Blog de Christy Ganzert Pato

Diálogos em terra arrasada

Arquivo paraDados da Dinâmica Financeira

BC aplicou 75% das reservas internacionais em títulos dos EUA

21/10/200821h29
BC aplicou 75% das reservas internacionais em títulos dos EUA
EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília

O Banco Central possui hoje US$ 152,8 bilhões das reservas internacionais aplicadas em títulos do governo dos EUA. Isso representa cerca de 75% das reservas totais, que estão em cerca de US$ 205 bilhões.

Segundo o presidente do BC, Henrique Meirelles, outros US$ 24,7 bilhões estão aplicados em entidades supranacionais, sendo a principal delas do BIS (o banco central dos bancos centrais). Há ainda US$ 9,3 bilhões em agências governamentais, entre elas o KFW (banco alemão de investimento).

Meirelles afirmou que as aplicações das reservas acompanham o perfil da dívida do Brasil. Por isso, a maior parte está aplicada em dólares.

Há ainda US$ 16 bilhões aplicados em euros, a maior parte em títulos dos governos europeus (US$ 13,6 bilhões), US$ 894 milhões em ouro. O restante é utilizado em aplicações de overnight (por um dia), para dar liquidez às reservas.

Durante audiência na Câmara dos Deputados para falar sobre a crise externa, Meirelles afirmou também que 0,5% das reservas são geridas por instituições independentes, entre elas o BIS e os bancos Barclays e JP Morgan. O restante é administrado pelo próprio BC.

Mais cedo, Meirelles afirmou que o BC já utilizou cerca de US$ 23 bilhões em diversos instrumentos para intervir no câmbio devido à disparada recente do dólar. Desse total, foram gastos US$ 3,2 bilhões das reservas.

Além disso, o BC emprestou mais US$ 3,7 bilhões em leilões de dólares de linhas externas e outro US$ 1,6 bilhão no primeiro leilão de moeda direcionado ao comércio exterior, realizado ontem. O BC também utilizou US$ 14,3 bilhões em contratos de câmbio.

EUA vai apertar regras para derivativos

São Paulo, segunda-feira, 20 de outubro de 2008

País vai apertar regras para derivativos

Um dos pivôs da crise, mercado atingiu a cifra de US$ 596 trilhões em 2007, mais de dez vezes o PIB mundial

