Blog de Christy Ganzert Pato
Diálogos em terra arrasadaArquivo paraO Estado como pilar do Capital
José Luís Fiori: O perigo da utopia

DEBATE ABERTO
O perigo da utopia
Se as utopias de esquerda levaram – em muitos casos – ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.
José Luís Fiori
“…a geopolítica do equilibro de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...], esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos, do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado..[...] Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países tambem não faz mais sentido [...] No século XX, as guerras entre as grandes potências não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas?”
LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA, “O mundo menos sombrio”, Jornal de Resenhas, nº 1, 2009, USP, p:7.
Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos “novos filósofos” europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do “fim da história” e da vitória da “democracia, do mercado e da paz”. E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.
Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de “ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele”.( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos “de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico”. A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : “uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos” (FSP, 9/0708).
Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata – evidentemente – de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do “fim das guerras” que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.
Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo norte-americano, Charles Tilly: “de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada quatorze meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais freqüentes e mais mortíferas [ alias] , desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais.. [enquanto.] o sangrento século XIX contou 205 guerras” (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131.) Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E ao contrário da impressão generalizada, “os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares”. (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os “fracassos” militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão – ao contrário do que dizem – aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências.
Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente, com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a “geopolítica do equilíbrio de poderes” e as guerras, não se restringe ao século XIX, ( já havia sido identificada na Grécia), e o sonho do “governo mundial” das grandes potências, já existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do numero dos estados e das guerras nacionais.
Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do “fim do imperialismo”, e ainda menos, neste início do século XXI, em que as grandes potências – velhas e novas – se lançam sobre a África, e sobre a América Latina, disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos “mercados abertos”, num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas, e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas.
Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos. Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter conseqüências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram – em muitos casos – ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
BNDES prepara nova linha de crédito
BNDES prepara nova linha de crédito
Para contornar falta de financiamentos no mercado, banco vai fornecer capital de giro a empresas de diversos setores
Exportadoras como Sadia, Aracruz e Votorantim, que tiveram problemas com câmbio, poderão adiantar parcelas de financiamento
LEANDRA PERES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
JANAINA LAGE
DA SUCURSAL DO RIO
Em mais uma tentativa de contornar a queda na oferta de crédito pelos bancos privados às empresas, o governo prepara agora, por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), uma linha de capital de giro para oferecer a companhias de diversos setores econômicos.
Já as empresas exportadoras que tiveram prejuízos por fazer apostas no mercado cambial poderão receber adiantamentos de parcelas de empréstimos que já tenham negociado junto ao BNDES. Essa seria uma maneira de ajudar as companhias sem, no entanto, parecer que o governo está oferecendo socorro financeiro.
Segundo a Folha apurou, a área técnica do BNDES já está detalhando como os empréstimos por meio dessa nova linha funcionariam. A oferta de mais dinheiro público seria a principal contribuição do banco de fomento para reduzir a falta de liquidez no mercado e segurar o crescimento econômico no ano que vem.
Na semana passada, o presidente Lula disse que não haverá socorro oficial a empresas quebradas. Ontem foi a vez de o ministro Guido Mantega (Fazenda) repetir o discurso. Na sexta, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou que o banco quer ajudar as empresas exportadoras que sofreram perdas com o câmbio.
Coutinho não detalhou como poderiam ser feitas as operações de empréstimo, mas mencionou que muitas grandes exportadoras contam com programas de investimento no BNDES. Ele citou a possibilidade de adiantar recursos para assegurar a liquidez. Outra hipótese seria a emissão de debêntures (títulos de dívida).
Na prática, porém, qualquer liberação de dinheiro, por meio de adiantamento, compra de debêntures ou mais capital de giro, funcionará como um socorro, pois recursos poderão ser usados para quitar os prejuízos no mercado de câmbio, uma vez que não há dinheiro “carimbado”.
Os empréstimos do BNDES são normalmente liberados em etapas, de acordo com o andamento dos projetos. Entre as grandes exportadoras que anunciaram prejuízos, Sadia e Aracruz têm recursos ainda a receber do banco.
A Aracruz teve um financiamento aprovado no valor de R$ 595,9 milhões em 2006. Os recursos eram destinados a aumentar a capacidade de produção da unidade industrial de Barra do Riacho.
Já a Sadia obteve empréstimo de R$ 462,5 milhões no ano passado. O montante era destinado à construção de um complexo agroindustrial, em Lucas do Rio Verde (MT), com dois frigoríficos. Em 2005, a empresa já havia tido a aprovação de um outro financiamento do banco no valor de R$ 974 milhões. A decisão de liberar os recursos da nova linha de capital de giro dependerá ainda de uma avaliação mais detalhada do comportamento do crédito. Caso não veja melhora na situação ao longo de novembro, o dinheiro poderá sair ainda neste ano. A idéia, no entanto, é oferecer crédito a taxas de mercado, assim como o banco fez com a linha de financiamento para pré-embarque no começo de outubro.
