Blog de Christy Ganzert Pato
Diálogos em terra arrasadaArquivo paraCrônicas do cotidiano
População japonesa se adapta à crise
São Paulo, segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 
População japonesa se adapta à crise
DO “FINANCIAL TIMES”
Hidenobu Ishikawa, gerente de marketing, deseja uma nova câmera, mas não se atreve a conversar sobre o assunto com sua mulher. Soh Aoki passou o Ano-Novo em uma vila para sem-teto e desempregados, depois que de uma hora para outra não encontrou mais os trabalhos temporários que o sustentaram por vários anos. Mayumi Sakuma, um escritor free–lancer, ficou sem água quente por uma semana para economizar dinheiro para o conserto do gás. Por todo o Japão, as pessoas estão se ajustando às difíceis realidades da recessão.
“O impacto da crise é como três ou quatro bombas atômicas explodindo no mundo”, afirma Toshiaki Sumita, de uma empresa de vidro óptico que viu suas vendas caírem pela metade e cujas fornalhas estão paradas desde o início deste ano.
Inicialmente, o Japão parecia relativamente isolado dos problemas financeiros internacionais. Mas, enquanto o seu sistema bancário está em muito melhor forma do que o dos EUA e o da Europa, a economia real se mostrou muito vulnerável ao contágio global.
A decisão do governo dos EUA de deixar o Lehman Brothers quebrar, em setembro de 2008, atingiu o Japão de duas maneiras. Primeiro, a retirada de fundos estrangeiros afetou as já abaladas ações japonesas, enfraquecendo o capital dos bancos locais, tornando-os mais relutantes na hora de emprestar. Segundo, o colapso global da demanda por produtos como carros e eletrônicos atingiu violentamente o poderoso setor exportador.
Mesmo consumidores que não foram afetados diretamente por esses problemas reagiram cortando seus gastos, acrescentando a fraca demanda interna aos problemas gerais.
Mas é claro que nem tudo é sombrio no Japão. O país possui enormes reservas tanto de riqueza como de talento e muitas das suas empresas são impressionantemente enxutas. Ainda assim, mesmo algumas companhias que normalmente estariam bem posicionadas para se beneficiar dos problemas econômicos estão sofrendo.
Com as linhas de produção ociosas por todo o país, a Onuma Machine, que negocia equipamentos industriais usados, não encontra dificuldades para encontrar material para seus galpões. Mas o presidente da empresa, Hisao Onuma, diz que sofre para encontrar compradores ainda que os preços estejam a metade dos “bons tempos”.
Onuma, que, para economizar dinheiro, determinou que seus funcionários reduzam o consumo de eletricidade e não usem rodovias com pedágios, disse que a desaceleração global fez com que as economias vizinhas, como a China, não compensassem o espaço deixada pela queda japonesa. “Eu nunca vi nada como isso.”
Cidade holandesa tem “baby boom” após dois dias sem energia
29/10/2008 – 14h40
Cidade holandesa tem “baby boom” após dois dias sem energia
Eles tinham TV em casa, mas faltou luz. Uma pequena cidade holandesa registrou um verdadeiro “baby boom” nove meses após uma queda de energia.
Em dezembro do ano passado, os 23 mil habitantes de Maasdriel ficaram no escuro por dois dias, informa a agência France Presse.
A causa da falta de luz foi a queda de um helicóptero sobre cabos de alta tensão que fornecem energia às nove vilas do município.
Em setembro deste ano, 26 bebês nasceram em Maasdriel. O número é 44% superior ao registrado no mesmo período do ano passado (18), segundo Annelies van Eijkeren, porta-voz da prefeitura.
Eijkeren afirma que, apesar dos bons –e inesperados– resultados, o governo quer aumentar a população, mas não pretende fazer isso com cortes de energia.
Crise imobiliária nos EUA atinge brasileiros imigrantes
Brasil “sem-teto” nos EUA
02/11/2008
O estouro da “bolha imobiliária” e a paralisação do mercado de construção de novas residências nos EUA atingiu em cheio uma das maiores comunidades de brasileiros nos EUA, na cidade de Newark, no Estado de Nova Jersey.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
![]() |
| Marcelo Costa, que perdeu duas casas, que chegaram a valer US$ 1,1 milhão, e o emprego de corretor; agora trabalha como motorista |
Nos últimos meses, dezenas de famílias deixaram Newark, muitas para voltar ao Brasil. Entre os brasileiros, a maioria dos homens trabalha ou trabalhava na construção. Eles não só perderam os empregos. Agora, perdem em massa as suas casas.