FERNANDO RODRIGUES
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK

O Congresso dos EUA se prepara para adotar medidas regulatórias para o mercado de derivativos, considerado o maior responsável pela atual derrocada do sistema financeiro nos países desenvolvidos. Nas últimas semanas, mesmo em recesso branco por causa do processo eleitoral em curso no país, congressistas tiveram algumas sessões em comissões para discutir o assunto.
O diretor-executivo da ISDA (Associação Internacional de Trocas e Derivativos, na sigla em inglês), Robert Pickel, foi ouvido em Washington na última terça-feira para explicar como funciona o seu mercado. “Há um desejo de fazer mais regras, sobretudo no que diz respeito a haver estatísticas mais agregadas sobre derivativos. Hoje, existem esses dados, mas estão espalhados de diversas formas”, disse ele em entrevista à Folha no escritório central da entidade, em Nova York.
Na realidade, é mais do que isso. Ninguém conhece o valor exato de derivativos voando pelo mercado. Até porque, na imensa maioria dos casos, trata-se de um contrato privado entre duas partes. Um exemplo sobre como há controvérsia são as estatísticas divulgadas pela ISDA e pelo BIS (Banco para Compensações Internacionais), organização internacional que centraliza dados financeiros mundiais para todos os bancos centrais.
Nas tabelas do ISDA, o valor de contratos derivativos em dezembro do ano passado era de US$ 454,5 trilhões. Já nas estatísticas do BIS, o valor era de US$ 596 trilhões. A assessoria da ISDA afirma que há duas razões para a diferença.
A primeira é que a coleta de dados é realizada de maneira distinta. O BIS recebe os números dos órgãos oficiais dos países. Já a ISDA obtém as informações de seus associados, os que emitem os derivativos. A outra origem da discrepância é o fato de o BIS ter condições de incluir em sua estatística um universo maior de títulos.
Há dois anos, o total de derivativos divulgado pelo BIS era de US$ 297,7 trilhões. Os US$ 596 trilhões de dezembro passado demonstram que o valor duplicou em apenas 24 meses.
Nas recentes audiências no Congresso dos EUA, o ponto sempre ressaltado foi a falta de transparência nesse mercado. Como explica o representante do setor, a dificuldade é encontrar uma fórmula para aumentar a transparência e não destruir um dos pilares do negócio: o segredo das operações.
“Haverá um problema a ser resolvido, pois muitas vezes os que fazem esses contratos não querem dar publicidade por se tratar de um instrumento particular de proteção. Se o concorrente sabe o tipo de contrato, é ruim para quem está querendo se proteger”, afirma Pickel, diretor da ISDA.
As novas regras, se vierem mesmo, terão de ser aprovadas pelo Congresso. O mais provável é que isso só aconteça em meados do ano que vem.
Se poucas pessoas entendem como funciona o mercado de ações, muito menos investidores comuns têm idéia do que se trata o derivativo. A explicação mais simples é que são contratos realizados por empresas, financeiras ou não, que desejam comprar uma proteção para seus investimentos ou rendimentos futuros.
O total altíssimo de derivativos tem uma razão: os números “derivam” dos contratos que estão sendo protegidos. Por exemplo, de um contrato de exportação de automóveis podem derivar vários outros instrumentos de proteção: um derivativo para garantir que o câmbio não será muito alto; outro para o caso de queda; um terceiro para proteção contra um calote. E assim vai.
Na estatística geral do setor, entretanto, cada vez que um derivativo nasce, o valor lançado é o total do contrato que está sendo protegido. Daí a cifra geral parecer irreal. Há até um jargão no mercado para os US$ 596 trilhões de derivativos no mundo. Esse é o valor “nocional de referência”, ou seja, é apenas uma noção.
Não poderia ser de outra forma, pois os US$ 596 trilhões nem sequer existem. O valor total dos ativos financeiros no mundo, segundo o McKinsey Global Institute, é de US$ 167 trilhões. Ou seja, todos os depósitos bancários, as ações e os títulos somados são menos de um terço dos derivativos.
Outra comparação é com o tamanho dos países. O PIB (soma de todas as riquezas produzidas) dos EUA é de US$ 13,8 trilhões. O PIB mundial é de US$ 54,3 trilhões. A indústria de derivativos conseguiu fazer contratos que equivalem a mais de dez PIBs do planeta Terra.
A realidade de um derivativo só se consubstancia em catástrofes ou momentos de pânico, com várias instituições em cadeia sofrendo prejuízos e cobrando o que está escrito nos contratos de proteção. Mas ninguém mais está protegido. Esta é a situação atual.
Outra forma de entender o funcionamento dos derivativos é observar o valor bruto de mercado desses papéis. Segundo o BIS, em dezembro de 2007, ele era de US$ 14,5 trilhões -ou seja, um pouco mais do que o PIB dos EUA.
Esse valor bruto é de fato o quanto cada parte espera pagar ou receber por um derivativo. Por exemplo, uma empresa exportadora faz um derivativo sobre uma venda de US$ 10 milhões estimando que a taxa de câmbio fique em, no máximo, R$ 2 por dólar. Ou seja, receberá pelo seu produto R$ 20 milhões. Se o dólar disparar, a diferença acima da cotação de R$ 2 será debitada da empresa que apostou nesse valor.
Na crise dos EUA, os títulos mais problemáticos foram os derivativos de crédito, ou CDS (credit default swaps). Como o mercado imobiliário ficou aquecido durante vários anos, as instituições bancárias baixaram os padrões de concessão de financiamentos para a compra de imóveis. Esses empréstimos sem as devidas garantias são chamados “subprime”.
As carteiras dos bancos com “subprime” eram em seguida atreladas a CDS, os derivativos de crédito. A instituição financeira empacotava esses títulos e os repassava para outros bancos interessados em comprar o risco. A cadeia era retroalimentada pelo próprio sistema, pois um CDS poderia ir passando de banco em banco, indefinidamente, com um novo derivativo nascendo a cada operação.
Um exemplo de como o mercado se descontrolou nesta década está na explosão do valor “nocional” dos CDS. Em 2003, o ano começou com US$ 2,2 trilhões. Em junho passado, a cifra já estava em US$ 54,6 trilhões. Agora, a bolha estourou.

