Blog de Christy Ganzert Pato

Diálogos em terra arrasada

Arquivo paraLeis econômicas que só valem para o 1º mundo

HA-JOON CHANG – Política de juros altos do Brasil já foi longe demais

São Paulo, segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

HA-JOON CHANG

Política de juros altos do Brasil já foi longe demais

Para professor de Cambridge e crítico da globalização, país sucumbe ao trauma da inflação e se atrasa voluntariamente

ESTA É a hora de deixar de lado a cartilha neoliberal e adotar o pragmatismo, defende o economista Ha-Joon Chang, considerado o mais efetivo crítico da globalização. Ele não está pregando um grande e radical rompimento ideológico: quer só que o Brasil copie as medidas que no passado foram tomadas pelas nações desenvolvidas para crescer e hoje são rejeitadas por esses mesmos países, como a proteção da indústria nacional.

DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

O sistema de comércio internacional também precisa ser reformado, na visão de Ha-Joon Chang, a fim de aplicar um tipo de protecionismo assimétrico. Permitindo que, de acordo com o seu grau de desenvolvimento individual, cada país mais pobre coloque determinadas barreiras tarifárias, o que daria a todos condições justas de competição.
Leia abaixo trechos da entrevista que o estudioso sul-coreano concedeu à Folha durante viagem ao Brasil para participar do Laporde (Programa Latino-Americano Avançado de Reavaliação de Macroeconomia e Desenvolvimento), sediado pela Escola de Economia de São Paulo, da FGV (Fundação Getulio Vargas).
FOLHA – A Coreia do Sul sempre é apontada como modelo entre as nações ditas “em desenvolvimento”. Como o país conseguiu sobressair?
HA-JOON CHANG
- O Brasil lidera a América Latina, e seu progresso recente não deve ser desprezado. Porém a Coreia realmente cresceu mais rápido com uma estratégia basicamente de proteger a indústria local.

FOLHA – Isso é considerado um pecado capital pelo pensamento econômico dominante…
CHANG
- Do mesmo jeito que as crianças são mandadas à escola antes de procurar um emprego, é preciso que sejam dadas condições para que a indústria acumule capacidade tecnológica e seja capaz de competir com as empresas dos países ricos. O Brasil teve que subsidiar a Embraer no princípio -se ela tivesse sido abandonada na competição com a Bombardier e a Fokker, não teria sobrevivido. O problema é que em alguns países se dá a proteção e nunca se retira, o que deixa as empresas preguiçosas.

FOLHA – Embora o Brasil tenha progredido bastante nas últimas décadas, acredita-se que poderia ir mais longe do que efetivamente tem conseguido. O que o detém?
CHANG
- Existem países na África e em algumas partes da Ásia que realmente não sabem o que fazer, mas o Brasil não é uma nação pequena e pobre que não tem recursos. O Brasil construiu uma base industrial gigante, tem empresas de porte global em setores como o aeroespacial, o de álcool, o de petróleo, o de engenharia civil. O maior problema do país tem sido do lado da demanda, uma dificuldade criada pela política monetária excessivamente conservadora, com elevada taxa de juros e enorme superávit primário. Entendo o porquê de ela ter sido adotada no começo.
Havia a hiperinflação, e o espaço para decisões econômicas racionais era pouco. Mas o país está fazendo isso tudo há tempo demais. O fato de uma política ter sido correta em 1996 não significa que ainda é em 2009.

FOLHA – A inflação é um trauma para a população, os empresários e os políticos.
CHANG
- Quem sofreu com a hiperinflação depois se torna excessivamente cauteloso, é compreensível. A Alemanha e Taiwan tiveram tal experiência. Mas o Brasil levou essa política longe demais. Se a taxa de juros de um país é alta demais, ninguém quer empreender, pois ter um negócio significa lidar com questões trabalhistas, de distribuição… É mais fácil comprar um título público. Então, as empresas se tornam conservadoras, não tomam nenhum empréstimo para investir, para incrementar sua atividade. As companhias brasileiras são as menos alavancadas do mundo -não que o endividamento seja necessariamente bom, mas ser a última em tomada de crédito mostra que tem algo errado. Na realidade, o Brasil não criou empresas novas nos últimos 10 ou 20 anos, enquanto os demais países seguem avançando rápido.
Dez anos atrás, a China não era nada. Era grande, mas nem chegava perto do Brasil. Agora, compete com o país em muitos mercados. [Exaltado] Eu fico realmente com raiva, porque o Brasil está desperdiçando o grande potencial que possui. É de cortar o coração que esteja voluntariamente se atrasando. Do jeito que é feito, o controle da inflação mata o crescimento.