Há pouco mais de um ano, o mineiro Marcelo Costa, 37, estava comprando financiadas duas casas em Newark. Quando tomou os empréstimos, em 2004, os valores dos imóveis eram de US$ 400 mil e US$ 290 mil. Há pouco mais de dois anos, chegaram a US$ 620 mil e US$ 500 mil, no pico do “boom” imobiliário norte-americano.
Na época, Costa surfava nessa boa onda trabalhando como corretor de imóveis, o que lhe garantia um rendimento superior a US$ 10 mil ao mês. “Em dois anos, minha vida virou de ponta-cabeça”, afirma.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
![]() |
| Mario Damião, da Castle Home Mortgage, que chegou a ter 97 corretores e agora tem 22; no “boom” sua empresa girava US$ 25 mi ao mês |
Os preços dos imóveis que ele estava comprando começaram a desabar com o estouro da “bolha”. Seu rendimento despencou junto. Como no período de alta os compradores usam a valorização para levantar novos empréstimos, Costa ficou na seguinte situação: duas prestações muito altas, relativamente ao valor dos imóveis (eles hoje valem quase o mesmo que há quatro anos), e sem a renda de antes.
Resultado: teve de devolver os imóveis aos bancos. Hoje, Costa mora na casa de um ex-cunhado e luta para ganhar entre US$ 2.500 e US$ 3.000 por mês dirigindo uma limosine entre Newark e Manhattan, na vizinha Nova York. “Aqui não é como o Brasil. Vou me levantar de novo, pode apostar”, diz Costa, há 17 anos nos EUA.
Em Newark, há prédios e ruas inteiras com imóveis fechados, grande parte deixados para trás por brasileiros, que somam cerca de 30 mil nesta cidade de 280 mil habitantes.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
![]() |
| Casa que pertencia a brasileiros em Newark para alugar ou vender; eles perderam o emprego e não pagaram os empréstimos |
Segundo o corretor brasileiro Valtair Souza, da Exit Realty, quase 70% dos brasileiros que compraram casas em Newark durante o “boom” perderam ou estão em vias de perder os seus imóveis.
Quem perde a casa e não vai embora acaba alugando muitos dos imóveis disponíveis, que passam a ser administrados por bancos ou corretoras. Enquanto o valor de uma prestação (“mortgage”, em inglês) mais taxas de propriedade em Newark estão hoje em US$ 5.000, em média, é possível alugar imóveis grandes por menos de US$ 2.000. É o que muitos acabam fazendo.
O “boom” imobiliário foi tão intenso em Newark que muitas casas que chegaram a valer mais de US$ 600 mil foram construídas, por falta de terrenos, em áreas de indústrias e galpões abandonados, degradadas e violentas. Hoje, estão vazias, para alugar ou vender, e valem um terço do que custavam no auge do mercado.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
![]() |
| Prédio fechado em Newark, onde quase todos os apartamentos foram retomados por bancos |
Quando estava em sua “grande fase”, Costa trabalhava para outro brasileiro, o “Dr. Mortgage”, como é conhecido Mario Damião, 44, âncora do programa de TV “Casa Nova” (agora suspenso), exibido nos EUA e Canadá, de orientação sobre o mercado imobiliário.
Há 20 anos no país, o paulistano Damião tem há dez anos uma licença para “mortgage banking” nos EUA. No auge do “boom” passou a ter, além de Costa, outros 95 corretores na sua empresa. Na boa fase, a Castle Home Mortgage chegou a girar US$ 25 milhões vendendo 60 imóveis por mês.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
![]() |
| Cartaz anuncia festa de Halloween brasileira em Newark, sorteio de um Beatle “carregado de cerveja” |
Hoje, trabalha com apenas 20 pessoas e fechou quatro de seus oito escritórios na região. “Na época do ‘boom’ era assim: ‘O sujeito respira?’. Então tem financiamento”, diz Damião.
Como os preços não paravam de subir, o negócio era muito pouco arriscado para os bancos, que tinham imóveis em forte valorização como garantia caso o comprador ficasse inadimplente. Até o mercado inverter e embicar para baixo.