Bolsas mundiais perdem US$ 10 tri no ano, diz estudo

Bolsas mundiais perdem US$ 10 tri no ano, diz estudo

ÁLVARO FAGUNDES
DA REDAÇÃO

As principais Bolsas mundiais perderam US$ 4 trilhões no mês passado (ou três PIBs brasileiros) no mês passado, um dos mais turbulentos na história recente dos mercados financeiros. No ano, as empresas negociadas em Bolsa já perderam US$ 10,4 trilhões do seu valor de mercado, que é praticamente a soma das economias de Japão, Alemanha e China (segunda, terceira e quarta maiores do mundo, respectivamente) e 75% da dos EUA.
Apesar de o centro das preocupações ser os Estados Unidos, o impacto nos mercados globais foi muito maior que no americano, que foi um dos menos caíram no mês. Enquanto a Bolsa americana registrou queda de 9,13%, a média mundial foi de recuo de 11,97%, segundo levantamento mensal da Standard & Poor’s com 52 mercados. Ainda assim, quase US$ 1,5 trilhão foi varrido das Bolsas americanas em setembro.
Já os mercados emergentes, liderados por Brasil e Rússia, tiveram o seu pior mês em mais de dez anos -e o quinto mês consecutivo de desvalorização.
Em setembro, as companhias negociadas nas Bolsas desses países tiveram queda de 18,52% no seu valor de mercado, com Rússia (23,97%) e Brasil (23,35%) registrando os maiores recuos. Todos os 26 mercados emergentes tiveram um mês negativo e 20 deles registram queda de mais de 10%.
No Brasil, as empresas tiveram queda de mais de US$ 240 milhões em seu valor de mercado em setembro. E os mercados do país -que até agosto eram um dos poucos em alta no acumulado do ano- agora registram queda de 21,67% no ano.
De acordo com a Standard & Poor’s, parte da queda se deve à redução na estimativas de crescimento dos países emergentes, que no início do ano dizia-se que poderiam se descolar das principais economias mundiais. No caso americano, desde a segunda metade do ano passado -quando teve início a crise-, a desaceleração já era esperada pelos investidores.

Perdas atingem US$ 1,4 tri no sistema financeiro, afirma FMI

São Paulo, quarta-feira, 08 de outubro de 2008

Perdas atingem US$ 1,4 tri no sistema financeiro, afirma FMI

DO ENVIADO A WASHINGTON

As perdas mundiais do sistema financeiro relacionadas à crise nos EUA já atingiram US$ 1,4 trilhão, devem aumentar ainda mais e obrigarão os bancos a levantar pelo menos US$ 675 bilhões em capital adicional nos próximos cinco anos para voltarem ao equilíbrio.
Só nos últimos seis meses, segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), as perdas bancárias aumentaram US$ 455 bilhões. O valor não leva em conta novas informações, desta semana, de problemas no sistema bancário europeu.
Além da necessidade de levantar capital adicional, os bancos poderão ser obrigados a se desfazer de até US$ 1 trilhão em ativos (participações em empresas, ações etc.) para voltar a ter as contas em ordem.
Os dados sugerem que, diante das perdas bancárias, da necessidade de novos capitais e do alto endividamento das famílias em vários países avançados, uma recessão global agora poderá ter impactos profundos.
O forte crescimento dos últimos cinco anos foi movido a crédito. E os EUA saíram da breve recessão de 2000 com aumento na oferta de financiamentos. Essa tendência, que elevou o endividamento das famílias no país a 130% do PIB, não só terminou como trouxe ruptura ao sistema de crédito.
“O sistema financeiro vem atravessando um período de turbulência sem precedentes. Apesar de muitos bancos já terem reconhecido prejuízos relacionados aos financiamentos “subprime” [de segunda linha], há muitas perdas potenciais que podem trazer mais prejuízos aos balanços”, diz Jaime Caruana, diretor do departamento de Assuntos Monetários e Mercados de Capitais do FMI.
Segundo o “Relatório sobre a Estabilidade Financeira Global”, do FMI, o “processo de desalavancagem (diminuição do endividamento) dos bancos cobrará um preço elevado no campo da oferta de crédito para o setor privado”.
O relatório do FMI aponta que os bancos privados conseguiram levantar sozinhos cerca de US$ 430 bilhões em novos recursos entre meados de 2007 e setembro passado. Mas diz que as condições do mercado se deterioram rapidamente, tornando muito difícil agir sem a ajuda dos bancos centrais e dos Tesouros dos países afetados.
O funcionário do Fundo afirmou que EUA e Europa precisam encontrar uma “maneira coordenada e conjunta” de enfrentar a atual crise .
Segundo o FMI, do US$ 1,4 trilhão em perdas computadas até agora, 40% referem-se a bancos na Europa. (FCZ)