FOLHA – O senhor acha que os bancos centrais devem ser independentes para decidir essas políticas?
CHANG
- Não. Trata-se de uma instituição tão importante, precisa prestar contas. Dada a sua natureza, o banco central tende a favorecer o crescimento do sistema financeiro. Os seus executivos não estão deliberadamente aniquilando os outros setores, mas são naturalmente influenciados por outros banqueiros, com os quais se encontram regularmente.
Sou contra a independência; porém, se ela é concedida, é preciso dar também os objetivos corretos. Na prática, tem sido um pouco diferente nos últimos anos, mas o mandato do Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] diz explicitamente que a instituição deve cuidar da estabilidade de preços no contexto de crescimento e geração de empregos. O Brasil está pagando um preço muito alto pelo trauma da inflação -é como um cidadão que vivia feliz e, depois de ser assaltado na rua, tranca-se em casa e não quer sair mais. Agora é a hora de seguir em frente, especialmente se os outros países estão baixando os juros. Pode-se reduzir o superávit primário para zero. Neste momento de crise, é difícil para as nações ricas apontar o dedo para o Brasil e falar “Oh, essas medidas estão erradas, você é mau”, porque o Brasil se encontra em posição muito melhor que a delas. Esta é a grande chance. Se o país perder a atual oportunidade, quando vai diminuir os juros? Daqui a três ou quatro anos, quando os outros países voltarem a subir suas taxas, será tarde.
Não sou antibanqueiro, é bom deixar claro. Concordo que banqueiros precisem ser mais conservadores que industriais. Para uma sociedade saudável, no entanto, é essencial equilibrar os interesses dos diferentes grupos.

FOLHA – Sobre comércio internacional, o sr. acha possível um entendimento? As negociações da Rodada Doha se mostraram infrutíferas.
CHANG
- O atual sistema representado pela OMC (Organização Mundial do Comércio) é totalmente contra os países em desenvolvimento. Deixe-me usar uma figura que sempre emprego para explicar essa ideia: em muitos esportes, existe a separação de classes por peso. No boxe, por exemplo, a divisão nas categorias mais leves é de um quilo -ou seja, avalia-se que é injusto colocar para lutar duas pessoas cuja diferença de peso seja maior que essa. No comércio internacional, entretanto, acha-se que Honduras deve competir no mesmo nível que os EUA.
Forçar os países em desenvolvimento a empregar políticas que não lhes são apropriadas é matar a galinha dos ovos de ouro. Deixando-os crescer no seu ritmo, vão se tornar no longo prazo grandes mercados consumidores para os produtos dos países ricos. A propriedade intelectual, que é pesadamente protegida pela OMC, deveria ser flexibilizada. Quando precisavam de tecnologia, todos os países ricos se permitiam importar o conhecimento alheio.
As cartilhas sempre enumeram regras: livre comércio, desregulação, privatização. Observando os casos de sucesso, entretanto, nota-se que sempre fizeram diferente do que agora defendem como correto. Ora, os países que julgam que não há diferenças de condições de competição deveriam mandar suas crianças para a guerra. É sério. Precisamos mudar radicalmente a nossa forma de encarar o assunto.

FOLHA – Qual é a sua proposta?
CHANG
- Um tipo de protecionismo assimétrico. Os países menos desenvolvidos têm mais proteções e, à medida que avançam, as barreiras diminuem até que possam participar do livre comércio em pé de igualdade com os demais. Um comitê técnico definiria as faixas.
Colocar no mesmo jogo países que não têm forças equivalentes não é o único problema, porém. Os países ricos ainda asseguram proteção para as áreas em que são fracos, como a agricultura. Eles são rígidos em exigir que os países em desenvolvimento eliminem completa e indubitavelmente todas as barreiras aos seus produtos industrializados e em troca dizem que talvez, quem sabe, possam pensar em diminuir os subsídios dados aos seus fazendeiros. O Brasil teria que cortar tarifas a um ponto que não se vê desde a época do colonialismo. Não é surpresa, portanto, que as recentes negociações não tenham chegado a lugar nenhum.

