Blog de Christy Ganzert Pato
Diálogos em terra arrasadaArquivo paraII Guerra Mundial
Japão usou arma bacteriológica, admite tribunal
| O Estado de São Paulo
Quarta-feira, 28 de agosto de 2002 Japão usou arma bacteriológica, admite tribunal
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TÓQUIO – Um tribunal de Tóquio admitiu ontem pela primeira vez que o Exército Imperial japonês usou armas bacteriológicas na China durante a 2.ª Guerra Mundial, mas rejeitou o pedido de indenização de um grupo de 180 chineses, que também exigia uma desculpa oficial do Japão.
Segundo fontes da Justiça de Tóquio, é a primeira vez que um tribunal japonês reconhece os testes realizados com germes pela Unidade 731 e outras divisões de armas bacteriológicas do Exército Imperial entre 1937 e 1945. O processo foi aberto inicialmente em 1997 vítimas e parentes de pessoas mortas nos ataques com armas biológicas. É exigida uma indenização de aproximadamente US$ 83 mil por pessoa. Os advogados do grupo apresentarão recurso.
Segundo os reclamantes, o Exército japonês usou pulgas infectadas com peste bubônica e comida preparada com a bactéria do cólera nas províncias de Zhejiang e Hunan, causando a morte de milhares de civis. Centenas de prisioneiros foram vivisseccionados e milhares usados em experiências com armas bacteriológicas pela Unidade 731. E aviões japoneses expuseram prisioneiros a germes para analisar a reação.
Segundo dados obtidos recentemente, foi o próprio imperador Hirohito, irritado e impaciente pelos “escassos progressos” na luta contra os chineses, que autorizou seu Exército a utilizar “todos os meios, incluindo armas químicas e bacteriológicas”.
O juiz do tribunal distrital de Tóquio, Koji Iwata, afirmou que a evidência apresentada pela defesa mostra que o uso de germes como arma pelo Exército Imperial na China “causou a morte de muitos civis”. Mas ele argumentou que, de acordo com as leis internacionais, cidadãos que não sejam japoneses não têm o direito de pedir compensação diretamente ao governo do Japão. O governo diz que não tem obrigação de pagar indenizações por atos cometidos antes da aprovação da Lei Estatal de Compensação, que entrou em vigor após a guerra.
O direito internacional havia proibido antes do início da 2.ª Guerra o uso de armas químicas e bacteriológicas. Contudo, o Japão ignorou o direito internacional e levou adiante experiências contra os soldados de Mao Tsé-tung.
O historiador Hal Gold, autor de um estudo sobre a Unidade 731 publicado em 1996, descreve como alguns prisioneiros em idade avançada eram isolados e obrigados a vestir roupas com pulgas que, reproduzindo-se em massa, eram infectadas com germes e espalhadas entre a população.
A temida Unidade 731, com 2 mil homens, foi desmobilizada e suas instalações na cidade chinesa de Harbin foram destruídas após o fim da guerra. Segundo historiadores, seus membros receberam ordens de “levar para o túmulo os segredos” sobre as experiências de guerra. (France Presse, EFE e Ansa)
As escravas sexuais coreanas, durante a 2ª Guerra Mundial
São Paulo, quarta-feira, 29 de maio de 2002 
TURISTA OCIDENTAL
No centro de Seul, a 511ª manifestação semanal em frente à Embaixada do Japão
O BANQUINHO DAS EX-ESCRAVAS SEXUAIS
MÁRIO MAGALHÃES
ENVIADO ESPECIAL A SEUL
Vendo estas mulheres assim de perto, ao vivo, de carne e osso, custa-se a acreditar que tudo tenha se passado como se passou.
E tudo aconteceu exatamente como hoje se sabe. Depoimentos são centenas. Fotografias também existem. Organismos multilaterais, como a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, escarafuncharam até reconstituir as passagens mais sórdidas.
O vínculo supremo com o passado é a memória destas octogenárias e septuagenárias. O que para alguns parece remoto, para elas foi ontem. Quando muito, anteontem. Não cicatrizou.
É pontualmente meio-dia de quarta-feira no centro de Seul. O sol de verão incendeia a primavera na Coréia do Sul. Sentadas em banquinhos, dez mulheres se postam na calçada em frente à Embaixada do Japão.
Diante delas, uma tropa de policiais com idade para ser seus netos ou bisnetos as contempla expondo cassetetes de dimensões pornográficas e escudos. Começa a 511ª manifestação semanal das ex-escravas sexuais.