Investimentos no mundo devem cair 10%

São Paulo, quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Investimentos no mundo devem cair 10%

Crise financeira colocará fim a um ciclo de quatro anos consecutivos de expansão, segundo previsão da ONU

MARCELO NINIO
DE GENEBRA

A crise financeira vai reduzir o investimento no mundo em pelo menos 10%, prevê a ONU (Organização das Nações Unidas), que não exclui o Brasil e outros emergentes do declínio. Depois de atingir o nível recorde de US$ 1,8 trilhão em 2007, o IED (investimento estrangeiro direto) no mundo terá quedas em 2008 e 2009, pondo fim a um ciclo de quatro anos seguidos de crescimento.
A projeção é da Unctad (Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento), que ontem lançou seu relatório anual sobre investimentos. No ano passado, os investimentos tiveram crescimento de 30% em relação a 2006, atingindo a marca de US$1,83 trilhão.
De acordo com o estudo, o IED no Brasil em 2007 totalizou US$ 34,6 bilhões, um crescimento de 84% em relação a 2006. Com isso, o país passou a ser o 14º maior receptor de investimentos, subindo cinco posições no ranking mundial.
Entre os emergentes, o Brasil passou Cingapura e ganhou uma posição, sendo o quarto país que mais recebeu investimentos em 2007, atrás apenas de China, Hong Kong e Rússia.
O Brasil também se tornou o destino preferido entre os latino-americanos, passando o México. A previsão do relatório, feito antes do agravamento da crise financeira da semana passada, era que os investimentos no Brasil continuassem crescendo em 2008.
Mas o quadro mudou para todos, admite a Unctad. Na apresentação do relatório, o secretário-geral da entidade, Supachai Panitchpakdi, disse que o volume de IED em 2008 e 2009 será afetado pelas turbulências e que deve cair 10%. “Com a queda no comércio, o declínio poderá ser ainda maior, inclusive entre os emergentes”. afirma.
Anne Miroux, chefe da equipe de economistas que preparou o estudo, disse que o agravamento da crise os pegou de surpresa e que ficou muito difícil fazer projeções. Mas confirmou que o Brasil, na melhor das hipóteses, manterá em 2008 o mesmo volume do ano passado.
Já a imagem do Brasil melhorou. Uma pesquisa com 226 empresas do mundo inteiro, que faz parte do relatório, coloca o Brasil como o quinto destino preferido para investimentos. Numa enquete realizada entre abril e junho deste ano, 22% dos empresários apontaram o país entre suas preferências, 10% a mais que em 2006.
De acordo com a Unctad, o nível de investimentos no mundo está em queda devido a uma acentuada redução nas fusões e aquisições, o principal motor do IED. Enquanto o investimento no Brasil em 2007 teve alta acentuada, o fluxo inverso também teve queda significativa: de US$ 28 bilhões para US$ 7 bilhões. O motivo é que em 2006 o IED do Brasil no exterior havia sido catapultado pela compra da mineradora canadense Inco. Ainda assim, as empresas brasileiras investem no exterior três vezes mais que a média de 2000 a 2005, que foi de US$ 2,5 bilhões.