Governo holandês injeta 10 bi no ING, depois de rumores de falta de capital
São Paulo, segunda-feira, 20 de outubro de 2008 
Governo holandês injeta 10 bi no ING, depois de rumores de falta de capital
DA REDAÇÃO
O governo da Holanda anunciou ontem que vai injetar 10 bilhões (US$ 13,4 bilhões) na principal instituição financeira do país, o ING, depois dos rumores no mercado de que ela estava sem capital. Na sexta, o ING disse que terá prejuízo no terceiro trimestre, o primeiro na história da instituição.
O ministro das Finanças holandês, Wouter Bos, disse que o acordo era necessário devido à grande volatilidade nos mercados financeiros globais no momento. Segundo ele, o ING é uma instituição “saudável”, mas a que situação dos mercados “é tão imprevisível no momento, tão arriscada, e as expectativas são tamanhas que é do interesse do ING reforçar seu capital em 10 bilhões”.
Em troca da ajuda, o governo da sexta maior economia européia receberá ações sem direito a voto do ING e deverá apontar dois nomes para o conselho de supervisão da instituição. Já o ING vai cancelar o pagamento de dividendos até o fim do ano.
“As condições de mercado mudaram dramaticamente nas últimas semanas e levaram a uma crença reconhecida internacionalmente de que, no atual ambiente de mercado, as exigências de capital para as instituições financeiras devem ser maiores”, afirmou, em nota, o presidente-executivo do ING, Michel Tilmant, sobre a decisão de aceitar a ajuda estatal.
Na sexta-feira, os rumores de que a instituição estava ficando sem capital desvalorizaram as ações do ING em 27,5%, o que derrubou seu valor de mercado para pouco mais de US$ 21,5 bilhões. No ano, os seus papéis já recuaram 72,63% na Bolsa de Nova York.
No início deste mês, o governo holandês, ao lado dos de Bélgica e Luxemburgo, resgatou o banco Fortis.
Capitalismo seguirá igual, diz Chomsky
São Paulo, terça-feira, 14 de outubro de 2008 
Capitalismo seguirá igual, diz Chomsky
Crítico de Bush, lingüista diz que governo evita palavra “estatização” para que público não reivindique direito de interferir
Intelectual de esquerda descarta o surgimento de um novo capitalismo pós-crash, com maior presença do Estado na economia
FERNANDO RODRIGUES
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK
Um dos intelectuais de esquerda mais respeitados do planeta, o lingüista Noam Chomsky, acha que a estatização total ou parcial do sistema financeiro dos EUA não vai ocorrer por causa da atual crise.
Colocaria em risco o que ele classifica de “tirania privada”.
Por essa razão os governos do mundo desenvolvido evitam usar o termo até mesmo quando se trata de assumir o controle, ainda que só por algum tempo, de alguns bancos e corretoras que faliram por causa da crise atual.
Aos 79 anos, Chomsky leciona no MIT (Massachusetts Institute of Technology), uma das mais renomadas instituições de ensino superior dos EUA.
Para ele, se o governo norte-americano assumisse publicamente algumas de suas ações como “estatizações”, abriria tecnicamente espaço para que os cidadãos do país também passassem a reivindicar o poder de interferir na condução do sistema. Até porque, diz o lingüista, “em princípio, o governo representa o público”.
A possibilidade de um novo tipo de capitalismo surgir no pós-crash, com maior presença do Estado, é um cenário descartado por Chomsky. “A economia já é altamente dependente da dinâmica do setor estatal. É um sistema no qual o público paga os custos e assume os riscos, e os lucros são privados. Eu não vejo nenhuma indicação de que as instituições básicas do capitalismo de Estado estejam prestes a serem significativamente modificadas. É claro que a liberalização será reduzida, mas no interesse das instituições financeiras que vão sobreviver”, diz ele.
A seguir, trechos da entrevistas de Chomsky concedida à Folha por e-mail.
FOLHA – Por que o governo dos EUA e banqueiros evitam expressões como “nacionalizar” ou “estatizar” ao falar dos pacotes de resgate para bancos nos quais haverá dinheiro público ou compra de ações pelo Estado?