FOLHA – A crise levará a um fechamento de fronteiras comerciais?
CHANG
- Acho que é um exagero. Eu critico a OMC, mas não estamos na década de 1930, quando não havia um sistema. Hoje, os países fazem de tudo para trapacear, mas pelo menos as regras estão colocadas.

Hypo Real Estate – Alemanha diz que garantirá depósitos

Alemanha diz que garantirá depósitos

DINHEIRO Medida é anunciada por temor de corrida contra bancos após colapso de socorro de 35 bi à financeira Hypo

Governo fecha novo acordo de 50 bi ao Hypo; Merkel diz que não deixará quebra de banco abalar o país e promete punir banqueiros

DA REDAÇÃO

A Alemanha anunciou ontem que vai garantir todas as contas bancárias privadas do país, numa tentativa de impedir corrida às instituições financeiras nos próximos dias. A medida foi anunciada um dia após a divulgação do fracasso da operação de resgate de 35 bilhões da alemã Hypo Real Estate, uma das maiores do crédito imobiliário da Europa.
Ontem, após intensas negociações entre o governo e banqueiros, o Ministério das Finanças alemão anunciou novo plano de resgate ao Hypo, agora a um custo de 50 bilhões. No primeiro plano, o governo entraria com 27 bilhões. O custo extra de 15 bilhões do segundo plano será dos bancos privados, disse o governo.
A chanceler (primeira-ministra) alemã, a conservadora Angela Merkel, disse que não deixará que a quebra de uma instituição abale a economia alemã, a maior da Europa: “Não permitiremos que as dificuldades de uma instituição abale todo o sistema. Por isso, estamos trabalhando duro para socorrer o Hypo Real Estate”.
Merkel disse ainda que o plano de socorro assegurará que executivos que tenham tomado decisões irresponsáveis respondam por suas ações e que sua punição “é nossa dívida com os contribuintes”.
As ações alemãs de ontem dão novas provas de como o colapso do sistema financeiro americano está abalando fortemente o sistema europeu, onde vários bancos já quebraram.
A Irlanda já havia anunciado na semana passada medida similar à adotada agora pela Alemanha. O governo grego também disse na semana passada que iria garantir todos os depósitos. Os anúncios causaram críticas de outros países europeus na semana passada, que agora podem ser obrigados a tomar medidas parecidas.

Sem limites
O Ministério das Finanças alemão disse que o governo abolirá o limite legal atual que garante os depósitos bancários até 20 mil por conta.
Torsten Albig, porta-voz do ministério, disse que a garantia ilimitada cobre cerca de 570 bilhões (US$ 785 bilhões).
O anúncio foi feito enquanto o ministro das Finanças, Jörg Assmussen, negociava com banqueiros em Berlim um acordo de última hora para socorrer o Hypo, que está listado na Bolsa de Frankfurt e cuja quebra poderia ter implicações ainda piores para os mercados financeiros europeus e globais.
Membros do governo disseram que a decisão de suspender os limites de garantia foi tomada por causa de temores de que a crise do Hypo -que revelou um novo buraco em sua contabilidade no final de semana, precipitando o colapso do pacote de socorro do governo e bancos privados- gerasse pânico hoje.
Um funcionário do governo alemão disse que a forma legal de garantir os depósitos integralmente nos bancos do país será determinada nesta semana e que seu formato ainda está indefinido.
O limite alemão de 20 mil é a garantia de depósitos mais baixa permitida na legislação da União Européia. Muitos países do bloco europeu têm garantias oficiais mais altas. Na França, chega a 70 mil.
O governo da Áustria, cuja economia é estreitamente ligada à da Alemanha, também anunciou que elevará as garantias dos depósitos nos bancos do país, numa medida a ser anunciada na quarta-feira.
Anteontem, em encontro de cúpula em Paris das quatro maiores economias da UE -Alemanha, Reino Unido, França e Itália-, foi anunciado que os governos farão o que for preciso para impedir a quebra de bancos do continente. Muitos têm forte exposição aos papéis “podres” dos bancos norte-americanos, artifícios financeiros complexos lastreados em hipotecas “subprime” (de alto risco), que começaram a registrar calotes, dando início à crise atual.
Mas a cúpula de Paris, convocada pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, terminou sem acordo sobre medidas mais abrangentes de socorro, o que gerou críticas de economistas.