No futuro, Wall Street terá papel menor

São Paulo, quarta-feira, 17 de setembro de 2008

No futuro, Wall Street terá papel menor

Analistas e banqueiros vêem fim de “superbolha” de crédito que durou 30 anos e da “era dourada” do setor financeiro

Crise atual deve reduzir número de bancos de investimento, que precisarão de base maior de capital para operar

LOUISE STORY
EDMUND L. ANDREWS
DO “NEW YORK TIMES”

A velha Wall Street está abrindo caminho a uma nova.
Enquanto reacomodações tectônicas no setor financeiro americano abalam os mercados mundiais, muitos especialistas prevêem que os eventos das 72 horas anteriores prenunciavam um período de dolorosas mudanças em Wall Street.
As previsões são desanimadoras. Os bancos de investimento serão menores. Seus lucros, mais magros. Os empregos no setor financeiro escassearão. E a dimensão desproporcional que Wall Street veio a assumir na economia do país encolherá.
Esse é o caso extremo. Mas enquanto os investidores tentavam compreender a queda abrupta de duas das mais poderosas empresas de Wall Street -o Lehman Brothers, que entrou em colapso, e o Merrill Lynch, que correu a fechar um acordo de fusão com o Bank of America-, até mesmo os otimistas diziam que o futuro imediato seria difícil. Henry Paulson, o secretário do Tesouro, e o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) estão preparando o terreno para que os poucos sobreviventes vigorosos liderem a recuperação do setor, mas permitirão que as empresas mais fracas desabem ou sejam engolidas por rivais. “Tivemos uma era dourada para os serviços financeiros e bancários”, disse Kenneth Lewis, presidente-executivo do Bank of America. “As coisas serão mais difíceis agora. Haverá menos empresas, e teremos de ser melhores no que fazemos”.
Há um debate acalorado sobre o que o futuro reserva a Wall Street agora que apenas dois dos grandes bancos de investimento dos EUA, Goldman Sachs e Morgan Stanley, se mantêm independentes. Embora Wall Street já tenha passado por momentos difíceis no passado e saído deles ainda maior e mais forte, há quem questione a capacidade do setor para se recuperar rapidamente, depois de utilizar altos níveis de alavancagem, ou dinheiro emprestado, para apostar de maneira exagerada em investimentos de risco. Esses investimentos se provaram desastrosos. Em todo o mundo, companhias do setor financeiro reportam mais de US$ 500 bilhões em provisões para perdas e prejuízos associados à crise de crédito, e alguns especialistas acreditam que esse total possa passar de US$ 1 trilhão.
Decisões equivocadas no mercado de hipotecas custaram à Merrill Lynch, corretora cujo nome é sinônimo de Wall Street para muitas pessoas comuns, mais de US$ 45 bilhões em prejuízo no ano passado. A venda do grupo pode representar mais um passo na direção de uma consolidação mais ampla.
“Em nosso negócio, estamos todos condicionados a ciclos e crises, e também estamos condicionados a recuperações relativamente rápidas dos mercados, porque a crise pode ser identificada e mensurada”, disse Donald Marron, presidente-executivo do Lightyear Capital.
“O que é diferente desta vez é que não se pode fazer qualquer das duas coisas.”
A união entre o Bank of America e o Merrill Lynch em certo sentido representa um recuo ao passado. Durante a Depressão, o Congresso separou os bancos comerciais, que aceitam depósitos e fazem empréstimos, dos bancos de investimento, que subscrevem emissões e negociam títulos.
Os bancos de investimento tinham autorização para operar com menos fiscalização, enquanto os bancos comerciais eram mais acompanhados pelas autoridades.
Mas, depois que o Congresso revogou as leis da era da Depressão, em 1999, bancos comerciais começaram a invadir o território de Wall Street. E à medida que os novos concorrentes geravam uma redução nas margens de lucros, os bancos de investimento começaram a usar mais de seu capital para negociar títulos, e a desenvolver mais derivativos financeiros para reforçar os lucros.
