Blog de Christy Ganzert Pato
Diálogos em terra arrasadaArquivo paraPoder Econômico como Poder Político
Grampo e Estado policial, um terrorismo da imprensa
10 Setembro, 2008 às 1:35 pm · Arquivado em Clipagem de Jornais e Revistas, Clipagem de Política and etiquetado: Poder da Mídia, Poder Econômico como Poder Político, Vícios da Estrutura Social Brasileira
São Paulo, quarta-feira, 10 de setembro de 2008 

MARCELO COELHO
Pânico de gabinetes
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Com todos os abusos que possam ocorrer, uma autoridade grampeada é uma autoridade mais transparente |
ASSUNTO DELICADO, esse dos grampos. Prometo ser cuidadoso no que vou falar aqui, mas eu tendo a discordar do espírito geral dos comentários feitos sobre o tema.
Estado policial, retorno aos tempos da ditadura, da Gestapo, da KGB? Comparações desse gênero viraram moda.
Preocupa bastante, é claro, a disseminação das escutas ilegais. Mas acho que estamos diante de um fenômeno novo, que não se confunde com a antiga realidade dos regimes totalitários.
Tome-se o exemplo da Alemanha Oriental, pátria da famosa Stasi; quem viu o filme “A Vida dos Outros” sabe o pesadelo que era aquilo.
Qualquer suspeito de ser opositor do regime tinha as suas conversas monitoradas.
Numa cena impressionante, uma velhota, vizinha de um cidadão suspeito, abre por acaso a porta do seu apartamento e percebe que um grupo de agentes policiais está no corredor, pronto para instalar os aparelhos de escuta.
O chefe dos arapongas se aproxima da velhota e avisa: se ela contar a alguém o que acabou de ver, sua neta perderá a vaga na faculdade. A velhota fica evidentemente quieta, não revela ao vizinho que ele está sob vigilância e se torna, na prática, cúmplice do regime.
Não é preciso dizer que toda conversa vagamente incriminadora, captada pelos agentes secretos, significa a prisão imediata do suspeito, que, com tortura ou sem tortura, assina uma confissão, é condenado ou provavelmente termina fazendo parte dos informantes do regime.
Para que esse modelo de Estado policial funcione, alguns pressupostos são necessários. O primeiro é que só a polícia detenha os equipamentos de espionagem. O segundo é que a informação passe a ser imediatamente utilizada pelo sistema repressivo. O terceiro é que esse sistema repressivo seja mais ou menos clandestino, ocorrendo à margem da Justiça oficial: cada prisão se assemelha a um seqüestro. O quarto é que, para ter qualquer coisa, emprego, moradia, estudo, o cidadão dependa do Estado.
O funcionamento da “grampolândia” hoje em dia é bastante diferente, e desconhece esses pressupostos.
Se as famosas maletas da Abin podem ser compradas com facilidade por qualquer pessoa, a conseqüência prática não há de ser uma hipertrofia do poder do Estado. A chantagem e a intimidação se tornam via de mão dupla. Os ocupantes do poder têm sido, aliás, mais vítimas do que algozes no processo.
Além disso, as práticas da “grampolândia” costumam ter como destino mais provável não o encarceramento do escutado, mas sim, por meio de vazamentos, as páginas dos jornais.
Tudo, nos tempos da Stasi e da KGB, terminava num porão. Agora, tudo se divulga à luz do dia. Crescem imensamente as ameaças à privacidade, mas a novidade está em que não parecem crescer, ao mesmo tempo, as condições para o surgimento de um Estado totalitário.
Na verdade, com todos os abusos que possam ser cometidos, uma autoridade grampeada é uma autoridade mais transparente, mais submetida ao controle da sociedade.
A escuta telefônica pode ser manipulada para destruir reputações; mas o perigo, aqui, vem antes das possíveis irresponsabilidades da imprensa do que de qualquer tentação totalitária do Estado.
Não é por acaso que tantos protestos contra o “terror policialesco” dos dias atuais provenham das altas esferas do poder. Se escândalos sexuais tomassem o centro das atenções -como acontece no caso dos tablóides britânicos-, a revolta teria razão de ser. Mas o que se noticia são, acima de tudo, negociatas suspeitíssimas com o dinheiro dos contribuintes.
O poder descontrolado da polícia, levando para trás das grades pessoas somente pela suspeita de irregularidades, deve ser coibido, é claro. Atentados aos direitos individuais não têm desculpa. Em que medida, entretanto, o respeito à esfera privada está ligado ao respeito à liberdade individual?
Câmeras de monitoramento se espalham por toda parte. Aumentar seu número é até promessa de campanha dos candidatos a prefeito.
E como esperar que forças policiais, diante de ameaças como o terrorismo ou o narcotráfico, deixem de usar a parafernália técnica que criminosos organizados podem comprar com facilidade?
Não gostaria de saber, é claro, que minhas conversas telefônicas são grampeadas. Costuma ser terrorismo a idéia do “quem não deve não teme”. Tenho meus temores, como todo mundo. Mas acho que muita gente está atemorizada demais.