Hoje, Damião diz ter vários imóveis para alugar vazios. Ele não confia em alugá-los a quem diz trabalhar, por exemplo, no setor de construção, caso da maioria dos brasileiros. “É um emprego em extinção”, diz.
Damião calcula “uns dez anos” para que a demanda para a compra de imóveis volte a se ajustar à oferta em Newark.
A crise imobiliária que acertou os brasileiros já deprime também outros negócios, como as várias lojas de Newark voltadas a eles. Na cidade, há ruas inteiras delas, onde o português predomina.
Segundo Marta Martins, da Pantanal, especializada em artigos importados do Brasil (de CDs de forró a balas 7 Belo), o movimento caiu “pela metade” no último ano.
“Muita gente já foi embora ouvindo dizer que as coisas estão melhores no Brasil. Acho que agora em dezembro e janeiro, quando o frio apertar, vai mais uma boa leva”, diz.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
![]() |
| Loja de produtos brasileiros em Newark vende Dadinho, Serenta de Amor, Hall´s, bala 7 Belo e Doce de Leite para matar a saudade do Brasil |
Bancos com problemas
A perda em massa de casas por famílias norte-americanas e de imigrantes nos EUA gerou um problema gigantesco para os bancos no país.
Além de deixar de receber as prestações pelos financiamentos concedidos, os bancos estão tendo que administrar milhares de imóveis que acabam retomando dos seus clientes –uma atividade que nada tem a ver com o seu negócio.
Enquanto não encontram solução para os imóveis, a tendência é que eles se deteriorem e percam ainda mais valor. Há centenas de relatos de casas abandonadas e que acabaram sendo vandalizadas ou infestadas por insetos e ratos por causa de restos de alimentos deixados para trás.
Só no terceiro trimestre deste ano, 765,5 mil famílias nos EUA tiveram ordens de despejo concedidas pela Justiça (o site www.foreclosure.com dá uma boa idéia do tipo de imóvel retomado e agora à venda). O problema já obriga os bancos a aceitar valores muito baixos para se livrar dos imóveis.
A operação, conhecida como “short sale” (venda rápida), é a seguinte: o comprador inadimplente do imóvel tenta encontrar, via um corretor, alguém interessado em sua casa.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
![]() |
| Karina Freitas passava lista pedindo dinheiro entre brasileiros em Newark na semana passada para ajudar amigo que será deportado |
Esse potencial comprador faz uma oferta à vista, na maioria das vezes muito baixa.
As partes vão ao banco e oferecem o negócio. Se o banco aceitar, fica com o dinheiro à vista. O novo comprador, com o imóvel. E o antigo comprador, sem nada (mas livre da sua dívida).
Depois de terem suas carteiras abarrotadas por imóveis devolvidos, os bancos também estão partindo para a ofensiva e oferecendo o refinanciamento das dívidas, especialmente depois que o Fed (o banco central dos EUA) inundou o mercado financeiro com dinheiro a juros muito baixos.
Nesse caso, o banco reduz, por exemplo, o juro do financiamento de 8% ao ano para 3,5% por um prazo de normalmente cinco anos, dando fôlego ao comprador.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
![]() |
| Escritório da Coisas do Brasil, que presta serviços a brasileiros; em várias ruas de Newark só se ouve português e espanhol |
Na sexta, o JP Morgan, maior banco dos EUA em valor de mercado, anunciou que passará a refinanciar cerca de US$ 110 bilhões de sua carteira de empréstimo imobiliário.
Disse ainda que suspenderá por até 90 dias os pedidos judiciais de despejos contra seus clientes inadimplentes, até que consiga uma renegociação com eles.
A FDIC, agência federal garantidora dos depósitos bancários nos EUA, também vem pressionando o Tesouro para que use parte do pacote de US$ 700 bilhões aprovado no Congresso para ajudar os compradores inadimplentes.
O plano prevê a utilização de até US$ 50 bilhões a serem usados no refinanciamento, a juros menores, de US$ 500 bilhões em dívidas não pagas. Mais de 4,5 milhões de famílias têm financiamentos imobiliários em atraso hoje.