Agora, executivos como John Thain, presidente-executivo do Merrill Lynch e ex-executivo do Goldman Sachs, dizem que os bancos de investimento precisarão de bases de depósitos vultosas a fim de escorar seu capital em momentos de crise.
“No futuro, o tamanho importará mais e mais”, disse Thain.
Paulson disse a executivos de Wall Street que não está satisfeito com a redução no número de bancos de investimento, ainda que a empresa que ele presidia, o Goldman Sachs, seja um dos dois grandes que podem se beneficiar da reacomodação no setor. Paulson afirmou que uma maior consolidação em Wall Street poderia elevar o grau de risco no sistema financeiro, porque os riscos estarão concentrados em um número menor de empresas. Mas funcionários do Tesouro crêem que esse risco ainda assim represente o mal menor, caso a alternativa seja intervir para impedir o colapso de empresas em crise.
Enquanto isso, o Federal Reserve vem expandindo seus canais extra-oficiais de financiamento para aquilo que, esperam seus dirigentes, seja uma reacomodação ordeira de Wall Street. Mas o Fed e, em última análise, os contribuintes poderiam arcar com o custo.
O que parece estar claro para quase todos em Wall Street é que a era de lucros operacionais imensos e de transações bancadas por endividamento elevado dos bancos é coisa do passado, ao menos por ora. Isso vai restringir os lucros de todo o setor por algum tempo. No exato momento em que os americanos encontram dificuldades para reformar suas casas ou comprar um carro novo, os maiores protagonistas do mercado de Wall Street se vêem forçados a conter as somas que captam de empréstimo.
Wall Street sempre usou dinheiro alheio para reforçar seus lucros, mas nos últimos anos o uso de dinheiro emprestado cresceu de maneira explosiva. Os instrumentos do mercado de crédito do setor financeiro cresceram em mais de 150% nos últimos dez anos e atingiram o total de US$ 15 trilhões no ano passado, de acordo com a Economy.com, do grupo Moody’s, crescendo a um ritmo duas vezes mais forte que o da economia mais ampla.
Em seu pico, no ano passado, os bancos de investimento tomaram de empréstimo em média US$ 32 para cada dólar que detinham em ativos, de acordo com pesquisas da Ladenburg Thalmann. Os empréstimos ajudaram o setor a registrar lucros recordes, contratar mais pessoal e pagar bonificações espantosas. E reforçou as ações financeiras, fazendo delas o mais forte segmento no índice S&P 500 de 2001 até o segundo trimestre deste ano.
“Trata-se de uma bolha nos serviços financeiros que se provou bastante semelhante a todas as demais bolhas”, disse Olivier Sarkozy, diretor de investimento em serviços financeiros do Carlyle Group, uma empresa de capital privado.
As empresas de Wall Street já estão reduzindo seu nível de endividamento, e as autoridades regulatórias devem criar novas regras quanto a endividamento, liquidez e níveis de capitalização. As novas regras, caso sejam severas, podem forçar Goldman Sachs e Morgan Stanley a fusões com bancos que contem com uma base de depósitos, o que representa uma fonte firme de capital e uma proteção contra colapsos.
Os veteranos de Wall Street estão divididos quanto às dimensões dos problemas do setor. Alguns apontam que Wall Street tende a passar por uma desaceleração ou crise aberta a cada quatro ou cinco anos, e que em geral se recupera rapidamente. Mas outros argumentam que aquilo que está acontecendo agora marca o final de uma “superbolha” de crédito que durou 30 anos e afetou o setor financeiro tanto quanto aos consumidores.
Qualquer que venha a ser o caso, o setor financeiro parece conformado com a idéia de que os salários e os lucros serão mais baixos para todos. “Já que não podem tomar dinheiro emprestado, terão de promover cortes”, disse Peter Solomon, presidente do banco de investimento independente que porta seu nome. “E esses cortes envolverão demissões”.