NOAM CHOMSKY - Nós vivemos numa cultura altamente ideológica na qual “estatização” é uma palavra que põe medo, como “socialismo” (ou, para muitos, até “liberal”). A propósito, esse é um assunto sério. Se o Wells Fargo compra o Wachovia, então tudo fica dentro do setor privado -ou seja, dentro do sistema de tirania privada no qual o público não tem voz, em princípio. Dentro do sistema ideológico isso é chamado “livre mercado” e “democracia”. Se [Henry] Paulson dá dinheiro público para bancos mas sem o direito de tomar decisões dentro dessas instituições, trata-se de um distanciamento da tirania pura chamada “liberdade”, mas não muito. Se o governo adquire ações com poder de decisão dentro dos bancos, há sempre o risco de o público então também poder interferir -uma vez que, em princípio, o governo representa o público. Essa ameaça de democracia é muito mais severa para ser aceitável dentro do sistema doutrinário reinante.
Um aspecto intrigante do sistema é que o governo é visto como uma força externa, separada da população. E em muitos círculos, é interpretado como força opressora da população.
A idéia de o governo ser “para e pelo povo” é restrita a discursos patriotas e aulas de civismo nas escolas. Ou deveriam ser.
FOLHA – A onda de intervenção do Estados nas instituições financeiras será revertida no futuro ou haverá um novo cenário no qual mais bancos passarão de maneira perene a ser controlados pelo poder público?
CHOMSKY - A estatização completa é muito improvável pelas razões que eu mencionei. Uma ação nessa direção traria junto uma ameaça de democracia, ou seja, uma ameaça de o público se tornar envolvido nas tomadas de decisões sobre o sistema socioeconômico. O principal filósofo americano do século 20, John Dewey, observou que enquanto o público não ganhar controle efetivo das principais instituições da sociedade -financeiras, industriais, mídia etc.- a política permanecerá como “uma sombra dos negócios sobre a sociedade”. Naturalmente, esse é o tipo de negócio que o mundo prefere. E a sua dominância sobre os sistemas doutrinários e políticos é tão enorme que a tirania privada é chamada de “democracia”.
Já a ameaça de haver democracia real é chamada de “ameaça da tirania”.
FOLHA – Esta é a pior crise econômica-financeira desde a Grande Depressão dos anos 30? Seria também o prenúncio de grandes mudanças no capitalismo como hoje o conhecemos?
CHOMSKY - Tem sido vista como a pior crise desde aquela época. Mas ainda não sabemos o quão severa será a crise econômica que está por vir.
Também acho que devemos ser cautelosos ao usar o termo “capitalismo”. O sistemas existentes são de uma outra forma, um capitalismo de estado. Tem havido muita discussão sobre se o público deverá bancar o custo e o risco das operações de salvamentos dos bancos, mas essas lamentações -até por economistas que deveriam conhecer melhor as coisas- estão baseados na insatisfação ao se enfrentar a realidade de como a economia funciona.
A economia já é altamente dependente da dinâmica do setor estatal para que haja inovação e desenvolvimento. É um sistema no qual o público paga os custos e assume os riscos. Os lucros são privados. Eu não vejo nenhuma indicação de que as instituições básicas do capitalismo de Estado estejam prestes a serem significativamente modificadas. O sistema financeiro já foi alterado, com o colapso do modelo de bancos de investimentos. Já se reconheceu décadas atrás que a liberalização dos anos 70 embutiam um risco severo de crises repetidas e profundas. É claro que a liberalização será reduzida, mas no interesse das instituições financeiras que vão sobreviver. É possível que a retórica hipócrita do mercado fundamentalista seja também um pouco mais contida.
FOLHA – O sr. era jovem nos anos 30, mas vê semelhanças entre aquela crise a atual?
CHOMSKY - O desemprego era maior, mas essa é apenas uma das diferenças. Entre as semelhanças, creio que assim como naquela época, agora estamos indo em direção a um grande depressão.
FOLHA – Os últimos governos tomaram decisões liberalizantes para o mercado. Tanto o de George W. Bush como o de Bill Clinton -neste último, quebrando o muro que separava bancos comerciais de bancos de investimentos. Democratas e republicanos são igualmente responsáveis?
CHOMSKY - A responsabilidade pela situação atual é dos dois partidos. Alertas foram ignorados. No fundo, republicanos e democratas são ambos facções de um “partido dos negócios”.
São um pouco diferentes, mas operam dentro da mesma estrutura institucional. Então não me parece ser uma surpresa que a culpa seja compartilhada. O problema é que essa discussão toda ignora o fato crucial da liberalização financeira: o seu impacto em solapar a democracia.
FOLHA – Quem o sr. acredita estar mais bem preparado para assumir a Casa Branca.
CHOMSKY - Barack Obama, provavelmente. Ao longo do tempo, a população se dá economicamente de maneira melhor com os democratas. Eles têm se movido à direita em políticas socioeconômicas. Mas John McCain é um descontrolado. É difícil saber o que ele poderia fazer. E os interesses que ele representa são extremamente perigosos para os EUA e para o mundo. Também para a esfera econômica.