![]() |
Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras. |
Em Wall Street, quem pedia filé agora só quer comer hambúrguer
São Paulo, sexta-feira, 19 de setembro de 2008 
Em Wall Street, quem pedia filé agora só quer comer hambúrguer
ANDREA MURTA
DE NOVA YORK
No Distrito Financeiro de Nova York, não são só bancos e seguradoras que estão sendo afetados pelas turbulências em Wall Street: bares e restaurantes locais, geralmente lotados de investidores e corretores da Bolsa, estão às moscas e relatam queda de até 50% na freqüência.
“Você pode sentir o nervosismo no ar”, afirmou Angelo Vavouliotis, 34, gerente do popular restaurante Bull Run, na esquina das ruas Williams e Pine. Vavouliotis estima que a quantidade de clientes para o almoço, em queda gradativa desde o início da crise, chegou a, no máximo, metade do normal para esta época do ano.
E não é só. “Os clientes estão gastando menos. Quem pedia filé [US$ 35] agora só quer hambúrguer [US$ 15]“.
Desde o ano passado, a casa reduziu o número de funcionários em 10% a 15%. “Não quero dispensar mais gente, mas vamos ver como será o inverno.”
O temor é de uma reação em cadeia: estimativas estaduais dão conta de que cada emprego em Wall Street cria três outros na região metropolitana de Nova York. Só neste ano, Wall Street cortou 25 mil postos de trabalho; outros 10 mil estão na berlinda com o colapso do Lehman Brothers e a venda apressada do Merrill Lynch.
Um dos que pode estar a perigo é o garçom brasileiro Ulisses Vieira, 43, há três anos nos EUA e cerca de dois no Bull Run. Ele conta ter atendido vários clientes do mercado financeiro demitidos nos últimos dias: “Chegam carregando caixas com o material do escritório e ficam bebendo até a hora de fechar. Muitos choram. Está assim em todo lugar.”
A ordem de seu atendimento também mudou: agora, antes de comer, executivos vão direto para a TV.
Na elegante filial do restaurante Cipriani em Wall Street, o clima era o mesmo. Às 15h, havia só dois clientes. O gerente, Adil Avunduk, 29, crê que “as pessoas estão trabalhando freneticamente e não param para comer”. O restaurante, que costumava receber cerca de 70 pessoas por dia para o almoço -70% executivos da área financeira-, atende hoje apenas 40.
Mesmo no Mangia, uma casa menos sofisticada quase em frente à Bolsa de Valores de Nova York, os efeitos da turbulência foram sentidos. Além do almoço mais vazio, o serviço de buffet particular registra queda ainda mais acentuada, com as empresas cortando o número de coquetéis organizados, segundo a gerência.
Parece que, em Wall Street, não há motivo para celebrar.
Ladrão furta carro e, após achar criança no banco, chama polícia
São Paulo, quinta-feira, 18 de setembro de 2008 
Ladrão furta carro e, após achar criança no banco, chama polícia
No telefonema, o criminoso informou os policiais onde havia deixado o veículo com o menino e ainda fez ameaças aos pais dele
Garoto de 5 anos foi deixado dormindo no carro pela mãe e pelo padrasto, que estavam em bar; caso ocorreu em Passo Fundo (RS)
MATHEUS PICHONELLI
DA AGÊNCIA FOLHA
Ao notar que um menino de cinco anos dormia no banco do carro que acabara de furtar, em Passo Fundo (310 km de Porto Alegre), um ladrão abandonou o veículo e ligou para a polícia para reclamar do pai da criança.
No telefonema ao plantão da Brigada Militar (a PM gaúcha), na madrugada de ontem, o criminoso deixou recado ao dono do carro, um Monza 1983: “Fala pro filha da puta do pai dele pegar ele [sic] e levar pra casa o piázinho [menino]. (…) E diz pro filho da puta do pai dele que a próxima vez que eu pegar aquele auto [carro] e tiver um piá lá eu vou matar ele”.
O ladrão ainda ouviu um “ok” do soldado de plantão antes de fornecer a localização do carro. O homem não havia sido localizado até a noite de ontem.
“É por isso que não se pode perder a esperança na humanidade”, disse a delegada Claudia Crusius, que investiga o furto. Ela disse que não vai pedir a prisão do ladrão porque ele agiu com “bom senso”.
Segundo Crusius, a ligação foi feita cerca de 15 minutos após o Monza ser levado de onde estava estacionado, em frente a um bar e restaurante no centro da cidade. A mãe e o padrasto do menino estavam no local e só souberam do caso quando carro e criança já haviam sido encontrados.