Com agências internacionais

“Estatizações” já custam US$ 1 trilhão a governo dos EUA

São Paulo, quinta-feira, 18 de setembro de 2008

“Estatizações” já custam US$ 1 trilhão a governo dos EUA

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

A operação resgate da seguradora AIG levada a cabo anteontem pelo governo norte-americano, adicionou US$ 85 bilhões a uma conta federal que desde o início da atual crise financeira já está entre US$ 900 bilhões e US$ 1,5 trilhão, ou cerca de 10% do PIB norte-americano, segundo analistas. E pode chegar a muito mais.
O valor de dinheiro público destinado a salvar instituições privadas, como a AIG e o Bear Stearns, em março, ou semiprivadas, como as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, na semana passada, assusta não só por acontecer no país que é o bastião do capitalismo de livre mercado mas porque abre a porta para futuras operações, de outras instituições e setores da economia.
Nos cálculos mais conservadores, a administração de George W. Bush autorizou ou não se opôs ao gasto de US$ 900 bilhões nos resgates, via Tesouro, Federal Reserve, o equivalente ao banco central, e Federal Home Loan Bank, instituição que atua no crédito imobiliário. Nos mais agressivos, só o Fed já empenhou meio trilhão na ciranda.
“Pode ser muito mais, dependendo de quantos bancos mais terão de ser resgatados”, disse à Folha o acadêmico Edward Hadas, autor de “Human Goods Economic Evils” (ISI, 2007) e colunista do blog econômico Breakingviews.com. “Para ser franco, depois de um certo ponto, esses cálculos já não fazem mais sentido.”
O pior ralo é o das empresas Fannie Mae e Freddie Mac. Na operação resgate, cada uma levou US$ 100 bilhões. Se as duas agências imobiliárias perderem a capacidade de honrar seu fluxo anual de empréstimos, no entanto, o Tesouro teria de gastar cerca de US$ 450 bilhões por ano, o que triplicaria o déficit anual americano para US$ 1,2 trilhão, calcula Paul Ashworth, da Capital Economics.
Além disso, há o problema dos sinais contraditórios mandados pelo governo norte-americano. Até terça, a política oficial, encabeçada pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, era de que não haveria resgates. Segundo a lógica oficial, o caso do Bearn Stearns era uma exceção, assim como o das duas agências imobiliárias. Tudo mudou depois do caso AIG.
Nas últimas horas, cresce, por exemplo, a pressão de montadoras norte-americanas para um pacote. Detroit pede US$ 25 bilhões em auxílio federal. Em discurso na noite de terça no Economic Club de Washington, William C. Ford Jr., CEO da empresa que leva seu sobrenome, disse que não, não se tratava de um resgate.
“É difícil para governos pararem uma vez que começam [as operações resgate], principalmente se eles decidem que um orçamento equilibrado não é meta para os próximos anos”, disse Edward Hadas. “Só param quando a moeda perde valor ou as pessoas caem na real e equilibram receitas e despesas. Como os brasileiros sabem, isso pode levar tempo.”
Para o historiador econômico Ron Chernow, esse governo “foi longe demais”. “Nós vivemos a ironia de uma administração pró-livre-mercado fazendo coisas que o governo democrata mais progressista não faria em seus maiores delírios”, disse ele ao “New York Times”. A ironia não deixou de ser notada pelo Congresso, dominado pelos democratas.
Ontem, os comitês financeiros do Senado e da Câmara começaram a articular contramedidas ao que líderes chamaram de farra com o dinheiro público. CEOs das empresas em dificuldade devem ser convocados a testemunhar. A começar por Richard Fuld Jr., do Lehman.