FOLHA – Fala-se em num novo Bretton Woods, uma nova estrutura econômica mundial. Quem poderia liderar esse processo?
CHOMSKY - O poder ainda reside primeiramente nos EUA. Depois, na Europa. Apesar da diversificação na Ásia, o que vejo ainda é o G7 tomando a frente nesse papel de reformar o sistema.
FOLHA – Que tipo de capitalismo vai emergir da atual crise?
CHOMSKY - O capitalismo de Estado será provavelmente muito parecido ao atual, com um pouco mais de regulação e controle sobre as instituições financeiras, que serão reconstruídas (com os bancos de investimento). Mas não há indicações, pelo menos agora, de mudanças dramáticas.
Financial Times – How to save Europe’s banks
Unfortunately, it is less easy to turn the page on the crisis itself. Few are now willing to lend to European banks, not least other European banks. The situation cannot be allowed to continue. At risk is the prosperity of millions of blameless European citizens who rely on banks for mortgages or business loans.
Policymakers need to end the panic, improve transparency and thus the health of sound banks, while allowing a bloated banking sector to shrink. Unfortunately, it is no easy task to achieve all of these three aims simultaneously.
The US Treasury’s plan to purchase toxic assets at auction should – if executed well – improve transparency by helping to establish the value of banks’ balance sheets. Since the most toxic assets appear to have originated in the US, there may be no need for separate European action on that score. Yet the auctions may also be the low tide that reveals many banks to have been swimming naked. It is unlikely to release a flood of confident lending to the banking sector from the wholesale money markets. It will not provide enough subsidy to rescue bad banks, and nor should it.
Ending the panic will require something else: the recapitalisation of the banking sector. Lacking a queue of eager investors, that will be achieved either through the forced conversion of debt to equity, or by governments taking a stake themselves. This is a crisis that looks fixable, given more capital and more transparency. Hopefully a blanket guarantee of all bank debts, with the horrible incentives that brings, will not be necessary.
The difficulty is that the developed world looks over-banked. Too many bankers have been chasing too few projects. Consolidation and job losses in the banking sector look inevitable, maybe even desirable.
Yet it is no mean feat to work out which banks should be recapitalised at some cost to their existing shareholders, which should be abandoned, which should be forced to slim down and which are fine.
To subsidise permanently incompetent banks is unfair and will lead to trouble in the future: the blanket guarantees currently breaking out like a rash all over Europe fall into that category. Yet to abandon the banking sector would be a disaster too. The middle road is narrow.
Thus far, Europe’s leaders have displayed a purely declaratory brand of unity, jointly proclaiming that they will each take care of the problems in their own back yards. Despite the temptations of a Europe-wide bail-out fund, that looks to be a sensible recognition of reality. Such a cross-border fund would struggle with the inherently political decision of who shall drown and who shall be saved.
Yet Europe still needs a plan, and a more co-ordinated approach. The farcical rush to unconditionally indemnify all depositors is an example of the costs of flying solo. Pioneered by the Irish, closely followed by the Greeks, the Danes and – possibly, or possibly not, the Germans – the stampede has helped to spread nervousness. It has offered no additional protection to the typical depositor, who is already insured, and encourages bad banks to play double or quits. There is no obvious exit strategy. Could this have been what the UK chancellor, Alistair Darling, archly referred to on Monday as “international best practice”? While it is clearly vital that small depositors should be protected, panic among retail depositors is not the cause of Europe’s banking woes.
The European Commission should now be laying the groundwork for a state role in recapitalisation, which looks ever more likely to be necessary. One obstacle is the stability and growth pact, which forbids excessive deficits. EU rules on state aid form another hurdle. The current exceptional circumstances justify a relaxed approach to both restrictions, but not their indefinite suspension. Clarity is needed.
A large and co-ordinated recapitalisation could work, but it will need a conductor and a score. This is no time for improvised solos.
© The Financial Times Limited 2008
Vinicius Freire – Fim de papo: começa a estatização
São Paulo, quarta-feira, 08 de outubro de 2008 
VINICIUS TORRES FREIRE
Fim de papo: começa a estatização
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Britânicos vão estatizar parte dos bancos, Espanha prepara pacote e BC dos EUA assume o papel de banco comercial |
A ESTATIZAÇÃO de fatias grossas do sistema financeiro euroamericano vai começar, agora de modo sistemático. Hoje, o Reino Unido anuncia o plano de comprar até US$ 87 bilhões (R$ 202 bilhões) em ações dos seus cinco maiores bancos. Havia rumores de que pelo menos dois deles não resistiriam à virada da noite -o dinheiro vale um terço da economia argentina.
