Blog de Christy Ganzert Pato
Diálogos em terra arrasadaArquivo paraO keynesianismo e o protecionismo americano
EUA preparam ajuda a mais um banco
São Paulo, sexta-feira, 12 de setembro de 2008 

EUA preparam ajuda a mais um banco
Expectativa é que venda do Lehman Brothers, em crise aguda, tenha ajuda estatal e seja anunciada no final de semana
Resgate montado pelo governo americano atrairá “interessados em bando”, diz o “WSJ’; BofA e HSBC estão entre os cogitados
Kevin Coombs/Reuters![]() |
Funcionários no escritório do Lehman Brothers em Londres; governo dos EUA estaria preparando venda do banco de investimento
DA REDAÇÃO
O governo americano prepara o resgate do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimento dos EUA, negociando sua venda para um consórcio formado por várias instituições privadas, disse ontem o jornal “Washington Post”.
Os detalhes do acordo ainda não foram finalizados, mas a expectativa é que ele seja anunciado neste final de semana.
Em março, o Departamento do Tesouro e o Fed (o BC dos EUA) montaram a venda do Bear Stearns para o JPMorgan, mas, segundo o “Wall Street Journal”, a ajuda governamental ao Lehman não seria nos mesmos moldes. No domingo passado, o governo lançou um pacote de ajuda que pode chegar a US$ 200 bilhões para resgatar Fannie Mae e Freddie Mac, as duas gigantes do mercado de hipotecas.
Além da ajuda do governo, o Lehman Brothers já está negociando com várias instituições a sua venda, segundo fontes envolvidas nas negociações. O Bank of America, o HSBC e outros bancos estrangeiros estariam entre os interessados.
Anteontem, o Lehman disse que desejava negociar a maior parte da sua divisão de gerenciamento de investimentos, mas a necessidade de vender toda a instituição se intensificou depois que as suas ações caíram ontem 41,79%. Apenas nesta semana, os papéis do banco se desvalorizaram em 73,95%. Segundo a agência Moody’s, ele precisa encontrar “um forte parceiro financeiro”. Bancos de investimento são instituições especializadas em operações como aquisição de títulos e não atuam no varejo.
Apesar de as ações do Lehman registrarem mais um dia de forte baixa, foi a notícia do possível negócio que mudou o rumo das Bolsas americanas. Os mercados abriram o pregão com queda expressiva e se recuperaram durante o dia, mas, após a notícia, a valorização se intensificou ainda mais. O índice Dow Jones, o principal da Bolsa de Nova York, subiu 1,46%, e o S&P 500, 1,38%.
Várias instituições já começaram a analisar ontem o balanço do Lehman Brothers, mas não está claro ainda quais estariam realmente interessadas. Porém, os possíveis compradores estão preocupados com os prejuízos do banco e estariam interessados no auxílio do governo para cobrir futuras perdas -como aconteceu na venda do Bear Stearns.
Segundo o “Wall Street Journal”, interessados “aparecerão em bando”, caso o governo dos EUA intervenha no negócio. O jornal afirma ainda que o Bank of America (BofA) já está discutindo preliminarmente com o Lehman Brothers e que parece ser, no momento, a principal esperança para um negócio sair. Só que o BofA recentemente adquiriu a Countrywide Financial (a financiadora de hipotecas que foi uma das abatidas pela atual crise) e provavelmente precisará de ajuda federal para realizar o negócio.
Além disso, as negociações ainda estão no início e por isso, diz o “Wall Street Journal”, é cedo para dizer que tipo de negócio será realizado -caso realmente um acordo seja feito.
Pressões
Mas, se as ações continuarem caindo, crescerão as pressões para que o Lehman finalize logo um acordo, dizem analistas. Uma das vantagens do banco em relação ao Bear Stearns é que, após a venda do rival, o Fed lançou um programa de crédito para bancos de investimento.
Analistas afirmam que os britânicos HSBC e Barclays e o japonês Nomura podem também estar entre os interessados. Um porta-voz do HSBC disse que é “altamente improvável” que o banco entre na disputa pelo Lehman Brothers, que perdeu US$ 6,7 bilhões entre o segundo e o terceiro trimestres fiscais. O prejuízo de US$ 3,9 bilhões no terceiro trimestre foi o maior nos 158 anos do banco.
Anteontem, o presidente-executivo do Lehman Brothers, Richard Fuld, não descartou a venda do banco. “Eu sempre disse que, se alguém aparecer com uma oferta atrativa, ela será levada para o conselho para ser avaliada, e isso não mudou.”