Bancarrota da banca nacional
8 Setembro, 2008 às 9:07 am · Arquivado em Clipagem de Economia, Clipagem de Jornais e Revistas and etiquetado: Poder Econômico como Poder Político, Vícios da Estrutura Social Brasileira
Folha de São Paulo
São Paulo, sexta-feira, 01 de fevereiro de 2002
TENDÊNCIAS/DEBATES
Bancarrota da banca nacional
FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA
As famílias dos banqueiros sempre “botaram banca”. Elas desfrutaram de muito poder político, no Brasil. Por isso, quando um juiz de 33 anos teve a coragem de pedir a prisão de oito dos réus no caso do Banco Nacional, cumprindo a lei “ao pé da letra”, ele surpreendeu a opinião pública. O pensamento dominante era de que os de “colarinho branco” nunca iriam passar (nem um fim-de-semana) na cadeia.
Um jovem de 34 anos, em 1943, também foi intempestivo com os poderosos de plantão. José de Magalhães Pinto, que na época era diretor do Banco da Lavoura de Minas Gerais (maior banco privado brasileiro de 1947 a 1964, exceto em 1951 e em 1952) e presidente da Associação Comercial, foi demitido por ter assinado o Manifesto dos Mineiros, documento contra a ditadura Vargas.
Curiosamente, a reserva de mercado que os banqueiros brasileiros desfrutaram até 1997 foi concedida por Getúlio Vargas. Ele alegava que os bancos estrangeiros -dominantes no sistema bancário até os anos 1920- trabalhavam com “matéria-prima” nacional: o dinheiro aqui emitido.
Perdido o emprego no Banco da Lavoura, um grupo de amigos cotizou-se para integralizar o capital inicial do Banco Nacional, criado em 1944.
Esse grupo era capitaneado pelo criador da UDN em Minas. Levou Magalhães Pinto para a política. Foi eleito deputado federal em 1945.
Magalhães liderava a “bossa nova” (a esquerda da UDN) contra a chamada “banda de música” (a direita do partido), comandada por Carlos Lacerda. Antes de se tornar governador de Minas Gerais, em 1960, derrotando Tancredo Neves (PSD), chegou à presidência nacional da UDN. Via a política como uma carreira em que tinha de galgar todos os postos. Alcançar a Presidência da República foi uma obsessão sua.
Vinte anos depois de assinar o manifesto contra a ditadura, ele articulava, abertamente, o golpe militar de 1964. O “líder civil” do golpe acabou numa posição secundária, afastado pelos militares que não se dispunham a abrir mão do poder conquistado.
Há um ditado mineiro que diz: “O melhor cabo eleitoral é a agência bancária”. Era difícil distinguir a figura do banqueiro da do político. O banco beneficiou-se tanto da força política de Magalhães Pinto quanto este da força econômica do Nacional. E o Banco Nacional foi o segundo maior banco privado brasileiro de 1957 a 1964.
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[Banqueiros] têm de saber o que é a “socialização dos seus prejuízos” em termos de casas populares, postos de saúde ou escolas |
A prisão dos banqueiros é simbólica da possibilidade de construção de uma nação democrática. Acontecimentos recentes, analisados como um todo, constituem um marco a respeito de mudanças na vida nacional.
Houve a derrocada de quase todos os bancos de origem fora de São Paulo, exceto o Unibanco, cujo nascimento ocorreu em Poços de Caldas. Os grandes bancos privados da Bahia (Econômico), de Minas Gerais (Nacional, Real e Bandeirantes, herdeiros do Lavoura) e do Paraná (Bamerindus), entre outros, sucumbiram. Os bancos dos governos estaduais foram exterminados.
Bancos estrangeiros ingressaram no mercado de varejo. Alguns já saíram. Foram retirados “esqueletos” dos “armários” dos bancos públicos federais. Eles já não assombram tanto.
Mas a morte dos patriarcas banqueiros -Clemente de Faria, José de Magalhães Pinto, Amador Aguiar, Walter Moreira Salles, Eudoro Villela e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal- talvez seja o marco maior do nascimento de uma nova era na gestão dos bancos. Eles vivem uma transição de escala em suas operações e mudam o tipo de gestão de familiar para uma gestão profissional.
Aqueles banqueiros que ficaram “na política”, não prepararam uma hegemonia clara na sucessão e não investiram em tecnologia e em escala sucumbiram. Os que incorreram em gestões temerárias ou fraudulentas -crimes de colarinho branco, como empréstimos a empresas do grupo ou empréstimos fictícios- sofreram ondas de boataria e corridas bancárias. E quebraram.
O processo de fusões e aquisições para os grandes e médios bancos que ainda restam será mais rápido ou mais lento de acordo com o tamanho do ego dos banqueiros em admitir a necessidade das parcerias e de perder o comando exclusivo de seu negócio. Essa disputa tem sido acirrada, no caso de fusões de bancos brasileiros que têm controle familiar e empregam várias pessoas da família.
As famílias evitam abrir mão das mordomias que o poder propicia. Elas ainda não entenderam, claramente, a emergência do Estado de Direito. Quando este passa a estabelecer novas regras democráticas, os banqueiros deixam de participar diretamente da política. Cargos nos governos já não garantem privilégios. E os banqueiros não se arriscam a ser candidatos, passando a ser meros financiadores de campanhas eleitorais. Quando cometem “crimes com a caneta”, podem até ir para a prisão.
Atualmente, eles, banqueiros, têm de ter a consciência do que representa a “socialização dos seus prejuízos” em termos de casas populares, escolas ou postos de saúde.
Fernando Nogueira da Costa, 50, professor do Instituto de Economia da Unicamp, é coordenador da área de economia da Fapesp. É autor de “Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista”, entre outros.