A idéia inicial é que os bancos continuem a ser companhias privadas.
Mas o governo terá representantes na direção e algumas normas serão baixadas para que os bancos não parem de emprestar para clientes de varejo e a pequenas e médias empresas. De quebra, jogando para a galera, o governo vai limitar o rendimento dos altos executivos.
Essas são, mais ou menos, as “diretrizes” que a União Européia aprovou para a intervenção em massa nos bancos.
Na sexta-feira, a Espanha deve anunciar um pacote de até US$ 68 bilhões (R$ 158 bilhões) para financiar a compra de ativos financeiros dos bancos, ora saudáveis, a fim de que eles descongelem o fluxo de empréstimos para a economia “real”.
Mais complicado, mas mais impressionante, é que o Fed, o banco central dos Estados Unidos, tornou-se na prática um banco múltiplo, para não dizer ênuplo, de “n” utilidades: além de autoridade monetária, é agora banco de bancos, banco comercial e de investimento. O Fed vai financiar a atividade cotidiana de empresas e de bancos, por meio de um veículo de propósito específico, uma “subsidiária”, digamos. Vai comprar notas promissórias das firmas. Isto é, vai emprestar dinheiro para o capital de giro, os recursos de que as empresas necessitam para tocar atividades comezinhas, como honrar a folha de pagamento.
Em geral, fundos de investimento compravam tais papéis de empresas. Com a crise, tais fundos congelaram de medo de calote.
Em suma: o dinheiro apenas flui no centro do mundo quando é intermediado pelos bancos centrais, o Fed em particular. Alguma coisa parecida, embora em muito menor escala, começa a acontecer no Brasil, também varrido pela seca duradoura de crédito. A coisa pode não parar por aí. Talvez o Fed tenha de garantir todas as transações entre instituições financeiras dos EUA, como uma espécie de seguradora gigante de calotes financeiros, uma das alternativas restantes ao medo paralisante de emprestar e ser caloteado.
Tais iniciativas, tão extraordinárias quanto vexaminosas, mas necessárias, resultam de três semanas de congelamento de crédito. São o efeito final da desconfiança dos mercados em seu próprio sistema de preços e de avaliação de riscos.
Calotes imobiliários relativamente pequenos destruíram o valor de títulos financeiros lastreados em simples prestações da casa própria, e assim o valor dos investimentos financeiros de bancos. Quebrados por conta e risco próprios, não emprestam dinheiro entre si. Sem capital, temem emprestar à produção.
Para evitar eventual confusão, e desculpas pela obviedade, a estatização da finança do mundo rico não é uma opção pelo dirigismo estatal, mas medida desesperada com o objetivo de evitar que a ineficiência catastrófica do mercado financeiro moderno resulte em desastre ainda maior para a dita “economia real”.
Com US$ 87 bi, Londres faz “estatização” parcial de bancos
São Paulo, quarta-feira, 08 de outubro de 2008 
Com US$ 87 bi, Londres faz “estatização” parcial de bancos
Dinheiro será usado para comprar ações das instituições abaladas pela crise
Governo “investirá” em ações dos principais bancos britânicos; objetivo é tentar capitalizá-los e evitar que papéis caiam mais na Bolsa
Kirsty Wigglesworth – Associated Press![]() |
Agência do Royal Bank of Scotland, em Londres, cujas ações caíram 39% ontem na Bolsa londrina
PEDRO DIAS LEITE
DE LONDRES
O governo do Reino Unido fechou ontem à noite um pacote histórico de até 50 bilhões de libras (US$ 87 bilhões, ou R$ 202 bilhões) de ajuda aos bancos do país, que, na prática, estatiza parcialmente o sistema bancário britânico.
O primeiro-ministro, Gordon Brown, foi praticamente forçado a decidir pelo pacote, ontem, em reunião de emergência depois de um dia em que as ações dos principais bancos do país tiveram enormes quedas na Bolsa londrina.
Até ontem pela manhã, a idéia do governo ainda era estudar melhor o plano pelo menos até a semana que vem. Não deu. Os detalhes devem ser anunciados hoje pelo ministro das Finanças, Alistair Darling, antes da abertura do mercado.
O dinheiro deve ser “investido” em ações dos principais bancos do país, para tentar capitalizá-los e levar a uma retomada da confiança no sistema bancário britânico, com a volta dos empréstimos a outros bancos e a empresas. Ontem, os papéis do Royal Bank of Scotland caíram 39%, enquanto as do HBOS tiveram queda de 42% -isso num dia em que a Bolsa fechou estável, depois da pior queda diária desde 19 de outubro de 1987 -a segunda-feira negra. O único dos grandes bancos a fechar em alta, de 2%, foi o HSBC, visto como o mais capitalizado deles.