Crise americana não tem precedentes

São Paulo, domingo, 21 de setembro de 2008

Crise americana não tem precedentes

Montante investido pelo governo dos EUA no sistema financeiro também é inédito e já é chamado de “Mãe de Todos os Resgates’

Soma do socorro já chega a US$ 1 tri e pode dobrar com novo pacote; consenso é que crise é a maior desde a Segunda Guerra

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Enquanto o governo Bush passa o fim de semana negociando para apresentar ao Congresso o que promete ser a maior reengenharia do sistema financeiro do país desde a que se sucedeu à Queda da Bolsa de 1929, dois consensos emergem da pior semana dos 13 meses da turbulência que abala o mercado americano e chacoalha o mundial.
O primeiro é que essa é a maior crise por que passa o país desde ao menos o final da Segunda Guerra. De Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, o BC dos EUA, ao megainvestidor George Soros, de Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton, ao renomado historiador monetário Ron Chernow, todos vieram a público dizer isso.
“Essa é provavelmente a crise econômica mais grave desde a Grande Depressão”, disse Lawrence Summers na terça. Dois dias antes, Alan Greenspan havia falado em entrevista à TV que esse era um evento “que acontece a cada meio século, provavelmente a cada século”. Anteontem, Ron Chernow já não tinha mais dúvidas: “É a pior crise desde 1929″.

O segundo consenso é que é inédito o montante de dinheiro federal já utilizado e que ainda deve entrar em operações de resgate de instituições com dificuldades. Segundo analistas e acadêmicos ouvidos pela Folha, nesse caso a comparação mais precisa é com a chamada crise S&L, sigla em inglês para poupança e empréstimos, do final dos anos 80 e começo dos 90, não com o Crash de 1929.
Seja qual for o parâmetro, os valores de hoje são superiores. Desde a aprovação do pacote de estímulo fiscal proposto por Bush, em janeiro, e a operação resgate do banco Bear Stearns, em março, até a encampação da seguradora AIG, na última quarta, o governo gastou ou aprovou o gasto de soma que oscila de US$ 1 trilhão a US$ 1,5 trilhão -10% do PIB do país.
Isso não leva em conta o novo pacote, que alguns analistas do mercado calculam que adicionará mais US$ 1 trilhão à conta e agências de notícias diziam ontem que envolveria a compra de US$ 700 bilhões em papéis podres. Um economista que participou de teleconferência ao mercado do Departamento do Tesouro na sexta à tarde disse à Folha que o governo evitou falar em custo total das medidas. Indagado em coletiva no mesmo dia, o secretário da Tesouro, Henry Paulson, disse apenas que seria “grande o suficiente: “Estamos falando em centenas de bilhões”.
Para comparação, o total de gastos do governo dos EUA no ano passado foi de US$ 2,7 trilhões. A Guerra do Iraque custou até agora US$ 560 bilhões, segundo o Congressional Budget Office. E o PIB brasileiro é de US$ 1,3 trilhão. A exuberância irracional do número valeu às recentes ações o apelido de “Mãe de Todos os Resgates”.
Do diário econômico conservador “Wall Street Journal” à revista semanal “Time”, passando pela emissora CNN, o nome foi usado. Ganhou até sigla em inglês, Moab, para “Mother of All Bailouts” -a última palavra foi utilizada pela primeira vez na língua inglesa com a conotação de resgate financeiro nos anos 50.

“A melhor comparação a ser feita é mesmo com a crise S&L”, disse à Folha o professor Charles Calomiris, expert na história de bancos da Universidade Columbia. No fim dos anos 80, o governo criou uma agência nos moldes da que propõe agora. Em seis anos, a entidade fechou ou reorganizou 747 instituições. O custo total da operação foi de US$ 400 bilhões, então um recorde.
Só com a operação da seguradora AIG, na semana passada, o Fed gastou cerca de 20% desse valor -e cerca de 10% de todo o dinheiro de que o BC americano dispõe. Com uma diferença: a Resolution Trust Corp, criada em 1989, negociava os papéis ruins só de empresas falidas que já haviam passado ao guarda-chuva do governo; e a nova instância deve limpar os balanços de entidades privadas.
Mesmo assim, Calomiris é otimista. “Ainda não sabemos se esse dinheiro é a fundo perdido, e o provável é que muitas dessas transações ainda dêem dinheiro aos contribuintes”, afirmou. “O negócio da AIG até eu faria, pois a possibilidade de os papéis da seguradora voltarem a render é muito grande.”
Em seu programa semanal de rádio na manhã de ontem, George W. Bush se justificou. “Dado o estado precário de nossos mercados financeiros e a importância fundamental deles na vida do povo americano, a intervenção do governo não é só necessária, é essencial”, disse o presidente republicano.
Membros de seu partido torcem o nariz para a ofensiva do governo no mercado a quase um mês das eleições. Acadêmicos respondem que há um novo paradigma e que é necessária a mudança de uma estrutura financeira ultrapassada.
“É exatamente isso, novos tempos requerem novas medidas”, disse Darrell Duffie, da School of Business da Universidade Stanford, na Califórnia. Com ele concorda George Morgan, especialista em sistemas bancários da Virginia Tech. “As intervenções permitem que o livre mercado continue funcionando, em vez de entrar em colapso.” “O papel do governo é criar um arcabouço, legal ou não, para que isso aconteça.”