São sobreviventes. De 1932 a 1945, o Exército Imperial Japonês recrutou à força cerca de 200 mil mulheres para servirem sexualmente aos seus soldados e oficiais nos fronts de guerra asiáticos.
A maioria era de coreanas. Ficava mais fácil: em 1910, o Japão anexara a Coréia na marra. Sairia em 1945. Em 1992, contavam-se apenas 300 coreanas vivas. Hoje não são mais de 140.
Com as mulheres em silêncio, em seus banquinhos, integrantes de um movimento de apoio à punição de criminosos de guerra narram ao microfone coisas do passado. De mulheres que estão ali, que não estão, que morreram.
Chung Seo-woon foi arrastada para a Indonésia. Depois contaria não ter entendido o que um médico militar japonês fez ao lhe penetrar uma barra de ferro quente. Descobriu que fora uma das 3.000 esterilizadas em Jacarta. De segunda a sexta, suportava 50 militares por dia. Sábado e domingo, cem. Nunca pôde ter filhos.
Chong Ok-sun foi carregada aos 13 anos. Resistiu, desvirginaram-na com um cassetete. Viu outra coreana reclamar e ter a cabeça arrancada com uma espada. Uma escrava foi retalhada. Chong nunca mais teve intercurso. Por causa da dor e do trauma.
Cessam os discursos. Os cerca de 80 presentes, dos quais 16 freiras católicas, entoam cânticos. Palavras de ordem. Punhos cerrados. Levanta do banquinho a única ex-escrava a discursar hoje: Yoon Sun-man, 83. Recomeça, agora de costas para as companheiras e de frente para a embaixada, a reviver a sua saga.
Boa parte das mais de 100 mil coreanas foi sequestrada quando tinha de 14 a 18 anos. O Exército Imperial Japonês temia a proliferação de doenças venéreas. Por isso queria virgens. Não adiantava mentir, falar em marido. Os cabelos denunciavam a condição conjugal. Casada se penteava de um jeito, solteira de outro.
O Japão passou a construir em 1932 o que foi designado eufemisticamente de “”estações de conforto”. Nelas estariam as “”comfort women”, expressão em inglês que qualifica as mulheres que provêm conforto. A primeira estação foi montada em Shangai, na China. Outras foram espalhadas por toda a Ásia, porém não na Coréia.
Por isso, desavisadas, algumas coreanas aceitavam convites para trabalhar em fábricas distantes, aliviando em uma boca famílias empobrecidas e famélicas. Em vez de ir para fábricas, eram despejadas nessa espécie pouco alardeada de campo de concentração: as “”estações de conforto”.
Não se tratava de prostíbulos nem de prostitutas. Não havia negócio nem nada elas recebiam para “”confortar” os militares. Submetidas a trabalho forçado, não podiam sair. Era escravidão.
Muitas tentaram fugir e foram mortas. Numa só estação, 70 foram assassinadas em 1945 horas antes do resgate por tropas dos EUA. Várias se suicidaram, ainda presas ou nas décadas seguintes.
Agora, de frente para a embaixada, Yoon Sun-man reafirma as reivindicações essenciais: que o Japão peça desculpas, puna os responsáveis ainda vivos, reconheça que houve crimes de guerra, compense as vítimas e corrija os livros que escamoteiam a tragédia das “”comfort women”.
O Japão afirma que não pode responder com base nas leis sobre guerra só aprovadas em 1949, em Genebra. E que os acordos pós-Segunda Guerra Mundial (1939-45) zeraram o jogo.
Para muitas sobreviventes, o tempo não passou. Sua história permanece tabu até na Coréia. Depois da guerra, elas eram consideradas prostitutas. Escondiam o passado. Na manifestação, uma delas oculta o rosto com uma folha de papel. Quatro compartilham uma casa no interior.
Até dez anos atrás faltava coragem para reaparecer e exigir o que consideram seus direitos. O primeiro protesto foi em janeiro de 1992, numa quarta-feira. Não pararam mais. Sempre às 12h.
Yoon Sun-man, escravizada em 1941, termina o discurso da quarta passada. Às 12h30, nem um minuto a mais ou a menos, elas vão embora com os banquinhos. Kim Sun-duk, 79, diz ao estrangeiro persistir porque injustiças devem ser punidas. E Yoon Sun-man, numa última frase, se vira e acrescenta: “”Eu não posso morrer antes de ouvir desculpas”.