Anteontem à noite, dirigentes do RBS, do Barclays, do Lloyds TSB e de outros bancos tiveram reunião secreta com Darling para pedir pressa na decisão sobre o pacote de ajuda aos bancos. O vazamento da notícia reforçou a sensação de vulnerabilidade dos bancos.
Diferentemente do pacote norte-americano, que compra títulos duvidosos em poder dos bancos, mas não coloca dinheiro diretamente neles, o plano britânico segue o caminho apontado por muitos analistas, de “capitalizar” diretamente as instituições.
Além dos 50 bilhões de libras, um fundo também deve ser criado para garantir o funcionamento das operações diárias dos bancos comerciais.
Segundo os principais meios de comunicação do país, o pacote também pode exigir representantes do governo na direção dos bancos e limites para a remuneração de executivos.
O tom do noticiário noturno dá uma dimensão da importância do pacote. “É o fim de uma era”, disse o editor de política da BBC, Nick Robinson, sobre a decisão do governo Brown, do Partido Trabalhista.
Recessão e desemprego
A decisão de resgatar os bancos vem no mesmo dia em que a Câmara de Comércio Britânica disse que o país já está em recessão e pode perder 350 mil postos de trabalho no ano que vem. A taxa de desemprego subiu para 5,5% e está no patamar mais alto desde o início de 1999. Confirmadas as previsões, no ano que vem o Reino Unido terá mais de 2 milhões de desempregados.
Amanhã, o Banco da Inglaterra deve decidir sobre um corte na taxa de juros, hoje em 5%, para tentar estimular a economia, mesmo com a inflação acima da meta. A maioria dos analistas prevê corte de meio ponto percentual, que seria o maior em sete anos.
Hypo Real Estate – Alemanha diz que garantirá depósitos
Alemanha diz que garantirá depósitos
DINHEIRO Medida é anunciada por temor de corrida contra bancos após colapso de socorro de 35 bi à financeira Hypo
Governo fecha novo acordo de 50 bi ao Hypo; Merkel diz que não deixará quebra de banco abalar o país e promete punir banqueiros
DA REDAÇÃO
A Alemanha anunciou ontem que vai garantir todas as contas bancárias privadas do país, numa tentativa de impedir corrida às instituições financeiras nos próximos dias. A medida foi anunciada um dia após a divulgação do fracasso da operação de resgate de 35 bilhões da alemã Hypo Real Estate, uma das maiores do crédito imobiliário da Europa.
Ontem, após intensas negociações entre o governo e banqueiros, o Ministério das Finanças alemão anunciou novo plano de resgate ao Hypo, agora a um custo de 50 bilhões. No primeiro plano, o governo entraria com 27 bilhões. O custo extra de 15 bilhões do segundo plano será dos bancos privados, disse o governo.
A chanceler (primeira-ministra) alemã, a conservadora Angela Merkel, disse que não deixará que a quebra de uma instituição abale a economia alemã, a maior da Europa: “Não permitiremos que as dificuldades de uma instituição abale todo o sistema. Por isso, estamos trabalhando duro para socorrer o Hypo Real Estate”.
Merkel disse ainda que o plano de socorro assegurará que executivos que tenham tomado decisões irresponsáveis respondam por suas ações e que sua punição “é nossa dívida com os contribuintes”.
As ações alemãs de ontem dão novas provas de como o colapso do sistema financeiro americano está abalando fortemente o sistema europeu, onde vários bancos já quebraram.
A Irlanda já havia anunciado na semana passada medida similar à adotada agora pela Alemanha. O governo grego também disse na semana passada que iria garantir todos os depósitos. Os anúncios causaram críticas de outros países europeus na semana passada, que agora podem ser obrigados a tomar medidas parecidas.
Sem limites
O Ministério das Finanças alemão disse que o governo abolirá o limite legal atual que garante os depósitos bancários até 20 mil por conta.
Torsten Albig, porta-voz do ministério, disse que a garantia ilimitada cobre cerca de 570 bilhões (US$ 785 bilhões).
O anúncio foi feito enquanto o ministro das Finanças, Jörg Assmussen, negociava com banqueiros em Berlim um acordo de última hora para socorrer o Hypo, que está listado na Bolsa de Frankfurt e cuja quebra poderia ter implicações ainda piores para os mercados financeiros europeus e globais.
Membros do governo disseram que a decisão de suspender os limites de garantia foi tomada por causa de temores de que a crise do Hypo -que revelou um novo buraco em sua contabilidade no final de semana, precipitando o colapso do pacote de socorro do governo e bancos privados- gerasse pânico hoje.
Um funcionário do governo alemão disse que a forma legal de garantir os depósitos integralmente nos bancos do país será determinada nesta semana e que seu formato ainda está indefinido.