Vinicius Torres Freire – Dúvidas sobre o pacotão americano

São Paulo, domingo, 21 de setembro de 2008

VINICIUS TORRES FREIRE

Dúvidas sobre o pacotão americano


Economia dos EUA terá bancos sem capital, menos crédito para as empresas, menos emprego e risco de mais calote


O GOVERNO americano interveio em quase cada canto do mercado financeiro e preanunciou que vai intervir em escala ainda maior, com a intenção de conter desastre e anarquia adicionais.
Passou a garantir as aplicações em fundos de investimento. Vai financiar e comprar títulos lastreados em prestação de carros e cartão de crédito a fim de ajudar esses fundos de investimento, que detêm tais papéis. Interveio no mercado de ações e títulos privados (proibindo vendas a descoberto de ações, o que não afeta apenas tais papéis). Financiou e fez o seguro da compra de banco quebrado. Tenta forçar fusões ou leilões de outras instituições. Estatizou as maiores financeiras imobiliárias e a maior seguradora. Quer centenas de bilhões de dólares para retirar de circulação outros tantos ativos financeiros micados. Preanunciar esse último passo foi crucial para debelar a ameaça de destruição iminente do sistema financeiro. Mas vai funcionar? O que significa “funcionar? Se o governo comprar os papéis podres de instituições financeiras pelo menor preço (em leilões), os bancos terão ainda menos capital, pois seus ativos perderão ainda mais valor. Menos capital, menos empréstimos.
Isto é: recessão, mais ou menos profunda. Se o governo paga caro por tais ativos, gasta mais e faz ainda mais dívida, além de subsidiar enorme e grotescamente os bancos (embora, enfim, sem resolver o problema da descapitalização). A fim de reduzir seus riscos, o governo teria de obter, ao menos como garantia, ações dos bancos -mais estatização parcial e temporária, ao menos. Mas por que ninguém levanta a hipótese de obrigar os credores a trocarem dívidas por ações de instituições financeiras? O mercado financeiro quer subsídio e ponto? O governo vai revender tais papéis para instituições financeiras fortes.
Quando? Vai permitir que fundos estrangeiros venham para a xepa? Durante o processo de compra desses papéis na bacia das almas, mais instituições veriam seus ativos virarem pó (aqueles que ainda não terão vendido seus micos e anotarão coisas que não valem nada em seus balanços). O governo vai proibir a falência desses bancos? Vai emprestar dinheiro diretamente a eles ou comprar suas ações?
Também não resolve proibir que tais ativos sejam registrados pelo valor de mercado nos balanços (o governo assim “tabelaria” preços, na prática) -ninguém acreditaria nesses balanços. Ou a intenção do governo é mesmo deixar parte das instituições financeiras ir à breca, salvando apenas algumas?
O que será de uma economia com bancos descapitalizados, empresas sem crédito e dívida pública turbinada? Pessoas que financiaram suas casas e estão em dificuldades terão alívio nas prestações? Essa economia deteriorada terá mais desemprego. Desempregados, além de não comprarem, não pagam prestações de casa, carro e cartão de crédito.
Tal inadimplência tenderia a criar outra onda de degradação de preços de ativos financeiros que dependem desses fluxos de renda (as prestações), de um modo parecido com o que ocorreu com os títulos lastreados em prestações imobiliárias. O que o governo fará a fim de estimular a economia? Construir pirâmides (nome irônico para obras públicas)?

