seus governos, embora tenham feito o que puderam, e podem fazer cair Executivos democraticamente eleitos. “A história está cheia de guerras que começaram por causa de problemas deste tipo”, concluiu.

A preocupação com a recente alta dos preços dos alimentos e o forte crescimento da demanda no mercado mundial, associados à produção de biocombustíveis, foi tema de declarações de uma série de órgãos internacionais ao redor do mundo nas últimas semanas.

Reação

Em resposta às declarações do relator especial da ONU (Organização das Nações Unidas) para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, que disse que a produção em massa de biocombustíveis representa um crime contra a humanidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse na quarta-feira (16) que descartar a produção de biocombustíveis é o “verdadeiro crime contra a humanidade”.

No mesmo dia, Lula chamou de “palpiteiros” os que têm relacionado a alta dos preços dos alimentos com a produção de biocombustíveis. “É muito fácil alguém ficar sentado em um banco da Suíça e ficar dando palpite no Brasil e na África. É preciso vir aqui meter o pé no barro”, disse o presidente.

Lula disse que a alta recente nos preços dos alimentos não tem uma única explicação. Entre as causas, o presidente relacionou o aumento no preço do petróleo, a quebra em safras de mundo todo, o aumento no valor dos fretes, as variações cambiais, a especulação financeira e o aumento no consumo em países como China, Índia e da África e América Latina.

O presidente cobrou a criação de políticas globais para a segurança alimentar e criticou o protecionismo e os subsídios agrícolas nos países ricos. Ele ressaltou que o sucesso da Rodada Doha depende da abertura do mercado agrícola europeu e da redução de subsídios na Europa. “O Brasil não precisa ganhar, mas a Europa e os Estados Unidos precisam ceder e os países pobres ganharem”, concluiu.

Lula criticou ainda o FMI, a quem acusou de não ter dado “uma única opinião” sobre a crise americana e disse que os países desenvolvidos só reagem em situações de emergência.

Consumo e estoque baixo encarecem comida

São Paulo, domingo, 13 de abril de 2008

Consumo e estoque baixo encarecem comida

Aumento do consumo aqui e lá fora, falta de estoques e quebras de safra fazem dos alimentos o vilão da inflação no Brasil e no mundo

Desequilíbrio entre oferta e demanda deve continuar e provocar novo impacto nos preços nos próximos anos, afirmam especialistas

Bagus Indahono – 9.abr.08/Efe

Agricultores trabalham em arrozal de Kerawang (Indonésia); preço do arroz dobrou em 3 meses
MAURO ZAFALON
DA REDAÇÃO

Se o Brasil ficou praticamente imune à atual retração da economia mundial, não deverá se livrar dos efeitos da forte alta das commodities quando se refere à inflação. Por ser um dos principais produtores mundiais de grãos e carnes, o país terá impacto menor do que o dos importadores de alimentos. Mas a alta mundial acelerada já está presente na mesa dos consumidores brasileiros.
E essa tendência vai continuar. “Os preços das commodities se formam lá fora. À medida que há aumento por lá, imediatamente bate aqui.” A avaliação é de Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura.
Foco de atenção dos líderes mundiais, que colocaram o preço dos alimentos no centro das prioridades globais, a alta preocupa também os brasileiros.
Nos últimos 12 meses, a evolução dos principais alimentos consumidos impressiona, ainda mais na comparação com a inflação do período em São Paulo, de 4,29%: o feijão subiu 168%; o óleo de soja, 56%; o pãozinho, 17%; o filé mignon, 22%; o leite em pó, 42%.
Na média, os alimentos subiram 11,24% -mais do que o dobro da inflação no período, conforme informações da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).
O ministro acredita que os preços das commodities vão continuar elevados, podendo, inclusive, mudar de patamar para cima em dois anos.
Luís Carlos Guedes Pinto, antecessor de Stephanes na Agricultura, também acredita na manutenção de preços elevados. “A alta ainda permanecerá por um tempo. Os estoques estão baixos, e a oferta de alimentos será maior apenas quando houver mais investimentos na produção, o que deve ocorrer com esses preços elevados.”
Stephanes condiciona a manutenção dos preços lá fora ao crescimento econômico mundial e à manutenção do programa de produção de álcool, que, nos Estados Unidos, tem o milho como matéria-prima base.
Mantidas essas duas linhas -e mesmo que seja um pouco menor o ritmo de crescimento mundial-, continuará o desequilíbrio entre demanda e oferta. Esse desequilíbrio, que já ocorre há três anos, só não se fez sentir antes porque o mundo vinha “comendo estoques”, que estavam elevados, afirma o ministro.
À medida que os estoques estão diminuindo e o desequilíbrio entre oferta e demanda continua, a tendência é que, mais à frente, haja um novo impacto nos preços. Possivelmente nos próximos dois anos, afirma Stephanes.
De 1980 a 2005, a agricultura segurava a taxa de inflação, enquanto o peso vinha de outros setores. “Agora, essa curva já começou a inverter e, na minha visão, vai continuar”, diz ele.
Para Guedes, a forte alta dos preços externos é fruto de políticas protecionistas dos países desenvolvidos, que, com subsídios, impediram a evolução da produção nos mais pobres.
Um exemplo recente é o da produção de álcool nos EUA. Se os norte-americanos não impusessem elevadas taxas de importação ao produto brasileiro, teriam pelo menos mais 90 milhões de toneladas de milho para oferecer ao mundo, diz ele.

Pressão interna
A oferta de alimentos terá de crescer 6% ao ano, um taxa impossível para a maioria dos países, mas Stephanes e Guedes concordam que o Brasil tem grandes vantagens sobre os demais, devido a clima, oferta de terra e estrutura agrícola.
Além da pressão externa, existe a alta nos preços internos devido à demanda e, em alguns casos, à menor oferta de produtos provocada por problemas climáticos.
Paulo Picchetti, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor Semanal do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da FGV, também diz que os preços externos das commodities influenciam os internos. “É inevitável que exista essa correlação.” Os repasses, porém, nunca são integrais e imediatos, acrescenta o economista.
Além disso, o peso dos importados, depende de políticas aduaneiras e da taxa de câmbio. A importação de trigo, por exemplo, mesmo sendo o calcanhar-de-aquiles do país, está facilitada pela queda do dólar e pela eliminação temporária da TEC (Tarifa Externa Comum).
Marcio Nakane, coordenador do IPC da Fipe, diz que “os dados indicam que há uma ligação importante” entre os preços externos e internos. Apesar dessa ligação, ele acredita que as pressões deste ano vão ser menos fortes do que as de 2007.
Ele respalda essa expectativa nos recentes números recordes de safras divulgados pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).