O limite alemão de 20 mil é a garantia de depósitos mais baixa permitida na legislação da União Européia. Muitos países do bloco europeu têm garantias oficiais mais altas. Na França, chega a 70 mil.
O governo da Áustria, cuja economia é estreitamente ligada à da Alemanha, também anunciou que elevará as garantias dos depósitos nos bancos do país, numa medida a ser anunciada na quarta-feira.
Anteontem, em encontro de cúpula em Paris das quatro maiores economias da UE -Alemanha, Reino Unido, França e Itália-, foi anunciado que os governos farão o que for preciso para impedir a quebra de bancos do continente. Muitos têm forte exposição aos papéis “podres” dos bancos norte-americanos, artifícios financeiros complexos lastreados em hipotecas “subprime” (de alto risco), que começaram a registrar calotes, dando início à crise atual.
Mas a cúpula de Paris, convocada pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, terminou sem acordo sobre medidas mais abrangentes de socorro, o que gerou críticas de economistas.
Com agências internacionais
George Soros – Não se pode dar cheque em branco a Paulson
São Paulo, quinta-feira, 25 de setembro de 2008 
Não se pode dar cheque em branco a Paulson
GEORGE SOROS
ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES”
O pacote de resgate de US$ 700 bilhões proposto por Hank Paulson está enfrentando dificuldades no Congresso. E com razão: ele é ineficaz. O Congresso estaria abdicando de sua responsabilidade caso desse um cheque em branco ao secretário do Tesouro. O projeto de lei encaminhado ao Legislativo continha até mesmo cláusulas que isentariam as decisões do secretário de revisão por qualquer tribunal ou agência administrativa o que representaria a realização final do sonho do governo Bush quanto a um Executivo unitário. O histórico de Paulson não inspira a confiança necessária para que lhe sejam concedidos plenos poderes sobre US$ 700 bilhões. Suas ações da semana passada causaram a crise que torna necessário o resgate. Na segunda-feira ele permitiu a quebra do Lehman Brothers e se recusou a fornecer verbas governamentais para salvar a AIG. Na terça, se viu forçado a reverter sua posição e a oferecer à seguradora um empréstimo de US$ 85 bilhões, com condições punitivas. O colapso do Lehman Brothers perturbou o mercado de commercial papers. Um grande fundo do mercado monetário viu sua carteira cair abaixo do valor nominal dos papéis, e os bancos de investimento que dependiam do mercado de commercial papers enfrentaram dificuldades para financiar suas operações. Por volta da quinta-feira, uma corrida aos fundos do mercado monetário estava em pleno curso, e nunca chegamos tão perto de um colapso completo do sistema, desde os anos 30. Paulson reverteu sua posição uma vez mais e propôs um resgate sistêmico. Paulson já havia recebido um cheque em branco do Congresso no passado. Isso aconteceu no caso da Fannie Mae e da Freddie Mac. A solução que ele desenvolveu colocou o mercado da habitação na pior situação possível: os administradores das empresas sabiam que, se o cheque fosse preenchido, perderiam seus empregos, de modo que se reposicionaram e tornaram as hipotecas ainda mais dispendiosas e menos acessíveis. Dentro de poucas semanas, o mercado forçou Paulson a agir e ele teve de tomar o controle das duas instituições. A proposta de Paulson para adquirir títulos problemáticos lastreados por hipotecas apresenta um problema clássico de assimetria de informação. É difícil avaliar os papéis, mas os vendedores sabem mais sobre eles do que os compradores; em qualquer processo de leilão, o Tesouro ficaria com o lixo. A proposta também está repleta de potenciais conflitos de interesse. A menos que o Tesouro pague mais pelos títulos do que eles valem, o esquema não aliviaria os problemas. Mas caso o esquema seja utilizado para resgatar bancos insolventes, o que os contribuintes receberão em retorno? Barack Obama delineou quatro condições que deveriam ser impostas: que os contribuintes tenham algo a ganhar, além de algo a perder; que um conselho bipartidário fiscalize o processo; que os proprietários de imóveis também recebam ajuda, e não só os detentores de hipotecas; e alguns limites para a remuneração daqueles que se beneficiem do dinheiro dos contribuintes. Os princípios são corretos. Poderiam ser aplicados mais efetivamente por meio da capitalização direta das instituições que detém títulos problemáticos, em lugar de medidas de alívio dirigidas aos títulos problemáticos.