O menino ainda dormia no banco traseiro quando os soldados chegaram à rua do bairro Vila Operária em que o carro fora deixado. A mãe tem 22 anos, e o padrasto, 46. A Brigada Militar, a Polícia Civil e o Conselho Tutelar não informaram seus nomes.
Responsabilidade
O caso também será investigado pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente de Passo Fundo. Segundo o delegado Mário Pezzi, a mãe e o padrasto podem ser indiciados por suspeita de abandono de incapaz -quando o responsável abandona pessoas consideradas incapazes de se defender. A pena prevista vai de seis meses a três anos de prisão.
O inquérito, disse Pezzi, deve ser concluído em dez dias. “Existem fortes indícios de que houve abandono, mas queremos ouvir as testemunhas.”
Ao Conselho Tutelar a mãe relatou ter ficado pouco tempo no bar e que havia descido do carro só para “entregar uns papéis”. Disse que pararam no local após voltarem de uma festa.
Segundo a conselheira Carla Vargas, a mãe afirmou ainda ter deixado os vidros do carro abertos para que o menino respirasse. Ela foi advertida e terá de freqüentar terapia familiar, enquanto a criança passará por atendimento psicológico.
“Pelo que soubemos, a criança só acordou ao final de tudo, continuou dormindo depois que o carro foi furtado. Mas a mãe disse que o garoto está tranqüilo e nem chorou.”
Vargas informou que o pai do menino vive em outra cidade, mas disse não saber qual é.
“A mãe está muito assustada. Ela foi negligente. Os pais nunca podem pensar que o pior não vai acontecer com eles. A criança correu riscos.”
Após o episódio, foi constatado que o carro não tinha documentos. O veículo teve que ser removido a guincho do local.
Engraxate em NY – testemunha do colapso
São Paulo, domingo, 21 de setembro de 2008 
Testemunha do colapso
Engraxate brasileiro que trabalha em Manhattan compara clima da última semana ao 11 de Setembro
Carioca de 29 anos, que inspirou romance best-seller nos EUA, viu demanda por seu trabalho cair na última semana
DANIEL BERGAMASCO
DE NOVA YORK
Os funcionários do setor de hipotecas do banco em que trabalha o engraxate carioca Murilo dos Santos, em Manhattan, usam camisas Armani e sapatos Salvatore Ferragamo, mas por vezes soam como se estivessem em um jogo do New York Giants, berrando entre si, ao telefone e em frente à TV de plasma que transmite o noticiário econômico na CNBC.
Na última segunda-feira, quando o pedido de concordata do Lehman Brothers estremeceu o setor financeiro, o local parecia um cemitério.
“Clima ruim assim só vi no 11 de Setembro [de 2001]. As pessoas ficam com medo de perder empregos. Disseram-me para ficar de olho na situação da [seguradora] AIG, porque, se quebrasse, muita gente seria demitida ali e eu não teria muitos sapatos para engraxar”, diz Santos, 29 anos, no ofício desde os 17, inspirador do romance “Confissões de um Engraxate de Wall Street”, best-seller nos EUA há um ano, lançado no Brasil neste fim de semana pela editora Rocco.
Quando concedeu as entrevistas que foram base para o livro de Doug Stumpf, que é editor-adjunto da revista americana “Vanity Fair”, Santos havia trabalhado de fato na região de Wall Street, ao sul de Manhattan. Hoje, ele ocupa um canto cativo no andar especializado em crise imobiliária de um dos maiores bancos do mundo, na região de Midtown, cujo nome ele pede que não seja citado.
Na trama, um engraxate fictício, mas baseado em suas histórias, ajuda repórter a desvendar crime financeiro a partir do que ouve dos clientes. A história foi comprada pela Warner Brothers e deve virar filme.
Aos pés da crise
Até que suas façanhas estréiem em Hollywood, Santos continuará a engraxar -atualmente, durante sete horas por dia, bem menos do que as 13 de anos atrás. Cobra US$ 4 por par, mas há gortejeteiros generosos que lhe pagam US$ 8, US$ 12, até US$ 20 “quando o mercado está muito bom”. Eles seguem de meias pelo carpete do banco e os entregam seus calçados -Gucci é a marca mais usada. “As mulheres têm mais chulé, porque não usam meia”, observa ele, que lustra em média 30 pares por dia.