Crise vai depurar os exageros da Bovespa

São Paulo, domingo, 21 de setembro de 2008

Crise vai depurar os exageros da Bovespa

Para especialistas em mercado de capitais, os 70 mil pontos atingidos pelo índice da Bolsa em maio foram excessivos

Grau de investimento do país, commodities e capital externo impulsionaram a Bolsa a níveis mais altos do que seria a trajetória normal

CRISTIANE BARBIERI
DA REPORTAGEM LOCAL

Depuração, arrumação, consolidação. As palavras dos economistas e especialistas em mercado de capitais variam um pouco, mas o sentimento geral é um só: a crise internacional servirá para corrigir a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo). Para muitos deles, os 70 mil pontos atingidos pelo Ibovespa, o índice que mede a evolução das ações mais negociadas, em maio, foram exagerados.
A opinião é que a Bolsa não tem tamanho nem empresas para tanta euforia e voltará a patamares mais realistas com a turbulência.
“Os 70 mil pontos eram uma bolha de liquidez internacional, na qual surfamos com a valorização dos emergentes”, diz Júlio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial). “Só que parte do crescimento foi puro lança-perfume: entorpece, mas não é efetivo.”
O motivo da alta é conhecido. Os ativos financeiros, como ações, debêntures, títulos públicos e depósitos bancários, ganharam uma proporção gigantesca no mundo e cada vez mais distante da economia real.
Segundo estudo do McKinsey Global Institute, os ativos financeiros globais, que nos anos 1980 somavam US$ 12 trilhões, saltaram para US$ 90 trilhões no início dos anos 2000 e chegaram a US$ 167 trilhões em 2006, ano com dados mais recentes disponíveis.
A economia real também cresceu, mas a proporção foi muito menor. O PIB (Produto Interno Bruto) mundial, que era de US$ 10 trilhões em 1980, dobrou na década seguinte e alcançou US$ 48,3 trilhões em 2006. Ou seja, o peso das ativos financeiros que equivalia ao PIB ganhou um peso 3,5 vezes superior em pouco mais de 20 anos.
O relatório do McKinsey alertava de que o peso financeiro carregava o risco de “correções dolorosas”. “O mercado às vezes tem o mesmo comportamento daquele artista plástico inglês [Damien Hirst] que diz que um porco empalhado vale 10 milhões de libras e o colecionador paga”, diz o economista Roberto Troster. “Parte do movimento de alta era artificial e, agora, há conseqüências.”

“Euforia soberana”
Segundo os especialistas, o excesso de caixa dos investidores estrangeiros voltou-se à Bovespa, que tem forte peso dos produtores de commodities e atraentes pela alta na demanda internacional. Houve ainda o crescimento doméstico e o grau de investimento, atingido em abril.
“Pode-se dizer que houve a euforia soberana”, afirma David Kupfer, coordenador do grupo de competitividade da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Ela levou o Ibovespa a níveis mais altos do que seria uma trajetória normal e, com a mudança de humor, o enxugamento de liquidez e a reestruturação das posições dos grandes investidores internacionais, houve uma forte pressão de baixa.”
Outro movimento que atraiu os investidores, segundo Kupfer, foi o fato de que as empresas, que tinham condições de aumentar a capacidade há anos, passaram a fazê-lo simultaneamente. Isso fez com que os analistas enxergassem um crescimento maior.
Neste momento, no entanto, a baixa também parece além da conta. “A maioria das empresas está sólida, solvente e com endividamento adequado”, afirma Troster.

“Quedas exageradas”
De acordo com Roberto Padovani, estrategista de investimentos do banco WestLB, as quedas são exageradas e há espaço para recuperação.
“É cedo para prognósticos, mas, se não houver risco sistêmico, os preços voltarão a se ajustar”, diz Padovani. “O investidor internacional não perdeu a confiança no mercado brasileiro, mas está com medo e busca portos seguros.”
Na expectativa de Padovani, porém, a recuperação da Bovespa não acontecerá num movimento de “V”, de súbita recuperação após a queda. Mesmo com a alta de 9,57% da Bolsa na sexta-feira e as oscilações que deverão continuar ocorrendo, os especialistas esperam que a tendência de baixa permaneça pelo menos até o fim do ano.

Longo cenário ruim
Há até quem veja o cenário difícil se estender por muito mais tempo. “A Bolsa só deverá dar retorno acima da Selic [taxa básica de juros] entre um ano e meio e dois anos”, diz Francisco Pessoa Faria, economista da LCA Consultores.
William Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), afirma que um dos motivos para a expectativa da retomada é que a demanda por commodities continua em alta, o que poderá sustentar a economia e a Bolsa brasileira por muito tempo.
“A Bolsa estava no caminho de se tornar uma fonte importante de financiamento das empresas”, diz Eid. “Ela deu esse refluxo, mas vai voltar.”
Para Almeida, do Iedi, a crise poderá servir para tornar a Bovespa menos dependente dos estrangeiros. “Um país emergente não deve depender tanto de recursos externos porque a elasticidade é muito alta, tanto para cima como para baixo”, diz Almeida. “Temos de incentivar o desenvolvimento do mercado de capitais com poupança interna.”
Entre as alternativas, estaria o incentivo à poupança institucional, regulamentando os investimentos da previdência dos servidores públicos e ampliando os incentivos à previdência privada. “O governo também poderia aumentar sua própria poupança, investindo no mercado de capitais”, diz Almeida.