EUA estatizam mercado de financiamento imobiliário
São Paulo, segunda-feira, 08 de setembro de 2008 

VINICIUS TORRES FREIRE
Mercado de mentiras e seqüestros
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Atendendo a pedidos do mercado, EUA estatizam quase metade do mercado de financiamento imobiliário |
O GOVERNO dos EUA estatizou quase metade do mercado de financiamento imobiliário. Não foi estatização? Hum. O governo americano tem agora 80% das ações preferenciais das duas maiores empresas do ramo, botou para fora seus diretores, nomeou os novos, cancelou os dividendos dos acionistas e, divertidíssimo, as proibiu de fazer lobby no Congresso. Qual o nome disso? Se fosse na Venezuela, seria estatização, certo? Antes de alguns detalhes, porém, algumas conclusões: 1. O governo Bush, “antiestatista”, termina com a maior intervenção do Estado na economia americana desde a Grande Depressão dos anos 30. Mas os lucros ficaram com quem criou a lambança financeira; 2. O governo procura evitar mais quebradeiras. Sim, este é um caso de “risco sistêmico” -o risco de a quebra de instituição financeira importante provocar um dominó de falências que prejudica até quem nada tem a ver com o pato. Mas o “racional” e “eficiente” mercado financeiro oligopolizado (“muito grande para quebrar”) tem o monopólio da desculpa esfarrapada “técnica”. Merece o privilégio sistêmico de ser socorrido quando ameaça todo o resto da economia, mas não paga por isso nos tempos de bonança. O outro nome dessa desculpa, “risco sistêmico”, é seqüestro: se você não pagar o resgate, eu mato todo mundo; 3. O mercadismo critica de boca cheia “instituições capturadas por grupos de interesse”, os quais “politizam a gestão econômica em busca de rendas”. Vivem a dizer que “instituições como bancos centrais e agências” têm de ser “independentes” e “técnicas”, que o Estado não deve subsidiar empresas etc. Divertido é que, para essa gente, os “rent seekers”, os seqüestradores das instituições públicas e devoradores de subsídios e impostos, são sempre os outros -nunca a finança. E agora? Ah, ah, ah. Mostrem-me um liberal. O governo americano estatizou as duas maiores financiadoras imobiliárias do país a fim de evitar que elas “desmoronassem”, como dizia ontem um ex-diretor do Banco Central americano. Freddie Mac e Fannie Mae, como são apelidadas, têm ou garantem US$ 5,6 trilhões do mercado de dívida imobiliária americano, de US$ 12 trilhões. Se quebrassem, poderia ocorrer um “tsunami financeiro”, como dizia na quinta Bill Gross, diretor do maior gestor de fundos de renda fixa do planeta, o Pimco (US$ 850 bilhões). Gross pedia ainda que o governo dos EUA comprasse papéis imobiliários podres no mercado. Ontem, além de estatizar Freddie “Fraudy” Mac e Fannie “Phony” Mae, como eram reapelidadas as empresas, o governo anunciou que vai comprar papéis imobiliários. Gross, que tem muitos desses títulos, se dizia ontem “sorridente”. O que fazem Freddie e Fannie? Grosso modo, concedem, compram e revendem financiamentos imobiliários. Isto é, negociam títulos de investimento que têm como fonte de renda a prestação da casa própria (títulos lastreados em hipotecas, “mortgage backed securities”, ou MBS). Os calotes na prestação da casa própria e a perda de valor de tais títulos estão na origem da crise financeira e bancária que jogou areia nas rodas da economia mundial. Se Freddie e Fannie fossem à breca, a economia iria ao brejo. O que pode acontecer? Quem entende muito disso dizia ontem que pode tanto haver festa no mercado como mais medo. Bancos, fundos, hedge funds, BCs pelo planeta e outros detentores e/ou inventores da complexa dívida imobiliária americana podem respirar um pouco. Por ora, ao menos, o círculo vicioso de desvalorização pode ser atenuado. O fato de o governo ter ordenado que as empresas financiem mais hipotecas pode ajudar a derrubar os juros da prestação, que não caíram com a crise e os cortes do Fed. Mas muita ente acha que a crise não vai parar enquanto os compradores de casas endividados não receberem ajuda direta. Outros lembram que muito banco tinha ações de Freddie e Fannie, que nesta segunda devem valer menos do que pó-de-traque queimado. Mas o mais importante de tudo é: o governo americano diz e repete que não vai deixar a peteca cair.