EUA estatizam mercado de financiamento imobiliário

São Paulo, segunda-feira, 08 de setembro de 2008

VINICIUS TORRES FREIRE

Mercado de mentiras e seqüestros


Atendendo a pedidos do mercado, EUA estatizam quase metade do mercado de financiamento imobiliário


O GOVERNO dos EUA estatizou quase metade do mercado de financiamento imobiliário. Não foi estatização? Hum. O governo americano tem agora 80% das ações preferenciais das duas maiores empresas do ramo, botou para fora seus diretores, nomeou os novos, cancelou os dividendos dos acionistas e, divertidíssimo, as proibiu de fazer lobby no Congresso. Qual o nome disso? Se fosse na Venezuela, seria estatização, certo? Antes de alguns detalhes, porém, algumas conclusões: 1. O governo Bush, “antiestatista”, termina com a maior intervenção do Estado na economia americana desde a Grande Depressão dos anos 30. Mas os lucros ficaram com quem criou a lambança financeira; 2. O governo procura evitar mais quebradeiras. Sim, este é um caso de “risco sistêmico” -o risco de a quebra de instituição financeira importante provocar um dominó de falências que prejudica até quem nada tem a ver com o pato. Mas o “racional” e “eficiente” mercado financeiro oligopolizado (“muito grande para quebrar”) tem o monopólio da desculpa esfarrapada “técnica”. Merece o privilégio sistêmico de ser socorrido quando ameaça todo o resto da economia, mas não paga por isso nos tempos de bonança. O outro nome dessa desculpa, “risco sistêmico”, é seqüestro: se você não pagar o resgate, eu mato todo mundo; 3. O mercadismo critica de boca cheia “instituições capturadas por grupos de interesse”, os quais “politizam a gestão econômica em busca de rendas”. Vivem a dizer que “instituições como bancos centrais e agências” têm de ser “independentes” e “técnicas”, que o Estado não deve subsidiar empresas etc. Divertido é que, para essa gente, os “rent seekers”, os seqüestradores das instituições públicas e devoradores de subsídios e impostos, são sempre os outros -nunca a finança. E agora? Ah, ah, ah. Mostrem-me um liberal. O governo americano estatizou as duas maiores financiadoras imobiliárias do país a fim de evitar que elas “desmoronassem”, como dizia ontem um ex-diretor do Banco Central americano. Freddie Mac e Fannie Mae, como são apelidadas, têm ou garantem US$ 5,6 trilhões do mercado de dívida imobiliária americano, de US$ 12 trilhões. Se quebrassem, poderia ocorrer um “tsunami financeiro”, como dizia na quinta Bill Gross, diretor do maior gestor de fundos de renda fixa do planeta, o Pimco (US$ 850 bilhões). Gross pedia ainda que o governo dos EUA comprasse papéis imobiliários podres no mercado. Ontem, além de estatizar Freddie “Fraudy” Mac e Fannie “Phony” Mae, como eram reapelidadas as empresas, o governo anunciou que vai comprar papéis imobiliários. Gross, que tem muitos desses títulos, se dizia ontem “sorridente”. O que fazem Freddie e Fannie? Grosso modo, concedem, compram e revendem financiamentos imobiliários. Isto é, negociam títulos de investimento que têm como fonte de renda a prestação da casa própria (títulos lastreados em hipotecas, “mortgage backed securities”, ou MBS). Os calotes na prestação da casa própria e a perda de valor de tais títulos estão na origem da crise financeira e bancária que jogou areia nas rodas da economia mundial. Se Freddie e Fannie fossem à breca, a economia iria ao brejo. O que pode acontecer? Quem entende muito disso dizia ontem que pode tanto haver festa no mercado como mais medo. Bancos, fundos, hedge funds, BCs pelo planeta e outros detentores e/ou inventores da complexa dívida imobiliária americana podem respirar um pouco. Por ora, ao menos, o círculo vicioso de desvalorização pode ser atenuado. O fato de o governo ter ordenado que as empresas financiem mais hipotecas pode ajudar a derrubar os juros da prestação, que não caíram com a crise e os cortes do Fed. Mas muita ente acha que a crise não vai parar enquanto os compradores de casas endividados não receberem ajuda direta. Outros lembram que muito banco tinha ações de Freddie e Fannie, que nesta segunda devem valer menos do que pó-de-traque queimado. Mas o mais importante de tudo é: o governo americano diz e repete que não vai deixar a peteca cair.