Não aos balanços
A injeção de fundos governamentais seria menos complicada se fosse aplicada ao capital e não aos balanços. Um montante de US$ 700 bilhões em ações preferenciais seria suficiente para cobrir o rombo criado pelo estouro da bolha da habitação. Em contraste, acrescentar US$ 700 bilhões à ponta da demanda em um mercado de US$ 11 trilhões poderia não bastar para deter o declínio nos preços da habitação. Algo precisa ser feito do lado da oferta. Para impedir que os preços das casas caiam excessivamente, o número de hipotecas executadas precisa ser limitado ao mínimo. Os termos das hipotecas precisam ser ajustados à capacidade de pagamento dos proprietários de imóveis. O pacote de resgate nada faz quanto a essa tarefa. Realizar as modificações necessárias é uma tarefa delicada que foi ainda mais dificultada pelo fato de que muitas hipotecas foram fatiadas e revendidas na forma de obrigações de dívida caucionada. Os detentores das diversas fatias têm interesses conflitantes. Demoraria demais resolver esses conflitos de modo a incluir um esquema para a alteração dos termos das hipotecas no pacote de resgate. Mas o pacote poderia preparar o terreno para isso, no entanto, ao modificar as leis de falência no que tange à moradia primária.
Nem todos merecem
Agora que a crise está em curso, um pacote de resgate em larga escala é provavelmente indispensável para que ela seja controlada. Reconstruir os balanços combalidos do sistema bancário é o caminho a tomar. Nem todos os bancos merecem ser salvos, mas podemos confiar em que os especialistas do Federal Reserve, sob a devida fiscalização, tomem as decisões corretas. Os comandos das empresas que relutam em aceitar as conseqüências de seus passados erros poderiam ser penalizados cortando seu acesso às linhas de crédito do Fed. Tornar fundos do governo disponíveis deveria também encorajar o setor privado a participar da recapitalização do setor bancário, para pôr fim à crise financeira.
GEORGE SOROS é presidente do conselho da Soros Fund Management
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Allan Meltzer – “Governo confunde interesses públicos com privados”
São Paulo, terça-feira, 23 de setembro de 2008 
“Governo confunde interesses públicos com privados”, diz especialista em Fed
DE WASHINGTON
Um nome lidera o coro dos descontentes com as mudanças pelas quais o Fed (Federal Reserve), movido pela premência do mercado, vem passando. É Allan Meltzer, 80, professor de política econômica da universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh (Pensilvânia), considerado o maior estudioso do BC americano, autor da frase “capitalismo sem quebra é como religião sem pecado -simplesmente não funciona”. Logo que detalhes do plano do governo vieram à tona, ele definiu a proposta como “social-democracia piorada”. Desde então, o veterano economista vem soltando petardos em direção à equipe econômica de George W. Bush. A Folha entrevistou Meltzer sobre a crise em troca de e-mails ao longo do fim de semana. Leia suas respostas. (SÉRGIO DÁVILA)
FOLHA – O sr. disse que as ações recentes do Fed são “inéditas, o banco nunca fez isso”. O sr. vê o Fed assumindo um novo papel, mais interventor?
ALLAN MELTZER – Sim, o Fed já assumiu um novo papel. No passado, cabia ao Congresso e ao Departamento do Tesouro tomar as ações necessárias. O Fed nunca foi um ator importante nessas situações. Agora, o banco sacrificou uma grande parte de sua independência. E eu não vejo a instituição pensando em sobre como fará para voltar ao papel tradicional que deve ter na economia nem em como vai sanar suas próprias finanças.
FOLHA – O sr. acompanha crises econômicas há mais de meio século. Essa é mesmo a pior, em sua opinião?
MELTZER – Não. Essa crise não é a crise de 1929 revisitada. Em 1932, a economia tinha um crescimento negativo profundo e 25% de desemprego. Agora, nós estamos num momento de crescimento positivo e desemprego de 6,1%. Na Grande Depressão, havia poucas salvaguardas ao mercado financeiro. Agora, existem várias. E ninguém espera de verdade uma queda importante do crescimento da economia norte-americana no futuro.
Essa bobagem sobre depressão econômica vem dos bancos e das instituições financeiras de Wall Street que estão tendo grandes perdas. Eles gritam e gritam até alguém cair na conversa e os escutar. Eu já vi esse processo ocorrer várias vezes nos últimos 50 anos. Em poucas delas os gritos resultaram em desastres. Na maioria, nada mais grave aconteceu.
Em 1970, na crise da Penn Central [empresa ferroviária que protagonizou a então maior concordata da história dos EUA], o Fed não fez nenhuma operação resgate ao sistema. Nada aconteceu. Em 1987, na queda das Bolsas, o banco abriu sua janela de redesconto, mas não resgatou ninguém. Na semana passada, o Lehman Brothers quebrou. Em poucos dias, os principais ativos tinham sido vendidos.
O governo e o Fed estão confundindo interesses privados com interesses públicos. E isso é um grande erro.