Na fatídica segunda-feira, a demanda foi de apenas quatro pares. “Eles haviam chegado lá às quatro da manhã para acompanhar os mercados asiáticos e ninguém estava ligando para a graxa.” O medo era a repetição em massa do ritual “fúnebre” que tem sido comum por lá desde o estouro da bolha de crédito imobiliário, há cerca de um ano.
O telefone toca e, se for do Departamento de Recursos Humanos, a “vítima” deve subir imediatamente. Se não o faz, aparecem dois seguranças para escoltá-la até lá, mas nesse caso o empregado sai sem nem poder juntar seus pertences com calma. Deve pedir a amigos para encaixotarem tudo e mandarem o material para sua casa.
A segurança inclui câmeras e detector de metais. “Nesses prédios, é tudo com o FBI. A polícia de Nova York nem entra”, diz, citando um faxineiro demitido por roubar moedas.
A Folha acompanhou Murilo até o banco, antes do estouro da crise. Brincalhão, mas muito educado, ele aparentava ser querido por todos, que lhe perguntam sobre as vendas do livro (cerca de 40 mil) e sobre em que estágio está o projeto do filme (em roteiro).
Um funcionário graduado do banco se aproxima para cochichar. Enquanto não é pego pelos cortes, ele agiliza em sigilo um negócio próprio, de importação de bebidas. Murilo é seu confidente. Como vai a muitos restaurantes e bares com o editor da “Vanity Fair”, dá ao colega dicas sobre o circuito.
Fofoca no Queens
Santos mora no Queens, região de Nova York com grande concentração de brasileiros (muitos deles engraxates, aliás), lugar do qual diz gostar, “apesar de ter muita fofoca”. “Se saio com uma menina, no outro dia todo mundo está sabendo.”
Ele divide a casa com a irmã, que é cabeleireira e se recupera atualmente do segundo atropelamento em poucos anos. Ele também já sofreu acidentes nos EUA, o último quando destruiu um Volvo conversível que comprou com os direitos do livro (a divisão entre ele e Doug é de 50% para cada um).
Sua mãe também vive em Nova York. Seu pai mora no Rio de Janeiro. Ele não visita o Brasil faz 12 anos. Diz que sente saudades.
Flamenguista fanático, vê os jogos do time pela Globo Internacional. No começo da década, tinha que se contentar com reprises das partidas disponíveis em locadoras de vídeo, onde também alugava capítulos da novela “Uga Uga”. Não se interessa em investir na Bolsa e sonha em concluir o ensino médio para estudar hotelaria.
Funcionários do Lehman retiram pertences do banco e atraem turistas
São Paulo, terça-feira, 16 de setembro de 2008 

Funcionários do Lehman retiram pertences do banco e atraem turistas
DANIEL BERGAMASCO
DE NOVA YORK
Na esquina da Sétima Avenida com a rua 49, em Manhattan, funcionários do banco Lehman Brothers já circulavam ontem carregando seus pertences em caixas, mochilas e malas.
A perda do emprego ainda não havia sido confirmada oficialmente, mas a principal pergunta dos 26 mil funcionários do banco no mundo era: “Qual é seu plano B?”
“Como em toda falência, tem gente lá dentro nervosa, chorando ou fazendo piada da situação. A maioria está pendurada ao telefone consultando seus contatos”, disse à Folha uma funcionária.
As câmeras atraíam turistas curiosos ao banco, que fica próximo aos teatros da Broadway. A polícia teve de instalar grades para organizar o fluxo da calçada.
No escritório de Londres, funcionários precisaram ser escoltados, tamanha a confusão. “Os gerentes disseram para esvaziarmos gavetas e irmos para casa”, diz um operador do mercado financeiro, que pediu anonimato.
“Chegamos ao banco achando que tínhamos sido comprados por alguém, mas agora temos que esperar orientações de superiores. Só espero que pelo menos paguem o salário deste mês.”
Há outro prejuízo: os empregados têm cerca de um terço das ações da empresa.
Em um cenário pessimista, 30 mil empregos podem ser perdidos no mercado financeiro de Manhattan pela quebra do banco, previu ontem o governador do Estado de Nova York, David Patterson. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, cancelou viagem para monitorar a crise. Segundo seus assessores, passou o final de semana trocando telefonemas com executivos de banco para tomar medida do impacto que a crise pode ter na economia local.








